Através do Éter – Bem Vindo a Nova Glória

 

“Temos rumores de um acordo de paz entre as nações, o que pode significar novo comércio para nossa pequena cidade. Claro, isto se o governo conseguir livrar de todos estes piratas.”

-A Voz de Nova Glória

 

No cais de Nova Glória, três pessoas assistiam um navio afundar.

Este é o seu navio? – Disse o homem vestido com um casaco marrom. – Se minha memória não me falha, você disse que era capitão de seu próprio navio etéreo, não de uma pilha de entulho.

-Não seja dramático. – Disse o homem vestido de verde. – Um mecânico competente pode fazer o Robalo voar de novo em uma semana. – Ele parou um momento para admirar um buraco de canhão no casco da embarcação. – Bem, Talvez duas.

-Presumo que possa pelo menos pagar pelos concertos.

-Com os dobrões na minha mala podemos pagar por um mastro novo, mas então ficaríamos sem teto ou comida.

-Pelo menos tem uma fonte alternativa de dinheiro? Alguém que possa dar um empréstimo, um dividendo, alguma coisa que possa vender?

-Não. O plano era apresenta-los ao Robalo, o resto eu iria improvisar. – Respondeu o homem de verde. – Na verdade, agora que tocou no assunto acho que estou devendo para algumas pessoas.

-E outros membros da tripulação? Você mencionou que metade da tripulação sobreviveu ao ataque pirata, talvez ainda tenha alguém por perto…

-Todos fugiram daqui assim que chegaram. Eu fui o único que sobrou, por isto fui promovido á capitão.

O homem do casaco marrom fechou os olhos, cobriu o rosto com a mão e gritou uma série de profanidades. Ele teria usado as duas mãos, se o outro braço não estivesse imobilizado por um gesso.

-Fica calmo. – Disse a mulher vestida com um poncho negro. – Ele gastou o dinheiro salvando sua vida, você devia agradecer.

-Me desculpe capitão. – O homem de marrom continuou cobrindo o rosto por alguns segundos antes de se recompor. – Hoje foi um dia particularmente estressante.

-Vocês agora são da minha tripulação. É seu dever reclamar quando seu capitão estraga tudo. – O homem de verde tentou um sorriso reconfortante. Os óculos de proteção sobre seus olhos refletiam a imagem do navio naufragado, Robalo era o nome escrito no casco em laranja.

Os três permaneceram em silêncio nos minutos seguintes, observando a nau etérea afundando até que sua base tocasse o solo, deixando metade da embarcação acima da superfície.  Diversas outras naus estavam atracadas ao cais, e mais algumas desciam do céu para pousar na lagoa artificial.

-Não vamos pensar nos problemas. – O homem de verde se virou para trás e começou a andar em direção á cidade, madeira do cais rangendo sob seus pés. A mulher do poncho negro o seguiu imediatamente. – Vamos passar a noite comemorando. Eu conheço um bar aqui perto.

-Comemorar? – Após um momento de confusão, o homem de marrom seguiu os outros. – O que nós temos para comemorar? Não temos dinheiro, navio, mão de obra ou trabalho.

-Nós estamos vivos! Isto não é o bastante? Vamos comemorar termos sobrevivido á manhã, comemorar nova aliança que formamos e então comemorar o futuro glorioso do Robalo.

O homem de marrom abriu a boca para contestar o capitão, mas decidiu que afogar seu cérebro em bebida seria a única maneira agradável de terminar aquele dia.

Os três caminharam para o centro de Nova Glória: Uma pequena cidade de madeira desgastada e tijolos empoeirados construída na superfície da lua, um Porto-Lunar como centenas de outros na galáxia.

Eles chegaram a um edifício rústico no centro da cidade, feito de madeira mais desgastada, mas mais limpo que todos os prédios ao redor. Um sinal de neon piscava no topo do segundo andar, onde O Açucareiropiscava em letras amarelas.

-Tripulantes do Robalo, digam olá ao melhor bar da cidade. – O homem de verde liderou seus colegas pela porta-balcão, chamando a atenção da única pessoa no local: Uma mulher de braços metálicos varrendo o chão. – E conheçam minha velha amiga…

-Você só veio aqui uma vez. – Ela respondeu.

-Conheçam minha nova amiga, Alice…

-Nem sei seu nome.

-Conheçam a pessoa que odeia boas introduções, Alice Harlas.

Alice encostou a vassoura contra o balcão e se voltou para os visitantes, um sorriso cansado em seu rosto e mão erguida para um cumprimento.

-Eu estou brincando com vocês. Pode ser novo por aqui, mas eu nunca esqueço um cliente, senhor Jonas. – O homem do casaco verde respondeu o aperto de mão, não se surpreendendo com o frio dos dedos de ferro. –Se me lembro bem, você ia partir de Glória hoje. “Vender toda a carga que sobrou e voltar para meu planeta”, não foi o que disse de manhã?

-Era o plano. E como todos os planos ele falhou quando foi posto em prática, e então tive de improvisar. – Respondeu capitão Jonas, levantando os óculos de proteção e revelando seus olhos cinzentos marcados por olheiras profundas. Então ergueu os braços para o ar, como se apontando para um teatro invisível. – La estava eu, andando para o cais e pegando atalho por um beco, e encontro estes dois emboscados por uma das gangues locais.

-Vamos guardar esta parte da história em segredo ou alguém vem quebrar nossos joelhos. – Interrompeu a mulher do poncho negro. – Ele nos salvou, e agora somos membros da mesma tripulação. Fim.

-Então Jonas. – Alice continuou. – Além de capitão agora também é um herói?

-Por enquanto só o primeiro título. Tudo o que fiz foi atirar em alguns capangas e subornar o líder da gangue com uma caixa de rubis.

-A… Caixa de rubis com que ia comprar sua saída daqui? A última mercadoria que sobrou de seu navio?

-Permita-me pular para a conclusão da história. – O homem de marrom explicou, contando cada detalhe em sua mão saudável. – Nós somos uma tripulação de apenas três pessoas, com recursos financeiros severamente limitados e em um porto que mal conhecemos. Ah, e não podemos nos esquecer do navio inoperante.

Alice encarou o trio de braços cruzados enquanto pensava em uma resposta apropriada, com a expressão de alguém vendo um amigo fazendo algo humilhante em público.

-Vocês vão ficar bem. – Ela se voltou imediatamente para o capitão, tentando mudar de assunto antes que alguém percebesse. –Você se esqueceu de apresentar seus novos amigos.

-Bem lembrado. –O capitão apontou um braço cerimonialmente para o homem de marrom. – Este é Eli Aros, ex-corsário e líder de seu próprio navio comercial. Bem, pelo menos antes daquela tempestade etérea destruir tudo, mas não foi culpa dele.

Eli deu um passo á frente e apertou a mão de Alice. Ele era um homem baixo e redondo, de mãos marcadas pelo trabalho duro e olhos verdes atenciosos. Sua cabeça era careca, exceto por um trecho de cabelo castanho em sua nuca e um galho cheio de folhas verdes que crescia de sua testa.

-E esta…. – Jonasergueu seu outro braço em direção á mulher de negro. – É Movna… Lua? Lunar?

-Morvana Nascida-Sob-A-Solitária-Lua-Crescente. – Ela corrigiu. – Mas só Movna já é o bastante.

Ela deu um passo á frente e se curvou para Alice com a mão direita sobre o peito. Movna era uma mulher alta e atlética. Seu rosto era coberto por cabelos emaranhados da cor do cobre, e ao redor de seu olho havia a tatuagem de uma lua do mesmo tom.

-Desculpe a pergunta. – Alice começou. – Mas você é Etérita ou Agnae?

-Para a sorte dos clãs eu sou uma Agnae.

-Então a tatuagem Etérita… – A atendente do Açucareiro levantou as palmas artificiais, interrompendo sua própria pergunta e impedindo qualquer tentativa de resposta. – Apenas sejam bem vindos ao Açucareiro. Ainda estamos nos preparando para a noite, mas sintam-se a vontade de sentarem e se servirem.

Jonas e Movna se sentaram á uma mesa num canto, ao lado de uma janela de metal transparente. Eli Aros, que se intitulou o novo tesoureiro do Robalo, ficou responsável pelo orçamento e de alugar um quarto para o grupo.

Minutos depois ele chegou a mesa, trazendo uma garrafa de Rum, um ábaco e alguns papeis sob seu braço.

-Vai fazer contas agora? Estamos aqui para beber e comemorar. – Disse Jonas enquanto se servia um copo.

-Para sua sorte sou competente o bastante para fazer todas estas tarefas ao mesmo tempo. – O tesoureiro se sentou, serviu-se um copo, deixou suas ferramentas sobre a mesa e colocou um par de óculos, tudo em uma rápida sucessão de movimentos mecânicos. – E em nossa condição não temos o luxo de uma noite sem trabalho.

-Fique a vontade. – Jonas falou, sabendo que em breve o bar estaria cheio de pessoas bêbadas, apertado, repleto de música e vozes altas. Manter concentração naquele ambiente seria como encontrar um tesouro perdido no grande vazio.

 

***

 

Três horas depois Eli continuava completamente focado em seus papeis, em contraste com o resto do Açucareiro.

-Ele não levanta a cabeça, não toca no rum e nem muda de posição. Parece uma estátua que escreve e faz contas. – Capitão Jonascomentou assombrado, antes de esvaziar seu copo. – Ele sempre trabalha assim ou estamos tão desesperados assim?

-Eu só trabalhei com ele uma semana. E quando me contratou ficamos ocupados fugindo da máfia. – Movna bebia distraidamente, balançando em sua cadeira com os pés sobre a mesa. – Só os titãs acima sabem como ele é em dias normais.

-Em primeiro lugar, não discutam sobre pessoas a menos de um metro de vocês como se não estivessem na sala. – Disse Eli. – Em segundo lugar, terminei nosso orçamento. – Ele guardou sua pena-caneta no bolso do casaco e empurrou alguns papeis para seus colegas.

-É melhor explicar. Não estou sóbria o bastante para burocracia. – Disse Movna.

O tesoureiro guardou seus óculos e limpou a garganta antes de continuar.

-Vamos resumir então. Com o dinheiro que temos, podemos pagar por comida e teto pelos próximos três dias, e ainda pagar os impostos para manter o que restou do navio atracado. Podemos conseguir mais tempo se descartamos o navio e…

-Não. – Cortou o capitão.

-Jonas, nessas condições reparar o navio custaria quase o mesmo de pagar por um novo, e do jeito que ele está é tão útil quanto se não tivéssemos navio nenhum.

-Três dias são o bastante para encontrar mais dinheiro. – Jonas bateu seu copo contra a mesa com um baque audível. – O Robalo fica.

-Jonas, por favor…

-Considere esta a minha primeira ordem.

Eli Aros suspirou em frustração, pensando em uma resposta. Abriu a boca para falar, mas desistiu ao ver o olhar severo do capitão. Ao invés disto deslizou contra a cadeira e esvaziou o copo de rum que havia servido horas atrás.

Houve alguns minutos de silêncio desconfortável, em contraste com as conversas constantes do Açucareiro e a música da violinista local. Minutos que se passaram lentamente para os três.

-Estamos numa taverna. – Movna disse, partindo o silêncio em pedaços. – Alguém aqui deve ter uma oferta de emprego ou uma recompensa por um animal perdido. Precisamos de dinheiro, então procuramos aqui mesmo.

A expressão do tesoureiro se iluminou enquanto uma ideia se formava atrás de seus olhos e um sorriso se formava em seu rosto, antes de se levantar subitamente, erguer o copo e bater contra ele com sua pena-caneta. O ruído estridente se espalhou pela sala e chamou a atenção de todos ao redor. Eli se virou de forma que todos pudessem ver o gesso em seu braço e então falou:

-Me desculpem senhores, mas hoje é uma data especial: Minha esposa acabou de dar luz á nossa filha, e mesmo com o acidente no caminho do hospital ela nasceu saudável e bem. – Alguns comemoraram, sorrindo e assobiando. – E para comemorar eu gostaria de pagar a próxima bebida de todos vocês.

Muitos comemoraram: alguns batendo palmas enquanto outros se apressaram para pedir o vinho mais caro disponível.

-Pensei que tínhamos pouco dinheiro. – Resmungou Jonas.

-Mas nós temos de investir se queremos algum retorno. – Disse Eli Aros. – Agora, por exemplo, nós temos a simpatia de um salão inteiro de pessoas. Até o xerife da cidade está aqui. Basta uma história sobre precisar de alguma forma de sustentar minha “família”, uma dose do velho charme da família Aros, e amanhã teremos pessoas implorando para nos dar seu dinheiro.

Ele se virou para a multidão do Açucareiro, andando entre as mesas e trocando cumprimentos. Capitão Jonas o observou por alguns momentos antes de se voltar á sua bebida.

-Isto é novo. – Movna tomou a cadeira recém vazia, ficando de frente para o capitão. – Eu nunca o vi com tanta confiança.

-Uhum. – Foi a única resposta de Jonas, enquanto balançava seu copo e assistia o rum girando. – Ei, Movna, se importa se fizer uma pergunta pessoal?

-Fique a vontade. Se for pessoal demais talvez eu te atire pela janela.

Jonas olhou para a janela ao lado, considerando sua sorte. A cidade do outro lado estava cheia de trabalhadores cansados, animais de carga e alguns membros da guarda local. Quase todas as luzes elétricas da cidade estavam desligadas, deixando apenas as runas de sol inscritas nas paredes como fonte de iluminação, formando o que se passava por noite naquela lua.

-Vamos arriscar. – Ele falou. – Você faz parte dos clãs Agnae, certo?

-Agnae da classe dos Mavrata, do clã Coruja.– Ela estendeu ambos os braços de forma teatral, imitando a introdução do capitão quando chegaram. – Esta sou eu.

-Mavrata, significa “Protetor” no dialeto, certo? – A Agnae confirmou com um aceno antes que ele continuasse. – Sabe, eu servi com alguns de vocês durante a guerra: Meia dúzia de Mavratas como guarda costas de nossos oficiais. Alguns tinham ponchos coloridos, mas todo o resto tinha ponchos pretos como o seu.

-O ritual de passagem. – Movna falava em tom baixo, quase sussurrando, debruçando-se sobre a mesa para que ele pudesse ouvir. – Os mercenários dos clãs usam ponchos negros até acharem um líder digno, e então mudam as cores das roupas para as de sua bandeira. O Mavrata do seu grupo nunca explicou isto?

-Os veteranos não eram de falar muito, e os novatos morreram antes de pintar os ponchos.

Após uma pausa de silêncio, a Agnae ergueu seu copo para o ar, sussurrando algo inaudível antes de beber todo o rum em um gole, então relaxou e se encostou de volta á cadeira.

-Não foi tão ruim. Quando disse“pergunta pessoal” achei que ia falar algo desagradável. – Ela faloucom seu tom normal de voz.

-Por que não fiz a pergunta ainda. Eu queria falar de sua tatuagem.

-Ah. – Movna Respondeu, olhando para a janela.

-Você é dos clãs Agnae, mas tem uma tatuagem de nascença das tribos Etéritas.

-Sim, continue. – Ela batia com dois dedos contra o metal transparente, testando sua resistência.

-Os dois grupos se odeiam há séculos, todo mundo sabe disto, então como isto funciona? Você é filha de um casal proibido? Foi sequestrada quando bebê? É fruto de um experimento científico para criar um super-soldado?

Ela suspirou em frustração. –Vou te poupar do voo, mas não vou dar segredos da minha vida quandovocê mesmo guarda todos os seus. Seu sobrenome, para começar: Desde que nos conhecemos você fez tudo para escondê-lo. Nem Alice sabe… “senhor Jonas”.Como isto funciona? Você é um criminoso fugitivo?Filho bastardo do Lorde Staunen? Talvez um experimento científico de super-soldado…

-Que tal uma troca? Conto um pouco da minha história e você conta um pouco da sua? – Jonas sugeriu e a Agnae concordou com um aceno de cabeça. – Mas que tal uma aposta? Uma competição de bebidas. Nós bebemos canecas de cerveja até alguém não aguentar mais, e o perdedor conta seu segredo.

Ela se recostou na cadeira, com um sorriso confiante no canto dos lábios.

-Vou avisar que já venci este jogo com pessoas maiores do que eu. Vamos ver se estes braços finos aguentam mais um copo.

 

***

 

-Isto é trapaça! Não sei como mas isto é trapaça. – Disse Movna entre soluços, caída sobre a mesa com o poncho ao avesso cobrindo sua cabeça.

Horas haviam se passado. Poucos clientes restavam no salão do Açucareiro, e inúmeras canecas vazias restavamsobre a mesa dividindo espaço com uma Agnae alcoolizada. Capitão Jonas, por sua vez, se encontrava perfeitamente sóbrio, sem qualquer alteração em seu corpo exceto pelo cheiro.

Após um longo gole de uma caneca, ele a botou sobre a mesa com um baque e limpou o bigode de espuma para então responder.

-Não, é só um truque do meu corpo. Eu nunca consigo ficar bêbado, não importa quantas garrafas eu tomo.

-Sério? Por que ainda bebe se não é para ficar bêbado? – Em resposta, o capitão simplesmente deu um balançar de ombros. – Pelo menos não tem de aguentar a ressaca.

-Há. – O capitão gritou. – Fique sabendo que amanhã minha cabeça vai arder mais que uma fornalha. Todos os problemas do rum, e nenhuma das vantagens.

-Completamente merecido… Mas, parece queperdi a aposta e estou devendo um segredo.

-Não se preocupe, só sugeri a aposta para mudar de assunto. Eu não devia arrancar informação de minha tripulação deste jei–

-Fique quieto antes que te mande dormir no fundo da lagoa. – Ela interrompeu e uma mão surgindo de debaixo do poncho apontando um dedo para o rosto do capitão. – Tenho esta lua no olho por que nasci num navio Etérita e numa família Etérita. Então me juntei á um navio Agnae e uma família Agnae para virar alguém competente, e não ficar presa admirando estrelas enquanto piratas matam todo mundo que conheço. Aí está tudo que precisa saber.

-Eu… –Ele começou. – Obrigado pela história. Aprecio o voto de confiança.

Movna não respondeu, permanecendo quieta sob seu abrigo de pano. Ele esperou pacientemente por uma resposta, talvez mais uma informação pessoal que ela juntava forças para poder contar, até que ouviu o roncar vindo de baixo do poncho.

Sem ninguém próximo com quem conversar, ele se recostou contra a cadeira e tentou apreciar a vista de fora. Naquela hora noturna as ruas estavam vazias, em contraste com o céu completamente inundado de estrelas, todo o território humano visível sobre a pequena cidade. Mais próximo do que qualquer estrela havia uma linha azul brilhante atravessando toda aquela vista, a Corrente 32, um rio de Éter que transportava embarcações rapidamente pela galáxia.

Algo chamou a atenção de capitão Jonas: a ponta de uma bandeira aparecendo sobre os prédios vinda do cais, uma bandeira vagamente familiar. Quando tentou reconhece-la um barulho estridente o interrompeu.

Um tilintar de sino vindo do balcão, tocado por Alice para mostrar o fim dos serviços daquela noite. O público restante se levantou e cambaleou até a saída, exceto por Eli Aros que voltava á mesa.

-Aqui está. – Eli ergueu uma massa de papeis em sua mão. Seu rosto sorridente estava vermelho até as orelhas, mas suas pálpebras pesavam de cansaço. – Endereços de navios procurando portripulantes, nomes de patronos possivelmente interessados, convites, cartazes de recompensas, panfletos de lojas, sugestões de bancos a serem assaltados e mapas da cidade inteira. Tudo o que precisa para fazer uma fortuna e salvar sua querida pilha de madeira. Tudo graças a ingenuidade de Eli Aros.

-Obrigado Eli. – Jonas se levantou, deixou os documentos sobre a mesa e deu apoio para o tesoureiro antes que caísse. –Agora vamos comemorar com uma longa noite de sono.

Jonas levou os dois membros de sua tripulação para o quarto que alugaram, carregando-os sobre os ombros para subir as escadas e os deixou em suas camas, antes de voltar ao salão e buscar seus pertences.

Seus pés estavam cansados, mas sua mente agitada, ainda excitada por tudo o que aconteceu naquele dia e o que viria no futuro próximo. Seus dedos folhearam os papeisde Eli, buscando tempo para refletir antes de outra noite sem conseguir dormir.

Um dos papeis chamou sua atenção, um retrato familiar acima de um nome e valor em dinheiro.

-Alice! – ele Gritou, erguendo a folha em direção ao balcão. – Sabe quem é este?

-O que? – Alice Harlas ergueu a cabeça por detrás do balcão onde guardava os copos usados. – Ah, isto é uma recompensa da União Hominae. O governo não tem pessoal o bastante para manter a lei na cidade, então deixam recompensas de criminosos para quando a Guarda de Hélios passa por aqui.

-Eu sei o que é um cartaz de recompensa. O que preciso saber é se já  viu este homem por aqui.

Alice observou o retrato por alguns momentos, coçando seus cabelos amarelos enquanto pensava.

-Capitão Baltazar. É um pirata que temos por aqui. Ele passa pela cidade entre saques, mas passa a maior parte do tempo no navio ou no cassino. Conhecido seu?

-Não pessoalmente. Mas vamos nos encontrar em breve. – Ele voltou á mesa, organizando tudo sobre ela. – Se importa se usar o salão esta noite?

-O donos não gostam de estranhos sozinhos no bar.

-Posso limpar o salão no seu lugar.

-Chaves sobre o balcão vassouras no mesmo armário de sempre e lembre-se de trancar tudo quando terminar. – Ela respondeu imediatamente enquanto jogava o avental por cima de uma mesa e se apressou para fora do Açucareiro.

Jonas deixou o cartaz de recompensa aberto, junto das notas mais provavelmente úteis e um espaço vazio onde planejava adicionar várias outras até o amanhecer.

Suas mãos ajustaram os óculos de proteção sobre os olhos e ajustou o casaco, se preparando para uma noite inquieta de trabalho.

 

***

 

A delegacia da União Hominae estava vazia como sempre, até que um estranho se esgueirou á porta.

Uma chave de fenda e um fio de arame dobrado foram o suficiente para abrir a fechadura enferrujada. A porta se abriu com um rangido e capitão Jonas entrou.

Camas vazias e armários fechados acumulavam poeira dentro daquela cabana, iluminada por uma única runa de sol na coluna central. Os poucos empregados da União Hominae em Nova Glória tinham suas próprias casas na cidade, e não passavam mais tempo do que o necessário naquele edifício.

Capitão Jonas vasculhou o local, com cuidado para não passar entre a coluna e a janela, para que ninguém nas ruas visse sua silhueta.

Em meia hora ele encontrou o armário de uniformes e o arquivo local, retirou tudo o que precisava e partiu, dando andamento ao seu plano.

 

***

 

 

-Nós vamos sequestrar um capitão pirata?

-Sim meu caro Eli. – Jonas respondeu, sem tirar os olhos da laranja que descascava. – Mas não é exatamente um sequestro, vamos apenas separá-lo dos guardas, captura-lo, entrega-lo á União Hominae, pegar a recompensa e salvar nosso navio. O que parece um sequestro, mas é o governo que está nos pagando. Tudo isto está explicado no quadro.

-Temos que ter esta reunião aqui fora? – Movna disse, cobrindo seus olhos das luzes do ambiente.

Os três se encontravam novamente no cais, em frente aos restos do Robalo. Era dia em Nova Glória, todas as luzes estavam acessas e as ruas estavam tumultuadas novamente.

-Por que o ar fresco faz bem á cabeça, e precisamos tirar o máximo possível de nossas mentes. – Ele sugou um pouco da fruta antes de continuar. –Isso e o quadro era grande demais para caber no bar.

Atrás de Jonashavia um grande quadro negro apoiado sobre um tripé. Tachinhas prendiam uma série de documentos, mapas e anotações por toda sua superfície. Eli Aros se aproximou dele e examinou algumas de suas notas, ligadas por fios de barbante colorido amarrados ás tachinhas.

-Vou admitir: este plano pode soar suicida, mas parece ter bastante pesquisa como base. Você deve ter acordado cedo para fazer tudo isto. –Disse Eli.

-Acordar? Eu nem dormi esta noite. Passei essas últimas doze horas correndo pela cidade, fazendo perguntas, subornando gente, decorando mapas… Eu até consegui encontrar uma feira de frutas.

Eli encarou Jonas em silêncio, enquanto este botava uma fatia de laranja na boca.

-Fica calmo. – Jonas continuou. – É uma anomalia do meu corpo que faz com que não sinta sono.Eu estou perfeitamente lúcido.

-Você não fica bêbado e não precisa dormir? – Movna grunhiu. – Eu te odeio consideravelmente agora.

-Bem, eu ainda preciso dormir, biologicamente, mas só sinto a falta depois de dois ou três dias acordado. – Jonas explicou, escondendo o fato de não ter tido uma noite de sono nos últimos cinco dias. – E isto não vai atrapalhar por que vamos executar o plano esta noite.

-Hoje? – Eli quase gritou de surpresa. – Não… Não prefere esperar mais um dia para reunirmos mais recursos? Ou então encontrar algo que não nos ponha em risco de morte? Ainda temos muitas opções.

-Por que amanhã vão terminar de concertar o navio do nosso alvo e ele vai partir para outra parte do sistema. O pirata vai passar esta noite no casino enquanto espera os reparos, a nossa última deixa para chegar até ele.

-Se o paradeiro deste pirata é tão óbvio e acessível quanto está implicando, por que então a União Hominae não o prende de uma vez?

-Eles podem ser donos oficiais desta lua, mas tudo o que têm é meia dúzia de agentes. Agentes que nem podem entrar no cassino por ser propriedade privada da família Octavius. – Jonas levantou um dedo e o bateu contra uma parte do quadro. – De novo, está tudo explicado bem aqui.

-Você sabe que ainda temos várias opções mais seguras? Não garantem tanto dinheiro mas são suficiente para nossa situação. Admiro o trabalho que fez com este quadro e todo este pano, mas nós simplesmente não temos recursos para fazer isto de maneira apropriada. – Eli ergueu a mão e começou a contar com os dedos enquanto falava. – Não temos pessoal, não temos contatos, não temos armas…

-Temos tudo o que precisamos bem aqui. – O capitão do Robalo abriu um sorriso largo e confiante.

-Com todo o respeito capitão, mas se falar neste quadro mais uma vez…

-Não o quadro. Nós temos uns aos outros.

Ao invés de continuar e explicar o que disse, Jonas levou a laranja á boca e sugou tudo o que restava do suco em um único gole. Eli observou imóvel, sentindo uma de suas pálpebras vibrando involuntariamente.

-Retiro o que disse, por incrível que pareça o quadro seria uma motivação melhor do que isto… – Havia uma gota de pânico na voz de Eli.

Jonas finalmente terminou a laranja, jogou os restos em um saco plástico ao ladoe limpou as mãos na camisa.

-Soou piegas demais? – Capitão Jonas finalmente respondeu. – Mas é verdade, nós três podemos ser o começo da melhor tripulação de todo o Círculo Delta, e conseguir recompensa é a primeira chance de provar isto. – O capitão do Robalo se aproximou de seus tripulantes e colocou as mãos sobre seus ombros. – Lembram de ontem quando lidamos com a gangue do Yaakov? Como sobrevivemos á tudo aquilo? A emboscada, ao tiroteio, aquela bala que perfurou seu braço.Foi por isso que insisti que se juntassem á minha tripulação, por que admiro vocês, e não pediria para fazerem nada que não achasse que conseguiriam. Eli, Ontem você enganou um bar inteiro e adquiriu informação vital apenas com uma oferta de bebida e uma mentira. Imagine o que pode fazer com a recompensa e um pouco de ajuda? Este pode ser o maior negócio que já fez, maior que qualquer frota mercante ou qualquer prêmio corsário. Algo que nenhum tempestade pode destruir.

-Andou ensaiando este discurso? – Eli falou no momento que seu capitão parou para respirar.

-Foi uma manhã muito ocupada. Mas cada palavra foi verdade.

-Para sua sorte meu ego é meu ponto fraco. Muito bem, capitão, você tem minha ajuda por hoje…

-E Movna. – Jonas se virou para ela. – Já deixei um amigo morrer antes de conseguir uma cor para o poncho, e isto não vai acontecer de novo. Eu juro que enquanto trabalhar comigo—

-Pare. – Ela interrompeu. – Vou poder usar violência em um pirata?

-Provavelmente.

-Então não precisa de discurso, estou dentro. Explique o plano para podermos voltar ao bar.

Jonas se afastou dos dois e se postou em frente ao quadro.

-Muito bem. – Ele começou. – Prestem atenção por que vamos sequestrar um capitão pirata.

 

***

 

O Casino Octavius iluminava as casas ao redor como uma estrela no grande vazio.

Placas de neon enfeitavam suas paredes, piscando ritmicamente e alternando entre várias cores fortes. Pequenos holofotes iluminavam cartazes espalhados pelos três andares do prédio, chamando atenção aosjogos e artistas disponíveis ali.

Do interior se ouviam sinos, vozes energéticas dos maiores artistas de Nova Glória e os mecanismos de caça-níqueis. Havia gritos tanto de comemoração e frustração, os últimos sendo consideravelmente mais comuns.

Jonas observava a cena á distância, escondido pela sombra dos becos. Ele olhava para o prédio através de uma luneta, identificando entradas, janelas, escadas e possíveis rotas de fuga.

Todos estes detalhes já estavam gravados no mapa imaginário dentro de sua cabeça, mas era importante verificar se houvesse alguma mudança repentina, e ainda mais importante saber se Eli sobreviveria ileso ao seu papel.

-E se tiver um imprevisto? – Perguntou uma voz acima de Jonas.

Movna estava sentada na beira de um telhado, além do alcance das luzes da rua, tão quieta que Jonas quase se esqueceu de que estava lá.

-Não se preocupe com isto. – Ele respondeu. – Sempre tem um imprevisto. Hoje talvez tenha um que estrague toda a missão.

-É… Bom saber.

-Por sorte nos últimos vinte anos a vida me ensinou a improvisar, principalmente durante tiroteios, então estou preparado. – A sua voz então se tornou mais fria e pesada. – Mas se eu for pego por alguém e não voltar me considere morto e peguem o próximo navio para fora do porto.

-Você é ótimo em levantar moral—Movna parou repentinamente, não fazendo nenhum ruído, então voltou a falar em sussurros. – Eli chegou. Onze horas e quinze minutos, perto da estátua.

Jonas apontou a luneta para aquela direção, seguindo os ponteiros de um relógio imaginário, e por ela viu a estátua de aço na entrada traseira do casino. A estátua representava o fundador da família Octavius sobre seu cavalo, no meio de um pequeno jardim.

E sob a estátua estava Eli Aros, cercado por cinco guardas armados.

Eles formavam um semicírculo ao redor do tesoureiro. Daquela distância não era possível ouvir o que diziam, mas pelo vidro da luneta podiam-se ver gestos e linguagem corporal.

Nenhum dos guardas tinha armas em mãos, mas mantinham as mãos ao alcance dos sabres e pistolas. Todos estavam protegidos com armaduras de Argila, uma liga metálica aumentada por runas capaz de proteger de pequenas armas e leve o bastante para ser escondida debaixo de roupas.

Eli Aros se mantinha impassível, se tornando uma montanha no meio da tempestade. Ele gesticulava com firmeza, mostrando um documento para todos os guardas.

Jonas ergueu um punho no ar, pronto para dar o sinal para que Movna interferisse no momento que algo desse errado. Se desse o sinal sem necessidade o plano seria arruinado, mas se demorasse demais a reagir a Agnae não chegaria á tempo.

A tensão pesava como uma âncora, mas Jonas manteve a aparência de calma e confiança, como se era esperado de um capitão.

A discussão sob a estátua continuou e os movimentos dos guardas de se tornaram mais violentos, até que um deles desembainhou sua espada e a apontou contra o peito de Eli.

Jonas apertou os dedos contra a palma, tentando resistir a vontade de dar o sinal.

Eli Aros cruzou os braços por trás das costas e falou com uma expressão condescendente. O guarda respondeu com fúria, mas abaixou a espada, deixando o tesoureiro dar a volta e caminhar para longe.

Após garantir que não atacariam Eli pelas costas, Jonas recolheu a luneta e a jogou para Movna, então cruzou os braços e torceu para que ninguém pudesse ver seus dedos tremendo.

Alguns minutos depois Eli surgiu de um beco, rosto completamente pálido. Ele vestia um casaco da União Hominae, de pano branco e detalhes índigo. No peito havia o emblema da organização: Um círculo contendo um punho fechado.

-Então, como foi? – Movna disse, sentada casualmente na beira do telhado, onde todos pudessem vê-la.

-Foi um tanto mais… Estressante do que eu esperava. – Disse Eli. – Mas no final minha atuação os convenceu.

-Sim, você fez um ótimo trabalho. – Disse Jonas.

-Este disfarce também ajudou consideravelmente. Esta réplica é incrivelmente parecida com um uniforme de verdade.

-Ei, você não tinha um braço quebrado? – Disse Movna.

-Ah, sim. – A cor voltava lentamente ao seu rosto, mas seu nervosismo ainda era óbvio. – Como pode ter visto pelo galho em minha testa eu sou um Hominae Flora, e quando necessário nós podemos nos recuperar rapidamente de danos ao corpo…

-Isto fica cada vez mais injusto. – Ela falou. – Alguém mais tem um truque no corpo? Imunidade á venenos? Vocês atiram veneno pelos olhos?

-Vamos nos focar. – Jonas disse com uma palma erguida ao ar. – Agora é minha parte. Movna, fique nos telhados e fique de olho nas janelas. Vou entrar e trazer o alvo para o ponto que combinamos, quando então você dá o sinal.

-Não que seu disfarce também não seja convincente, mas tem certeza de que não vão te descobrir? – Eli perguntou.

-Estou vestido de funcionário público, então só preciso agir como se devesse estar lá e nem vão me notar. E fui eu que insisti no plano, então é meu dever fazer a parte mais perigosa. – Jonas colocou uma caixa de papelão sob o braço e limpou seu macacão. – Está pronto para a sua próxima parte?

-Posso tentar, mas é improvável que consiga enganar membros reais da União.

-Não vai ser problema, você só precisa usar do velho charme da família Aros. Convença-os de que o pirata vai explodir uma bomba nas ruas, traga-os para cá e siga o sinal da Movna. – Com isto Jonas fez uma pequena saudação e partiu para o covil pirata.

Facilmente ele passou pela entrada da frente, andando com passos apressados e a expressão irritada de alguém que trabalhou o dia inteiro. Os guardas e clientes o ignoraram quando passou pelo portão de metal transparente.

O primeiro andar o lembrava do Açucareiro, mas mais luxuoso e extravagante em todos os sentidos. Os clientes eram donos de negócios e visitantes importantes, todos os móveis eram de madeira delicadamente esculpida e acolchoada com couro, o chão era coberto por um carpete limpo e macio, os vinhos eram caros e o palco era ocupado por uma banda e dançarinas, ao invés de uma única violinista.

-Entrega para a gerência. – Jonas grunhiu para uma segurança de roupas formais, entregando uma prancheta e caneta. Ela assinou sem sequer ler a mensagem escrita e indicou o terceiro andar.

Ele decidiu subir pelas escadas, praticamente inutilizadas em comparação com o elevador ao lado, pois mesmo com poucos andares nenhum dos patronos queriam fazer o esforço naquele local de luxo. Passando pelo segundo andar pode-se ouvir o som dos jogos de azar: uma mistura de apitos e engrenagens por trás de uma porta trancada.

O terceiro andar era mais quieto, fechado por uma porta prateada com uma placa escrita: “convidados especiais”.

Ao abrir a porta viu-se um grande salão de mesas de jogos, coberto de fumaça de cachimbo e cheiro de bebida. Haviam doze mesas dedicadas á jogos de cartas, meia dúzias delas ocupadas por jogadores e empregados distribuindo cartas, mas não por sorte não haviam seguranças á vista.

Na mesa do centro estava Baltazar Terceiro, capitão pirata e criminoso procurado.

Mantendo seu disfarce, Jonas atravessou a sala e entrou no banheiro. Lá as torneiras douradas refletiam sua imagem,e os azulejos eram limpos o bastante para duvidar se alguém sequer entrava ali.

Ele entrou em um dos cubículos e se despiu de todas as peças de seu disfarce, revelando as roupas casuais por baixo, dobrou o macacão e o guardou dentro da caixa para deixa-la em cima da privada. Do banheiro saiu um homem comum, apenas outro trabalhador de Nova Glória, de mãos tremendo e medo em seus olhos.

Sete tripulantes da Barracuda sentavam ao redor da mesa, bebendo copos de uísque enquanto jogavam com um baralho de tarô. Todos tinham tanto cicatrizes quanto ferimentos recentes, e alguns tinham membros mecânicos para substituir os que faltavam.

Jonas se aproximou e sem qualquer introdução se sentou á mesa enquanto falava:

-Eu tenho… Anh… Uma proposta para seu capitão.

Como resposta, uma pistola foi apontada para sua testa.

Quando tentou continuar, uma espada foi sacada e encostada contra sua garganta.

-A Madame odeia sangue no tapete. – Disse o homem segurando a espada, um pirata vestindo um chapéu tricone enfeitado com penas vermelhas. – Então se sair daqui agora mesmo a gente não te abre feito um peixe.

Boquiaberto, Jonas abaixou os olhos para a lâmina em seu pescoço, vendo três runas férricas esculpidas em sua lateral. Uma fumaça cinzenta exalava de sua ponta.

-A-A União está vindo atacar vocês esta… Nesta mesma noite. – Os piratas se entreolharam, surpresos. – Mas só eu… Bem, só eu posso ajuda-los a escapar.

-E quem é você para saber disto? – Perguntou outro pirata fora de sua visão.

-Tem um… Um navio, chamado de “Robalo”. Eu acho que vocês o conhecem…

-Sim, estivemos em batalha com ele á cinco dias atrás. Matamos algum parente seu?

-Pois bem, eu… – Jonas engoliu audivelmente, com cuidado para não se cortar. – Eu sou um dos sobreviventes da tripulação.

Houve um momento de silêncio entre todos na mesa, interrompido quando uma segunda espada foi sacada com um assobio metálico.

-O maldito veio para se vingar e admite na nossa cara. – Disse o pirata do chapéu empenado. -Vamos enforca-lo aqui mesmo, assim não vai ter sangue para a madame reclamar.

-Sergei, chega. – Disse Baltazar Terceiro, capitão da Barracuda. Todos os piratas hesitaram. – Ele parece saber algo. Vamos ver se diz algo útil, depois decido se corto a garganta dele.

Baltazar era um homem grande, mais alto que qualquer um no casino e largo demais para sua cadeira. Sua grossa cabeleira castanha cobria quase todo seu rosto, competindo com a barba igualmente desenvolvida.

Ele descansava sua cabeça sobre um braço apoiado contra a mesa, seus olhos douradosestavam entreabertos como se prestes a dormir. Na outra mão brincava com um dobrão de ouro, movendo a moeda de um dedo á outro.

Os piratas guardaram suas armas, mas em seus olhos mantiveram olhares violentos.

-Mas antes precisamos saber como entrou aqui. A madame não dá convites para qualquer um. – Disse Sergei.

-Óbvio. – Interrompeu Baltazar antes que Jonas pudesse responder. – Ele entrou disfarçado de mensageiro e se trocou no banheiro quando vocês não estavam vendo.

-Ahn… – Jonas continuou por um momento. – Me desculpe, mas… Ahn…

-Você só está falando por que permiti. – Baltazar segurou a moeda em sua palma e a apertou com força. – Então fale direito, ou deixo meus homens fizerem o que quiserem com seus intestinos.

Jonas abriu a boca mas ficou em silêncio, olhos virando rapidamente de um lado para outro enquanto planejava o que dizer. Para a sua própria surpresa, ele se sentia completa e perfeitamente calmo, mesmo com os riscos e repetidas ameaças.

Ainda sim, continuou com a farsa de insegurança. Em sua experiência, bandidos e piratas como Baltazar eram mais fáceis de lidar quando achavam que estavam no controle.

-Desculpe a invasão, mas tinha de falar com vocês ainda essa noite. – Ele finalmente respondeu. – A União Hominae vai tentar capturar vocês no caminho de volta para o navio.

-Não perca o tempo do capitão. – Disse Sergei. – A União não é ameaça para ninguém aqui e têm menos do que uma dúzia de soldados em um navio velho. O que eles podem fazer contra nós?

-Eu fiquei sabendo que houve um acordo de paz, e que a União, os Filhos de Ares e os Cavaleiros Hospitalários vão reabrir comércio. Parece que este Porto-Lunar fica perto de uma Corrente importante que liga as nações… – Jonas começou a explicar.

-Tá bom, mas o que isso tem a ver com a Barracuda? – Interrompeu um dos tripulantes.

-Uma mostra de poder. – A voz de Capitão Baltazar soava como um trovão, surgindo sem aviso e calando todos os outros sons ao redor. – A mão azul quer mostrar que é quem realmente manda na cidade, não os Octavius ou os Lordes Piratas. – Ele despejou uísque no copo a sua frente. – Os homens de branco querem fazer isto derrubando um lorde pirata sob proteção Octavius para toda a população ver. – Então parou de falar e empurrou o copo até Jonas. – Agora, como um arrombado como você sabe disto?

-O governo não tem muitos soldados, certo? Bem… – Jonas bebeu do copo em um único gole e o devolveu para o centro da mesa, onde um pirata o encheu de uísque novamente. – Estão recrutando pessoas para uma milícia que vai emboscar vocês. Quando souberam o que aconteceu com o Robalo me convidaram para a operação, achando que eu queria vingança. Tinham acabado de me explicar o plano quando vim pra cá.

-Quando então você ficou com pena dos piratas que destruíram seu navio e resolveu fazer caridade? – O pirata ao lado falou enquanto levava a mão ao cabo da pistola.

-Obviamente tenho um preço. Eu quero… Anh… – Disse Jonas. -Quinhentos dobrões e um bom posto na sua tripulação.

-Acabamos com sua tripulação e agora quer se juntar á nossa? – Sergei disse.

-Eu nunca gostei do Robalo mesmo. – Jonas aproveitou para tomar seu segundo copo de uísque para limpar a garganta. – Sabe, quando atacaram meu navio e abriram um monte de buracos nele, metade da tripulação morreu, a outra metade desbandou e o que sobrou do Robalo está no fundo da lagoa. A gente abriu um bom número de buracos na Barracuda, mas não só o navio foi concertado em menos de uma semana como sua tripulação está aproveitando a vida num casino. Não quero me juntar á União e ganhar salário de empregado público, eu quero é me juntar ao lado que sabe viver bem.

Houve silêncio, piratas se entreolharam, passando mensagens ente si através de gestos e expressões sutis. Todos exceto pelo capitão deles, completamente imóvel.

Na parede próxima havia uma pintura á óleo, representando um dos grandes titãs cavalgando pelo Éter próximo á lua, e ao lado dela uma janela que dava vista aos telhados e ruas da cidade abaixo. Em um destes telhados movia-se uma silhueta familiar, envolta em uma capa negra.

-Cinquenta dobrões, é o que vai ganhar. – Baltazar voltou a trovejar. – Temos vagas para tripulantes, mas vai ter de suar se quiser ter qualquer importância. Entendido?

-Estou salvando vocês. – Jonas quase gritou, mas parou um momento para controlar sua voz. – Mereço pelo menos umas cem moedas.

-Não. Agora que sabemos da emboscada minha tripulação pode lidar com isto. Agradeça que não te jogamos pela janela.

-Certo, cinquenta dobrões, eu… Eu posso começar com isto. – Frustração e resignação derramavam da voz de Jonas enquanto esfregava sua nuca.

Por dentro ele se sentia perfeitamente satisfeito. Pelo o que conhecia do mundo egoísta da capa-e-adaga, alguém que oferecesse ajuda por um preço baixo sempre guardava segundas intenções, enquanto que alguém que cobrasse um preço alto era um bandido de ganancia confiável.

Ele continuou coçando o pescoço por alguns segundos, o bastante para que Movna percebesse um dos sinais combinados: “tudo segue como planejado.”.

-Ótimo. – Baltazar levantou a garrafa de uísque. – Diga tudo o que sabe, então planejamos uma fuga para fora desta lua. – Ele esvaziou a garrafa em um trago intenso, para em seguida jogá-la no chão e quebra-la em dezenas de pedaços. –E quando voltarmos vamos demolir cada prédio da cidade até aprenderem a lição.

 

***

 

Jonas saiu cambaleando do casino após todo o uísque que acabou tomando. Sua aparência de medo e nervosismo foram substituídos pelos trejeitos de um bêbado.

Atrás dele seguiam oito tripulantes da Barracuda, com armas em seus cintos e em seus casacos negros o símbolo de seu capitão: O polvo caolho dos piratas circulado por dois peixes de dentes afiados.

-Senhor Baltazar? – Um dos guardas perguntou quando o grupo passou pelo portão. –A madame avisa que todos os clientes devem esperar nos salões. Recebemos ameaças do governo e estamos esperando por confirmações.

-Há quanto tempo enviaram o mensageiro? – Perguntou Sergei.

-Umas três horas. – continuou o guarda.

-Acredite, meu jovem, vocês não vão ver o mensageiro tão cedo. – Quando Jonas falou todos ao redor puderam sentir o cheiro de álcool em seu hálito. – Os casacos brancos não querem ninguém atrapalhando esta noite. Agora mesmo ele deve estar numa cela na delegacia.

Na realidade capitão Jonas sabia que o mensageiro foi interceptado por Movna, e provavelmente estava desacordado em algum beco escuro.

-Que seja. – Baltazar continuou em direção ás ruas de Nova Glória, seguido por sua tripulação e Jonas. O grupo caminhou até que o casino se tornou uma imagem distante. Logo chegaram á uma encruzilhada deserta de onde as luzes do cais podiam ser vistas, quando o capitão pirata voltou a falar. –Sergei, escolha três e distraia quem encontrar. Eu e o resto seguimos pelo caminho combinado, pegamos o navio e bombardeamos os filhos de uma pistola.

Sergei ajustou o chapéu em sua cabeça, escolheu três dos maiores piratas do grupo e saudou á Baltazar. Os quatro saíram correndo pela rua principal em direção ao cais.

Quando saíram de vista, Baltazar e os que restavam seguiram por uma rua lateral, em um caminho deserto onde as runas de sol mal mantidas deixavam longas sombras onde podiam se esconder. O grupo seguiu silenciosamente próximo as paredes.

-Até agora tudo indo muito bem – Jonas falou, em voz alta o bastante para revelar sua localização á qualquer um próximo. O pirata a sua frente sinalizou para que falasse mais baixo antes que continuasse. – Acho que estamos indo bem o bastante para aumentarmos meu prêmio. Que tal uns setenta dobrões?

-Foi bom lembrar. – Baltazar, que seguia em frente do grupo, parou no meio do caminho e se virou para trás. –Rapazes…

Antes que pudesse reagir, capitão Jonas teve seus braços agarrados por trás e imobilizados contra suas costas.

E antes que pudesse falar, Baltazar se aproximou e lhe socou no estômago, tirando todo o ar de seus pulmões.

-Seu rato. – A voz de Baltazar era feita de puro desprezo, enquanto estalava seus dedos e pescoço. – Ninguém suborna a Barracuda. Você vem querendo nos amedrontar procurando por migalhas? E ainda quer um local em nossa tripulação? Temos tradição de executar todos os traidores, não importa de que lado estejam.

-Mas eu não… Eu estava falando a verdade, a União realmente vem… – Jonas foi interrompido por outro soco em sua barriga, sentindo como se fosse esmagado por um encouraçado.

-Não importa. Nós não temos pena de covardes e carniceiros. Mas sabe o que é pior? Você veio daquele maldito navio, o Robalo.

-O que o Robalo tem… – O soco seguinte atingiu Jonas no rosto. Ele sentiu o gosto de sangue.

-Ele era para ser uma presa fácil, com um único canhão e sem armadura. O maldito escapa e ainda deixa a Barracuda ferida por uma semana. Não sei onde o capitão está para me vingar, mas um tripulante que vem esfregar a humilhação em minha cara? Vai ser o bastante. Rapazes, quando eu terminar com ele, pendurem o corpo onde toda a cidade possa ver.

Capitão Jonas tentou olhar para trás, mas a posição onde o seguraram não deixava ver o bastante.Um dos piratas segurava seus braços, e pelo som de passos havia uma ideia de onde os outros estavam.Ele fez um mapa mental dos arredores, tentando decorar a posição de cada pessoa neles.

Aquela rua mal cuidada não era o local que tinha em mente para a próxima etapa, mas teria de servir.

-Tente não matar nenhum deles. – Ele gritou.

-O que? Acha que nós vamos ter pena de…

-Calado, não estou falando com você. – Jonas abandonou a farsa de medo e intoxicação. Não havia mais um oportunista bêbado e amedrontado, mas um capitão orgulhoso e autoritário. A surpresa foi o bastante para manter Baltazar quieto. – Eu estava falando com ela.

Foi então que o caos começou.

O pirata que segurava os braços de Jonas foi puxado violentamente para cima dos telhados, desaparecendo na escuridão gritando em desespero.

-Emboscada! – Baltazar gritou ao desembainhar sua espada. Os outros dois piratas fizeram o mesmo, e logo as runas de ferro brilhavam prateadas nas sombras da rua.

Neste instante, capitão Jonas se virou seguindo seu mapa mental e avançou contra um dos piratas, que olhava para cima a procura do atacante misterioso, o agarrou pela garganta e o derrubou contra o chão com impacto que levantou poeira.

O outro pirata próximo ergueu a espada para um golpe, quando uma pessoa foi atirada do alto e o atingiu. Os dois piratas caíram no chão, e Movna pousou próximo á eles, punhos erguidos em posição de luta.

Jonas retirou a pistola do homem que havia derrubado e a apontou para Baltazar antes que estepudesse reagir. As runas no cano da pistola reagiram á sua vontade e começaram a reluzir, prontas para atirar uma bala no momento que sua mente ordenasse.

-Obrigado Movna. Sem você este imprevisto teria me matado. – Ele gritou para a colega. – Cuide deles enquanto mantenho papai no lugar.

Baltazar Terceiro se manteve parado em frente á Jonas, com fúria nos olhos e apertando o cabo da espada com força o bastante para deixar seus dedos brancos. Ainda sim ele não arriscou se aproximar.

-É isto? – Gritou. – Então você é um rato trabalhando para a União em troca de migalhas.

-Boa tentativa, mas errou. Eu sou Jonas, capitão do Robalo. Você quebrou meu navio e agora vai servir para pagar o concerto. – Ele fez uma pequena reverência. – Prazer em conhecê-lo.

Atrás de si Jonas ouvia sons de violência e algum objeto de madeira se quebrando, mas já passou tempo o bastante ao lado de guerreiros Agnae para saber os resultados da luta.

A face de Baltazar estava vermelha como seu sangue, mas apesar da fúria calmamente ergueu a espada acima da cabeça e deu um passo para trás.

-Ei, não é educado fazer movimentos bruscos quando alguém aponta uma arma para você. – Jonas investiu um pouco mais de vontade na arma, fazendo suas runas brilharem intensamente, prestes a atirar no momento que sua vontade mudasse ligeiramente.

-Já vi meus cartazes de procurado. Você não ganha nada se me matar. – Baltazar gritava enquanto dava mais passos para trás. – Vai arriscar sua vida por dinheiro?

E então deu uma carga contra Jonas. Seu corpo enorme se moveu com a velocidade e fúria de um touro, seus passos bateram contra o chão de pedras como uma bate estacas, e sua espada deixou um rasto prateado no ar.

Jonas abaixou sua arma alguns centímetros e deus três tiros.

Três balas cortaram o ar com assovios estridentes e atingiram o capitão pirata na barriga. O impacto o derrubou no chão.

-Boa tentativa, mas errou de novo. – Ele então se aproximou do corpo de Baltazar para ter certeza de que este não sangraria até a morte, já tendo visto tiros no estômago o bastante para saber que levavam horas para matar. Mas também sabia, por experiência própria, que nenhum ferimento era tão previsível quanto se gostaria.

Quando chegou ao corpo de Baltazar, viu os buracos que as balas deixaram em sua camisa. E por estes buracos viu a armadura de Argila que o pirata vestia escondido.

Dois grandes punhos agarraram as pernas de Jonas e o derrubaram.

Quando Jonas se recuperou do impacto, Baltazar se erguia sobre ele. Uma bota atingiu seu peito, arrancando todo o ar e o prendendo no lugar.

-Chega. – Baltazar gritou, ignorando as tentativas de Jonas para derruba-lo ou pelo menos afastar sua bota, se abaixou e pegou o sabre derrubado do chão. – Chega de você e chega do seu maldito Robalo.

Baltazar ergueu sua arma e deu uma estocada para baixo.

O poder das runas tornava a lâmina em que estavam inscritas mais resistente e afiada, capaz de perfurar não só carne e osso, mas qualquer metal não rúnico com facilidade.

Foi este mesmo poder das runas que salvou a vida de Jonas, quando este sacou a pistola e com ela bloqueou o golpe á centímetros de seu rosto. A lâmina da espada cortou o cano da pistola até que a ponta saísse pelo outro lado, antes de ficar presa em seus mecanismos.

Após um momento para entender o que aconteceu, Baltazar empurrou a arma para baixo, movendo a ponta exposta, usando toda a sua força e fúria.

Jonas por sua vez empunhou a arma para cima com todo seu desespero, mas a força de seus braços finos não era o bastante e a ponta da espada se aproximou, centímetro por centímetro.  A competição durou alguns segundos, enquanto passos soavamao redor dos dois.

-Desista! Você morreu no momento que tentou me enganar. – Capitão Baltazar urrou.

O sabre tocou a bochecha de Jonas. Uma linha de sangue escorreu pela sua face. Ainda sim ele abriu o sorriso mais aberto e irritante que conseguiu.

-Por que eu deveria? Você é que está cercado.

Houve o som de armas sendo engatilhados. Quando Baltazar olhou para trás, sete guardas da União Hominae apontavam seus rifles para ele.

-Capitão Baltazar Terceiro, você está preso por pirataria, assassinato, destruição de propriedade pública, ameaça de terrorismo, tráfico ilegal de escravos e uma série considerável de outros crimes. – Disse um homem de cabelos e bigode grisalhos atrás da linha de atiradores, o xerife de Nova Glória.

-Seu maldito… – Baltazar terceiro falou, preste a fazer algo quando uma bota o acertou na cabeça, em um chute forte o bastante para derruba-lo desacordado ao chão.

Todos os piratas da Barracuda estavam caídos, alguns desmaiados e outros incapazes de se levantar. Nenhum deles podia oferecer mais perigo á tripulação do Robalo.

-Obrigado Movna. – Jonas disse quando ela se abaixou ao seu lado e o ajudou a levantar. – Já estava cansado da voz dele.

-Não precisa agradecer. Chutar cabeças piratas é meu dever de vida. – Ela respondeu.

O xerife apontou para os dois e tentou dizer algo, mas foi interrompido por uma voz familiar detrás dele.

-Não há por que se preocupar com os dois, Alexandre. – Disse Eli Aros, surgindo dentre os guardas. – Estes são meus ajudantes. Eles foram encarregados de atrair os larápios da Barracuda para minha armadilha, e não teríamos sucedido sem eles.

-Ah sim, inquisidor Aros, entendo. Perdoe minha precipitação. – Alexandre pigarreou, então apontou para os piratas caídos no chão. – Rapazes, prendam todos exceto pelos dois de pé. E tragam-nos para a delegacia.

Os guardas obedeceram, prendendo os tripulantes e capitão da Barracuda. Eli se aproximou de seus colegas do Robalo.

-Vocês se feriram? – Sussurrou.

-Vou ter várias manchas novas amanhã, mas nada preocupante – Jonas disse enquanto limpava o sangue em seu rosto. – Inquisidor Aros?

-Eu sei que o plano era me passar por um oficial comum, mas acabei perdendo controle de minha pequena farsa e agora sou membro estimado da Mão Oculta. – Eli sussurrava. – Mais arriscado do que gostaria, mas teve resultados.

-Você acabou de salvar minha vida, então não posso reclamar. – Capitão Jonas se virou para Movna. – E você?

-Acabei quebrando alguns ossos. – Ela respondeu, tirando um dos dentes presos em sua luva. – Mas nenhum meu, então está tudo bem.

-Bem, com isto resolvido. – Capitão Jonas se virou de volta para Eli. – Temos de sair antes que comecem as perguntas. Pode resolver isto com seu novo amigo?

-Observem e vejam. – Eli se curvou levemente antes de voltar ao xerife de Nova Glória.

Logo os guardas reuniram a tripulação da Barracuda em um grupo, todos com braços algemados e unidos por uma corda amarrada entre eles, e os guiaram para uma carruagem próxima.

-Muito obrigado, agente Aros. – Disse o xerife Alexandre. – Graças á sua ajuda finalmente prendemos um dos bandidos mais influentes da cidade.

-Estou apenas fazendo meu serviço á humanidade, meu colega. – Eli respondeu. – Mas espero que entenda que algumas informações sobre este caso são pertinentes apenas á Mão Oculta. Acredito que tenha evidência o suficiente para prender todos estes bandidos, então quando escrever seu relatório poderia “esquecer” de citar o meu envolvimento, assim como a de meus colegas e a ameaça de bomba.

-Sinto muito senhor, mas não sei do que está falando. Nenhum agente da Mão Oculta pisa neste Porto á anos. – Alexandre piscou um olho da forma mais chamativa possível.

-Ah, se todos os oficiais que encontro fossem tão prestativos. Mais uma coisa, eu prometi para meus ajudantes o dinheiro da recompensa por Baltazar e seus comparsas. Como inquisidor a serviço do ministério eu poderia simplesmente exigir o serviço deles sem qualquer custo, mas…

-Sim, questões de honra. Entendo perfeitamente.

Quando Eli Aros se despediu e seguiu pela rua, levava em sua mão uma pesada sacola de moedas. Jonas e Movna se juntaram á ele no meio do caminho. O capitão assoviou em admiração quando viu o número de dobrões dourados que havia dentro.

-Eu disse que conseguíamos. – Jonas falou quando tinha certeza que nenhum dos guardas podia ouvir. – Agora temos a recompensa e podemos concertar nosso navio. Não é o suficiente para concertar tudo, mas é um começo.

Na distância cavalos galopavam e puxavam a carruagem de prisioneiros para longe, quando uma voz familiar gritou, soando como um trovão distante.

-Isto é… Preocupante. – Disse Eli enquanto olhava para trás. – Não que acredite que ele possa escapar da prisão, mas muitos de seus subordinados ainda estão livres e provavelmente vão tentar se vingar. O que devemos fazer?

-Por hoje já acabaram todos os meus planos geniais. – Apesar de seu cansaço, Jonas tinha um sorriso genuíno no rosto. – Vou deixar o dinheiro com vocês enquanto eu estiver ocupado.

-Ocupado? – Movna falou incrédula. – O que você ainda tem para fazer hoje?

-Tirar uma longa e merecida noite de sono.

 

***

 

Quando Jonas foi acordado, a luz do dia entrava pela janela e seu corpo doía como se estivesse sendo devorado por uma serpente-do-éter.

Ainda sim, era o mais descansado que se sentia nos últimos cinco dias.

-Ei, calce suas botas. – Disse Movna, ao lado da cama e o empurrando pelo ombro. Pela primeira vez desde que a encontrou ela estava sem seu poncho, apenas suas roupas cor de areia. – Temos uma surpresa te esperando lá embaixo.

-Bom dia para você também. – Ele grunhiu enquanto esfregava seu rosto com as mãos. Incapaz de pensar em algo para falar, se levantou e começou a amarrar seus sapatos.

Movna se sentou na cama oposta, de cotovelos apoiados sobre joelhos enquanto esperava.

-Sabe, na a luta de ontem eu ouvi sua conversa com Baltazar. – Ela falou em uma voz baixa e levemente melancólica.

-O que, exatamente?

-A parte de ser ele que destruiu o Robalo.

-Ah. – Ele ficou completamente parado por um momento, mãos segurando cadarços no ar enquanto pensava no que dizer. – Bem…

-Não explique. Eu entendo vingança, eu e ela somos amigas íntimas, e entendo por que fez tudo isto.

-É… Bom que me tenha perdoado…

-O que não entendo é por que escondeu isto. Nós somos sua tripulação, seus colegas… Pelos titãs acima, nós somos seus amigos. Quer que eu soque uma serpente-etérea na cara? É só pedir. Quer que eu lute com uma tripulação inteira de piratas? Sem problemas. Mas se vamos trabalhar juntos não podemos guardas segredos.

Jonas voltou a amarrar suas botas, sem qualquer palavra ou expressão até terminar.

-No exército nós tínhamos uma regra. – Ele voltou a falar, ainda encarando seus pés. – Em missão nós somos informados apenas do que precisamos para nenhuma informação vazar. Não que não confie em você e Eli, mas só os conhecia á um dia e não sabia como vocês se viravam em uma operação mais complexa. Mas… – Com um dedo limpou o suor frio em sua testa. – Bem, não estamos mais no exército, não é? Acho que me acostumei demais com o jeito que fazíamos as coisas.

-Este não é o problema. O problema é que você guarda segredos demais, não só do seu plano, mas de tudo. Ainda não sabemos seu sobrenome ou com quem serviu, ou qualquer coisa sobre quem você é.

-Movna, eu… – Ele levantou seu rosto e a encarou. – Eu quero que esta tripulação dê certo e que o Robalo volte a voar. Eu prometo que vou ser honesto com vocês daqui em diante, mas não posso me abrir de uma vez. Eu fiz muitas coisas ruins, arruinei vidas demais e tenho sangue em minhas mãos. Vou precisar de muito tempo para criar coragem e falar sobre isto.

-Isto eu também posso entender. Prometo te dar todo espaço e tempo que precisar, mas se esconder algo sobre um trabalho ou qualquer coisa que ponha qualquer um do grupo em risco, eu, Morvana Nascida-Sob-a-Solitária-Lua-Crescente, prometo te jogar para fora da janela mais próxima. Entendido?

-Sim, entendido.

-Ótimo. – A voz dela voltou ao tom despreocupado de sempre. – Agora vamos descer antes que Eli mate Alice de tédio.

Os dois desceram pelas escadas do Açucareiro, degraus rangendo a cada passo. Jonas se sentiu tentado a perguntar por que tantos naquela cidade queriam lhe defenestrar, mas resistiu. Antes de chegarem ao salão já podiam ouvir a voz entusiasmada de Eli.

-E então o xerife me reconheceu e perguntou: “Você não era o desempregado de braço quebrado que tinha acabado de ter uma filha?”. Não preciso explicara surpresa que senti. – Ele gesticulava energeticamente ao falar, sentado ao balcão com orgulho no rosto. Alice Harlas ouvia atentamente enquanto limpava as mesas. – Mas então me lembro de que um membro da família Aros já foi Grande Inquisidor, e rapidamente crio uma história sobre como estava disfarçado em uma investigação da Mão Oculta.

-Olá pessoas. – Jonas falou em voz alta ao entrar no salão. – Espero que seu dia esteja sendo menos doloroso que o meu. – Comprimentos foram trocados. Ele se sentou, serviu um pouco de chá para si e Movna enquanto Eli terminava sua história. Quando sua dor de cabeça começou a diminuir, ele falou: – Então, qual é a surpresa que queriam me mostrar?

-Ah, sim, bem aqui. – Eli se virou para a cadeira ao lado e de cima dela retirou uma pilha de roupas. – Nós três conversamos sobre como você tem nos ajudado, sobre o que conseguimos ontem e sobre nosso futuro aqui em Nova Glória. Durante a conversa decidimos que, se você vai ser o capitão desta nova tripulação vai precisar se vestir como um.

Em cima da pilha havia um sabre guardado em uma bainha negra com símbolos dourados de animais:A espada de Baltazar Terceiro. Jonas ergueu a arma para o alto, assobiando em admiração.

-Eu convenci os guardas da delegacia que a mão Oculta precisava desta espada como evidência. – Eli explicou.

Na pilha também havia um quepe e um casaco, ambos azuis do modelo típico usado por capitães mercantis. Examinando o quepe, via-se a silhueta laranja de um peixe costurada em seu centro.

-Eu fiz isto. – Disse Movna entre goles de chá. – Ainda estou pensando em como vai ser nossa bandeira, mas até lá podemos usar este emblema.

Capitão Jonas se vestiu e prendeu a espada em seu cinto. Alice trouxe um espelho de mão para que ele pudesse se olhar.

Um sorriso se abriu em seu rosto quando viu seu reflexo, largo o bastante para se refletir em seus olhos. Fazia anos desde que vestia um uniforme, e havia se esquecido do quão confortável se sentia neles, como era se sentir parte de algo maior.

-Eu não sei como agradecer. – Jonas sussurrou, sem tirar seus olhos do espelho. – Este é o melhor presente que já recebi.

-Eu posso resolver isto. – Alice disse de baixo do balcão, de onde retirou três canecas e as encheu no barril mais próximo. – Comemorem com um brinde, por minha conta.

-E o que nós vamos brindar?

Movna pegou uma caneca, a ergueu para o ar e disse:

-Um brinde á estarmos vivos.

-Um brinde… – Eli falava enquanto fazia o mesmo. – A nossa nova aliança.

Jonas encarou os dois, tentando gravar aquela imagem profundamente em sua memória, então agarrou a caneca restante, a ergueu para o alto e gritou.

-E ao glorioso futuro do Robalo.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s