Segurança No Laboratório

5 dias desde o último acidente.

Os cientistas da Echidnatech olharam em descrença para o seu novo objeto de estudo.

Uma caixa de vidro á prova de balas balançava de um lado para o outro, movimentada pelas tentativas de escape da criatura em seu interior.

Nenhum dos envolvidos sabia o que era aquela criatura, ou sequer qual era sua aparência. A entidade se manifestava em inúmeras dimensões além da compreensão, se manifestando na mente humana como uma forma geométrica em constante transformação, adotando uma série de ângulos impossíveis e cores perturbadoras.

A única coisa que se tinha certeza sobre a entidade era sua tendência de matar pessoas violentamente.

“Bem… Este é o nosso projeto deste ano.” Disse o diretor do departamento de Pesquisa e Desenvolvimento, observando hipnotizado o container da entidade. Minutos de silêncio desconfortável se passaram antes dele pigarrear e continuar. “O pessoal lá em cima quer que nós estudemos a… Anh… Entidade S-19 para podermos definir… Bem… Possíveis avanços tecnológicos a partir de suas características. Agora, eu sei que alguns de vocês devem estar se perguntando o que estão fazendo nesta reunião…”.

“Eu estou.” Disse o consultor de odontologia da Echidnatech.

“Bem, todos vocês devem se lembrar do incidente de semana passada.” O diretor de P&D continuou enquanto limpava o suor de sua testa. “Nós perdemos pessoal de vários departamentos, sem contar aqueles que se demitiram ou que nunca foram… ‘encontrados’. As regras para este tipo de projeto determinam um  número mínimo de envolvidos, então tivemos de chamar alguns de vocês pa–”

“Com licença.” Interrompeu um dos advogados da companhia. “Gostaria de lembrar que oficialmente não houve ‘acidente’ algum em propriedade da Echidnatech. Todos os empregados morreram em um surto não relacionado de gripe aviária, não havia nenhuma inteligência artificial sendo desenvolvida neste prédio, e mesmo que houvesse ela não escapou de nosso controle. Qualquer insistência do contrário será respondida com processo legal.”

Houve outro momento de silêncio, desafiado apenas pelos gritos subsônicos da entidade S-19.

“Por que o advogado está aqui? Isto aqui era para ser uma reunião de cientistas” gritou o ufólogo próximo á saída.

“Bem, como eu disse nós precisávamos de mais pessoas para iniciar o projeto, por isso lhe demos um jaleco.” O diretor de P&D limpou a garganta mais uma vez. “Agora, antes de mais interrupções, prestem atenção no relatório que receberam. Eu tive a oportunidade de lê-lo rapidamente e marcar as sessões importantes para este projeto. Quando tiverem alguma pergunt–”

“Eu tenho uma.” Disse o faxineiro, enquanto ajustava o novo jaleco por cima de seu uniforme usual. “Como nós evitamos que aquela coisa ali escape e mate todos nós?”

Um murmuro se espalhou pela sala, todos os cientistas e empregados-promovidos-temporariamente-á-cientistas-por-necessidade sussurravam entre si, comentando sobre como estavam pensando exatamente o mesmo.

“Se vocês checarem a… Anh…Página cinquenta e quatro do relatório, vão ver que temos vários procedimentos dedicados á impedir que a entidade escape ou fira qualquer um dos envolvidos no projeto. Nossas normas de segurança são rígidas.”

“Socorro!” O ufólogo gritou assustado, olhando para o ar com os olhos sobre abertos, apoiado sobre o vidro que separava o grupo da criatura. “A entidade está me fazendo ver coisas! Mostrando-me segredos antigos e nunca antes sonhados!”

“Sim, isto é… Uma ilusão de ótica causada pelo formato incomum da entidade. É inofensivo e passa depois de alguns minutos.”

“Meu deus!” O ufólogo começou a deslizar contra o vidro, lágrimas negras escorrendo de seus olhos. “Eu posso ver toda a eternidade! Ele está me mostrando o infinito em toda a sua plenitude! Há coisas que nós não devíamos saber, somos apenas macacos!”

“Anh, isto é novo…” O diretor de P&D coçava a sua nuca enquanto tentava se lembrar do protocolo para estas ocasiões. “Por precaução arranjem uma cadeira para ele.”

A reunião sofreu um intervalo de vinte minutos, durante o qual o ufólogo foi levado para tomar um pouco de ar. Todos os outros aproveitaram para ler o relatório com mais atenção, a página cinquenta e quatro em particular.

“Eu dei uma lida na sessão de segurança, e tem um trecho que está me deixando confuso.” O faxineiro abriu o grosso bloco de papeis em suas mãos e apontou para a página cinquenta e quatro, suja com uma mancha de café. “Aqui diz ’Em caso de brecha de segurança relacionada á um projeto de P&D, todas as passagens serão bloqueadas por portas de titânio eletrificadas, quaisquer formas de comunicação serão cortadas, dutos de ventilação serão desativados e substituídos pelo sistema de ar interno equipado com gases especiais, drones de segurança circundando o prédio envolvido serão reprogramados para usar força letal em tentativas de escape, um sinal de alerta será enviado automaticamente para satélites armados… ’, acho que já entenderam o problema.”

“Parece um sistema bem detalhado para mim.” O diretor do departamento folheou as dezenas de páginas dedicadas á protocolos de emergência. “Até instalaram lança-chamas nos drones, como haviam prometido ano passado.”

“O problema é que, se aquele bicho escapar, toda a segurança só vai servir para manter ele preso aqui até os militares chegarem. Mas não tem nada para nos proteger enquanto ficamos presos com o monstro e sofremos um ‘surto de gripe aviária’.” O faxineiro fez questão de representar as aspas em sua frase com o movimento de seus dedos.

“Eu ouvi dizer que algo parecido aconteceu com o departamento de pediatria.” Alguém disse em meio ao grupo de pesquisadores. “Quando uma das crianças psíquicas saiu de controle, todos ficaram presos no prédio por uma semana antes da equipe de controle chegar, mas tudo o que encontraram eram silhuetas pretas nas paredes.”

“Crianças psíquicas que oficialmente nunca existiram.” Lembrou o advogado.

O diretor pediu por um momento para encontrar a página específica, pois tinha certeza de ter visto algo dedicado á sobrevivência dos pesquisadores durante brechas de segurança. Tudo o que encontrou foi uma nota de rodapé de duas linhas, cujas instruções podiam ser resumidas á “esconda-se debaixo de sua mesa e reze para seu deus”.

“Bem, isto é um tanto… Preocupante. Eu vou ter de comentar isto com o pessoal lá em cima e ver se eles podem resolver isto”. Tirando outro lenço de seu bolso ele limpou o suor caindo em seus olhos. “Mas até lá é improvável que S-19 chegue a escapar. A equipe de captura conseguiu contê-lo num templo abandonado no meio do Egito. Nós, em ambiente controlado e equipado com a tecnologia mais avançada possível, podemos manter controle da situação”.

“Quanto á isto…” Disse o odontólogo. “Acho que você vai querer ouvir o que está escrito no apêndice B.”

O diretor resistiu a vontade de gritar sua frustração em direção ao céu, e deixou que o consultor de odontologia começasse a ler os trechos em voz alta

 “’No terceiro paragrafo, ’Após a confirmação de relatos, uma equipe armada de quarenta empregados armados foi enviada. A operação durou um período de dois dias, no final da qual a entidade S-19 foi trazida para estudos nos laboratórios da Echidnatech’”.

“Viram? Eu já vi acidentes de trânsito que foram mais complicados do que isto. Nada com que–”.

“No quarto parágrafo. ‘Estima-se que dois terços de todo os envolvidos foram mortos em combate direto contra a entidade, que se mostrou altamente resistente ao armamento usado. Minutos depois das primeiras baixas os defuntos começaram a se mover livremente, possivelmente sobre controle direto de HJ-23, com comportamento violentamente canibalístico… ’. Eu vou pular para outro parágrafo.”

O odontólogo passou cinco minutos tentando encontrar a página, presa debaixo da folha anterior e que precisou ser separada com unhas.

“Aqui. Último paragrafo: ‘O único empregado sobrevivente conseguiu aprisionar no receptáculo feito especialmente para a missão, e foi transportado para a base mais próxima, onde não apresentou ferimentos graves’.”

“…Pelo…Pelo menos uma boa notícia, não é? Nós podemos chamar esta pessoa e ver se pode nos aconselhar sobre–”

“Espera, tem um rodapé: ‘Este empregado foi detido no hospital psiquiátrico (confidencial), onde permaneceu por dois dias, antes de mastigar os próprios pulsos e usar do sangramento para escrever mensagens de natureza apocalíptica na parede de seu quarto. Encontrado morto na manhã seguinte’.”

Mais um momento de silêncio desconfortável. Alguns tentaram comentar alguma coisa sobre a situação, mas desistiram logo no momento em que abriram a boca. O interno sugeriu uma pausa para o café, todos concordaram imediatamente.

Durante as três horas seguintes, o grupo discutiu arduamente sobre como prosseguir. Eles chegaram á uma conclusão lógica e calmamente votaram no plano.

A caixa contendo a entidade 7878 foi transportada por máquinas automatizadas para o incinerador no subsolo da instalação. As cinzas foram extraídas da máquina e então enterradas em um poço próximo, que  logo em seguida foram preenchidas com cimento fresco.

Toda a equipe de Pesquisa e Desenvolvimento se demitiu logo em seguida.

“Não se esqueça de apagar a luz.” O faxineiro disse para alguém ainda arrumando seus pertences antes de sair.

“Eu devo acionar o processo de autodestruição?”

“Nem precisava perguntar.”

0 dias desde o último acidente.  

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s