Publicação Oficial do Engenheiro Real

2018 começou um ano quieto para mim e a colmeia, sem nenhum novo conto ou atualização de nossos projetos maiores durante todo o primeiro semestre, mas o silêncio acabou e agora posso mostrar o que têm consumido meu foco este tempo todo:

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Lua Negra Sobre Trilhos Vermelhos é uma história de aventura e mistério na nação de Siril, um mundo fantástico semelhante à nossa revolução industrial, onde máquinas são movidas por vapor e engrenagem, onde uma aristocracia sobrenatural governa a humanidade e criaturas sombrias assombram a noite. 

Nós acompanhamos um caso de Samuel Ludovic o Engenheiro Real, um agente incumbido de investigar os mistérios da ciência e enfrentar ameaças de natureza tecnológica contra Siril. Acompanhado de sua fiel parceira Anabel, veterana das tropas aladas, ele terá de investigar o roubo de uma fórmula secreta a bordo do Expresso 32. Uma fórmula capaz de tornar até os puros de coração em monstros sanguinolentos.

Samuel terá de usar todo o seu intelecto, inventividade e a ajuda de seus poucos aliados para desvendar o mistério, encontrar a fórmula e derrotar um inimigo ardiloso, tudo enquanto qualquer passageiro pode estar infectado com a fórmula. 

A história será publicada em Setembro de 2018 pela Editora Portal. Mais notícias e detalhes serão postados aqui na colmeia.

Veja também Um Concerto de Canhões, uma aventura do Engenheiro Real Grant Ludovic em uma batalha pela defesa de sua nação.

O Engenheiro Real – Um Concerto de Canhões

“Podemos dizer que minha alma é uma peça de quebra-cabeça. Eu sou incapaz de encontrar satisfação enquanto não tiver uma imagem maior para completar.”     

-Niels Vic, Primeiro Engenheiro Real

 

A máquina cantava uma música de destruição.

O som das engrenagens, explosões, carvão queimando e o bater de pistões era ensurdecedor. Mas para Grant Ludovic, engenheiro real que entendia a função de cada peça daquele engenho, aquilo era a mais sublime das músicas.

Para os soldados no campo de batalha abaixo, aquele era o som da morte caindo sobre o inimigo.

A máquina era semelhante á uma tartaruga. Composta de um grande corpo de metal dourado sustentado por quatro pernas metálicas, com que podia se mover lentamente quando necessário. Um grande canhão surgia de sua dianteira, atirando projéteis com a força da caldeira que queimava na traseira. Uma chaminé exalava fumaça constantemente de seu topo.

No corpo dela estava um nome escrito em letras prateadas: Salamandra.

Grant se sentava em um banco de madeira ao lado da Salamandra, onde olhava periodicamente para seu relógio de bolso ao mesmo tempo em que ouvia atentamente aos seus mecanismos, tentando organizar mentalmente os movimentos de cada peça e seu ritmo, como se tudo fosse uma valsa mecânica. Ele se permitiu uma pausa para observar o campo de batalha.

Na distância, além do alcance de qualquer rifle, soldados guerreavam pelo caminho estreito no fundo do desfiladeiro. De um lado da passagem estavam homens de uniforme rubro, o exército real de Siril, esperando em posição até que algum inimigo chegasse ao alcance de suas armas. Do outro estavam as forças ainda mais numerosas do império Borandês, que corriam desesperadamente esperando sobreviver o caminho até o outro lado.

Poucos conseguiam. Os corredores eram mortos em quase todas as tentativas, vítimas dos disparos das máquinas de guerra acima. Corpos, destroços e poeira eram arremessados violentamente pelo impacto de bolas de ferro. Poucos sobreviventes restavam, estes feridos demais para lutar.

Grupos ocasionais conseguiam passar pelos tiros, apenas para serem mortos imediatamente pelas forças reais. Alguns soldados Borandêses tentavam recuar antes de sequer chegarem ao alcance da artilharia, apenas para serem mortos imediatamente por seu próprio exército. O império não perdoava falhas na disciplina.

-“Vão para a Garganta de Jorumiel, é um bom lugar para testar as novas armas”. – Grunhiu um homem próximo de Grant, um indivíduo alto de membros grossos que jogava carvão na fornalha com uma grande pá, coberto das botas á careca por fuligem. Uma barba negra e grossa como um arbusto cobria metade de seu rosto – Só algumas escaramuças acontecem lá, nada de importante”. Pois bem, agora metade do maldito império quer nos matar para passar aqui.

-Calma, Silas, era improvável que o imperador invadisse pelo norte, é um caminho longo e estreito demais para uma invasão prática. – Disse um homem na lateral da Salamandra, em um assento de metal conectado á uma série de alavancas e medidores, sem tirar o olho da luneta com a qual assistia a batalha e fazia as medidas necessárias.  Era uma pessoa alta e magrela, de membros finos e um bigode cuidadosamente penteado sob seu nariz. –É injusto esperar que nosso general previsse esta ação.

-É exatamente disso que estou reclamando, Sinclair. Do que adianta uma centena de espiões e videntes se não podemos prever uma maldita invasão? – Respondeu Silas.

Grant, por sua vez, decidiu não participar da discussão. O que sua majestade e seus conselheiros conseguiam prever não tinha importância, apenas o bom funcionamento de sua máquina.

Ele continuou a observar o campo de batalha, onde os Borandêses enviavam pequenos grupos de cavalaria: Homens de amarelo montados em grandes e ferozes répteis, forças mais velozes que pudessem talvez atravessar a área de morte sem grandes perdas. Os cavaleiros se moviam em ziguezague, tornando seus movimentos mais imprevisíveis para os atiradores, e mantinham maior distância entre si para evitar o impacto dos canhões.

-Eles mudaram o padrão de movimento. Use a terceira munição. – Disse Sinclair.

Silas largou a pá e correu em direção á uma pilha de sacos cor de areia, todos contendo bolas de ferro do tamanho de sua cabeça. Ele arrastou um saco marcado com o número três até a Salamandra e começou a lhe inserir munição.

Sinclair esperou seu colega terminar e puxou uma alavanca pintada de vermelho. A Salamandra voltou a atirar.

Alguns soldados Borandêses já chegavam ás forças reais, de onde começaram a atacar com suas espadas enquanto suas montarias rasgavam com dentes e garras. O resto da cavalaria se aproximava logo atrás.

O primeiro tiro atingiu o chão e se partiu em centenas de estilhaços, uma chuva de metal afiado que se espalhou e atingiu alguns cavaleiros, perfurando seus corpos repetidamente como se fossem esfaqueados por uma multidão.

Os répteis foram protegidos dos estilhaços por suas grossas couraças. Sem ninguém para lhes controlar, as bestas fugiram ou continuaram avançando contra o exército real, até que alguma baioneta encontrasse a parte macia de suas escamas.

Com avanço impedido, houve mais uma pausa na batalha. Os comandantes do império decidiam o que fazer enquanto o exército real esperava.

-Tudo sob controle. – Disse Grant antes de voltar sua atenção ao relógio. Os três engenheiros se encontravam em um acampamento, no alto de uma parede do desfiladeiro. Vestidos com uniforme marrom simplista dos engenheiros reais, equipados com ferramentas e pistolas de dois canos para emergências.

Do outro lado da passagem surgia a fumaça negra de duas outras máquinas, que embora mais distantes do campo de batalha também eram parte essencial do confronto.

Grant esperava que os outros engenheiros mantivessem as armas em bom funcionamento, mas não sabia o quanto desta preocupação era por patriotismo e o quanto era afeição por suas criações mecânicas.

-Sim, atrasamos nossas mortes por uma hora. Pelo menos uma pausa para bebida. – Silas falou logo antes de tirar um cantil de trás da cintura.

-Não seja pessimista. – Respondeu Sinclair. – Esse é um bom ponto defensivo, uma passagem que nega a vantagem numérica deles. Basta continuarmos como estamos e logo receberemos reforços. As forças aladas não devem estar muito longe.

-Ou os bruxos deles vão invocar um dragão ou alguma bobagem do tipo, matar todos nós e depois queimar toda Siril. Eles sempre arranjam um truque sujo desses na última hora. – Silas falou logo antes de beber do cantil. – Sorte que não tenho família para ver isso.

-Eu tenho três filhas me esperando lá em casa. Desculpe se não posso usufruir do mesmo cinismo que você.

Silas deu um longo gole, fechou o cantil e limpou o suor de sua testa antes de se virar para Grant. – E você engenheiro, tem alguém te esperando?

-Esposa e filho. – Grant disse sem perder o foco.

-Que surpresa. – Silas grunhiu. – Me pergunto se também são feitos de metal.

-Muito bem senhores, espero que tenham aproveitado a pausa por que o dever nos chama. – Sinclair ajustava a lente de sua luneta. – Estou vendo o império reunindo mais cavaleiros para outro ataque.

Silas guardou o cantil e voltou á pilha de munição enquanto Sinclair ajustava alavancas. Grant continuou a contar o tempo.

Os braços do relógio se moviam enquanto a arma era recarregada: Engrenagens giravam, pistões batiam e a carvão queimava. No meio de tudo, da melodia de ferro, Grant Ludovic ouviu algo diferente.

Havia uma falha na valsa.

Ele esperou mais um pouco, a menor seta do relógio de um quarto de volta e falha voltou: Um barulho quase imperceptível entre tanto sons, mas arrastado e fino, como o arranhar de um quadro negro.

Grant esperou ainda mais, se recusando a tomar decisões sem ter certeza dos fatos. Desta vez um quarto de voltar sequer havia passado quando o ruído voltou. Ele olhou atentamente para a Salamandra e seus companheiros, que não pareciam ter notado a anomalia.

Grant se levantou de seu banco e correu em aos colegas. – Parem, há um ruído no mecanismo! Pare ela agora! – Ele gritou. Os dois olharam confusos para ele.

-Desculpe Grant, mas a cavalaria está avançando. Não podemos parar agora. – Sinclair gritou de volta, continuando a ajustar a mira do canhão. – Deixe o perfeccionismo para quando estiverem mortos.

Grant Ludovic ouviu novamente o som alienígena dentro de sua criação. Ele sabia que o intervalo entre os sons estava diminuindo gradualmente, e que discutir com Sinclair gastaria tempo precioso.

Grant saltou para a esquerda do canhão, onde estavam várias alavancas que conhecia perfeitamente, e puxou a alavanca de emergência com toda sua força.

Engrenagens rangeram e vapor encheu os canos enquanto a máquina lutava para se manter ativa.

Silas se jogou ao chão para escapar de um jato de vapor vindo da caldeira, enquanto Sinclair tentava descer de seu assento e impedir Grant, com dificuldade para abrir os cintos que o prendiam.

E então a Salamandra parou. O estalar da caldeira era o único som restante.

Imediatamente Grant retirou uma chave de seu cinto e abriu uma placa da máquina. Segundos depois ele já operava as peças internas com as mãos e ferramentas de seu cinto.

Sinclair, vendo que o seu colega já mexia em mecanismos essenciais, desistiu de impedi-lo, com medo de danificar aquela arma tão importante. Tudo que podia fazer era observar a batalha de seu assento, incapaz de interferir de qualquer maneira.

O exército Borandês estava parado, esperando por algum sinal, mas um de seus esquadrões de cavalaria já atacava o exército real.

As bestas escamosas agarravam homens de vermelho com seus dentes serrilhados, antes de jogar seus corpos destroçados para longe, enquanto seus cavaleiros atacavam com pistolas e espadas.

Dentre as forças reais surgiram soldados de casacos amarelos e armados com grandes varas de metal, em direção á cavalaria Borandêsa. Eles ajustaram pequenas válvulas de suas armas. Linhas brancas e brilhantes surgiram através das varas.

Sinclair reconheceu a energia do Vril, o poder que apenas a aristocracia de Siril conseguia controlar. Ele estava surpreso de haverem soldados da realeza naquele ponto isolado do reino, mesmo que apenas cavaleiros menores.

Os soldados de amarelo fizeram gestos bruscos com suas armas. O ar á frente deles vibrou e brilhou por um instante. Os grandes répteis, criaturas do tamanho de rinocerontes, foram derrubados para trás como folhas assopradas pelo vento.

Alguns cavaleiros Borandêses foram esmagados pelo peso de suas montarias. Os sobreviventes foram rapidamente eliminados pelos por tiros de rifles.

Quando os disparos acabaram, fumaça de inúmeros disparos se dissipava no ar e sangue escorria pela terra. O desfiladeiro ficaria quieto por alguns minutos.

Sinclair sentiu alívio, assegurado de que apesar da desvantagem os soldados de Siril podiam cuidar de si mesmos. Os comandantes Borandêses pareciam ter desistido de atravessar o desfiladeiro.

Ele olhou para a fumaça distante das duas outras máquinas de guerra, que por algum motivo se recusaram a agir contra o último avanço inimigo. Sinclair imaginou se esperavam a Salamandra atirar primeiro para seguir o exemplo, talvez interpretando a falta de ação dela como um sinal para fazerem o mesmo.

Daqueles dois pontos vieram duas explosões.

Um estrondo ecoou por todo o local. Nuvens de poeira surgiram do outro lado da passagem, altas o bastante para todos no desfiladeiro verem. Estilhaços de metal começaram a cair ao redor da Salamandra.

Recebendo o seu sinal desejado, todos os soldados do império correram pela passagem, levantando espadas e armas de fogo. O campo árido que separava os dois exércitos se encheu de soldados e bestas.

Uma onda de pânico quase tomou as forças reais, mas seus soldados se recuperaram e mantiveram posição á tempo do ataque inimigo.

Sinclair viu as duas forças se chocando, soldados caindo ao chão e homens sendo dilacerados por grandes répteis, alguns largando armas quebradas para utilizar seus próprios punhos enquanto outros improvisavam com os pedaços que sobravam. Flashes de luz e tiros ocorriam de todas as direções. Fumaça de pólvora e poeira começava a cobrir a luta.

Homens de amarelo usavam o poder do Vril contra os Borandêses. Soldados foram arremessados ao longe contra paredes e outras pessoas, flashes de energia fulminavam corpos com a força de relâmpagos, e um homem mais velho podia ser visto explodindo balas de inimigos dentro de suas próprias armas.

Mas os números Borandêses eram grandes e sua ferocidade sem fim. Eles avançavam como um rio, pisoteando sobre os corpos de aliados caídos.

Pouco a pouco as forças reais recuaram, enquanto as perdas inimigas eram substituídas por numerosos reforços.

O caos não parecia afetar Grant Ludovic, ocupado demais inspecionando o mecanismo complexo da Salamandra. Ele tentava ver o funcionamento de todas as peças em sua mente para encontrar o problema: O vapor percorria os canos, movendo pistões e engrenagens, que então moviam engrenagens adjacentes conectadas por dentes bem oleado, e logo todas as peças se moveriam ao mesmo tempo como duplas dançando em um grande salão. A valsa moveria as correntes que puxariam a bala de canhão e…

Grant encontrou o passo em falso que arruinava a dança. Ele colocou seu braço dentro da Salamandra e, com um pouco de tempo e força, conseguiu retirar uma pequena engrenagem.

Ele podia ver a ferrugem no o centro dela. A mancha vermelha se alastrava pelo metal como óleo derramado, consumindo e enfraquecendo a peça.  Um pouco mais de esforço e ela se quebraria em pedaços, causando um mau funcionamento que resultaria numa explosão mortal.

Ele abriu uma caixa de madeira por perto, repleta de centenas de peças sobressalentes. Após encontrar a engrenagem certa, ele retirou algumas ferramentas de seu cinto e voltou á Salamandra.

Sinclair continuava a observar a guerra, sua mente sendo tomada por desespero. Apesar de apenas minutos terem se passado, ele já podia ver a derrota das forças reais. Não seria uma perda imediata, os soldados de rubro iriam defender a passagem enquanto pudessem, mostrariam bravura e eficácia, mas logo a horda Borandêsa venceria a batalha. E então a guerra.

Os pensamentos foram interrompidos quando algo atingiu suas costas. Ele olhou para trás, vendo a Salamandra montada novamente e Grant fazendo um sinal para voltarem ao trabalho. Grant fez o mesmo sinal para Silas, que pegou sua pá e voltou a jogar carvão na caldeira, antes de empurrar a alavanca de emergência e se afastar.

Em poucos instantes a Salamandra voltava a funcionar. Os componentes participantes voltaram á suas posições e aos seus passos, e ao som da caldeira a dança continuou.

Sinclair teve de se acalmar um pouco antes de voltar a trabalhar. Ele não sabia se valeria a pena.

Silas colocou a bola de ferro dentro do mecanismo. Puxando e girando as peças, Sinclair mudou a posição do canhão para acertar o ponto calculado.

A bola foi lançada para cima com um estrondo antes de cortar o ar com um assovio. Ela subiu em um grande arco e desceu com violência, cada vez mais rápida, para então atingir o campo de batalha.

Tanto terra quanto soldados foram arremessados para longe. Uma nuvem de poeira cobriu os soldados imperiais, confusão e pânico se espalharam entre os combatentes e seus comandantes, que não esperavam a presença da Salamandra.

Eles tiveram pouco tempo para reagir antes que mais projeteis os atingissem, esmagando crânios e armaduras.

A arma foi mirada na cavalaria que, cercada de todos os lados em um espaço tão pequeno, não tinha caminho para fugir. O primeiro réptil foi atingido, suas escamas não foram o bastante para protegê-lo de uma bola de ferro sólida. Os outros simplesmente correram para trás, atropelando e ferindo todos os aliados em seu caminho.

O pânico foi total, e os soldados Borandêses tentaram recuar desesperadamente. Alguns comandantes atiraram em seus próprios soldados para intimidar o resto á continuar lutando, mas eles simplesmente foram esmagados pela massa desenfreada.

Indiferente á carnificina, Grant investigava a peça de metal enferrujado em suas mãos, que começava a se desfazer em poeira vermelha.

Para seu desgosto, ele conclui que aquilo era de origem sobrenatural. Grant nunca gastou tempo ou atenção estudando forças metafísicas, seja á força do Vril, os mistérios ocultistas de Borândel ou a qualquer outra arte indisponível á espécie humana. Mas ele sabia que aquilo era sabotagem de um feiticeiro inimigo.

Infelizmente, Grant não tinha idéia do que fazer quanto aquilo. Ele apenas jogou a peça sabotada para longe e continuou a observar o trabalho de seus colegas, esperando encontrar algo a mais fora do comum antes de outros desastre.

-As forças imperiais recuaram mais uma vez. Nós impedimos o avanço. – Gritou Sinclair. – Foi por pouco, meus companheiros, mas conseguimos impedir outro avanço.

-Agora só temos de fazer o triplo do trabalho. – Silas respondeu.

Silas tentou falar mais algo, quando a lateral de sua cabeça explodiu em pedaços.

Seu corpo caiu ao chão com força o bastante para levantar poeira. Seu sangue se derramava por terra e fuligem.

O assassino surgiu logo em seguida, um homem de uniforme negro e vermelho armado com um rifle exalando fumaça. Seu rosto era coberto por uma máscara vermelha de um rosto demoníaco, com dentes afiados como agulhas. Um bruxo Borandês.

Dois outros bruxos apareceram atrás do primeiro, surgindo do nada como miragens no deserto.

Sinclair retirou a pistola de dois canos de seu cinto e a apontou para os atacantes. Uma bala atingiu seu ombro no momento em que apertava o gatilho. Seu tiro acertou apenas terra.

Ele caiu para trás, sua bota ficou presa ao assento e logo se encontrou pendurado á Salamandra.

Os três bruxos se aproximavam. Dois recarregavam seus rifles, o terceiro mirava em Sinclair. As penas de seus braços se eriçavam de entusiasmo.

Sinclair girou repentinamente de onde estava, se virando de frente para seus inimigos, mesmo que de cabeça para baixo. Ele respirou fundo, mirou sua pistola e deu seu segundo tiro.

Um bruxo foi atingido, sangue e penas voaram pelo ar enquanto ele caia. Sinclair se surpreendeu de ter acertado um disparo tão improvável, logo antes de perceber o terceiro bruxo apertando o gatilho.

O rifle disparou. Pólvora explodiu. A sorte de Sinclair terminou.

Grant, de habilidades limitadas em todas as formas de combate conhecidas, correu para a Salamandra, esperando que o grande objeto de metal servisse de cobertura. O corpo de Sinclair pendia ao seu lado, ainda preso ao assento. Ele ignorou a imagem macabro e se focou em sua própria sobrevivência.

Os bruxos Borandêses riam enquanto se aproximavam, um som como o cacarejo de um galo. Grant imaginava o sorriso debaixo de suas máscaras enquanto se aproximavam de sua ultima e indefesa vítima.

Ele não sabia quais truques eles tinham, mas conclui que independente de sua feitiçaria, ainda precisavam de rifles para lutar. Havia uma pistola de dois canos em seu cinto, uma arma que nunca havia usado e com que dificilmente mataria um atacante, muito menos dois.

Grant Ludovic se lembrou da arma que sabia usar perfeitamente.

Rapidamente ele escalou o assento da Salamandra em direção aos seus controles. Os bruxos o viram se movendo e miraram suas armas.

Grant apontou a pistola para a direção deles e apertou os dois gatilhos. Os Borandêses se abaixaram momentaneamente sob o estrondo dos tiros e a explosão de fumaça.

Os tiros acertaram locais completamente irrelevantes enquanto ele chegava aos controles, imediatamente movendo alavancas e manivelas.

A Salamandra se virou e abaixou seu canhão. Sua forma pairou sobre os bruxos como um predador sobre um coelho, seus mecanismos formando um rugido infernal de fogo e metal.

Os Borandêses apontaram suas armas em pânico e atiraram. As balas acertaram grossas placas de ferro sem qualquer efeito.

Grant Ludovic puxou a alavanca vermelha e causou destruição.

O disparo acertou o solo logo a frente. Grandes pedaços de terra foram arrancados para o alto. O impacto consumiu bruxos, pilhas de carvão e munição. O estrondo foi ouvido por todas as forças ao redor.

Grant foi cego pela nuvem de poeira que seguiu. Ele tentava proteger seu rosto com o braço quando um detrito acertou sua cabeça e o derrubou. A Salamandra em si resistiu imóvel á tudo, sobre suas quatro patas de metal.

Quando a poeira se abaixou Grant se encontrou deitado na terra, sem saber quanto tempo passara, saindo e voltando á consciência. Os pensamentos vinham lentamente para sua mente antes tão ágil, e não tinha certeza do que era verdade ou alucinação. Ele se lembrava vagamente de um bruxo de pernas quebradas se arrastar para perto e tentar lhe estrangular, antes de ter a cabeça quebrada com um golpe de chave-inglesa.

Quando a clareza retornou ao seu cérebro ele continuou deitado, indiferente ao sol que batia em seu rosto.

Trombetas imperiais soaram ao longe. Os comandantes Borandêses reuniam suas forças para outro ataque, acreditando que o exército real perdera sua última peça de artilharia.

Grant sabia que podia manusear a Salamandra por conta própria e continuar lutando. Seria uma tarefa exaustiva, lenta e pouco efetiva sem a ajuda de uma equipe treinada, mas possível.

Ele se perguntou se valeria a pena.

Apenas uma máquina sem grupo de artilharia podia não ser o suficiente para defender a passagem, ou o império poderia simplesmente enviar mais assassinos contra a Salamandra. Talvez a perda do desfiladeiro fosse inevitável, com império estava destinado á conquistar toda Siril antes que as tropas reais pudessem reagir á invasão do norte. Grant pensou em fugir para casa, de onde levaria sua família para longe do alcance Borandês.

Um barulho chamou sua atenção: A Salamandra continuava seus ruídos. Os pistões, as engrenagens, o fogo e a fumaça, todos continuavam sua dança tecnológica, esperando para dar seu próximo passo catastrófico.

-Tem razão. – Ele disse.

Grant se levantou, limpou seu uniforme, se aproximou da Salamandra, pegou a pá no chão e jogou mais carvão na caldeira.

O fogo queimou intensamente. Os soldados abaixo voltavam a batalhar. O desfiladeiro foi contestado mais uma vez. Ele voltou ao assento das alavancas e se juntou á dança.

-Tudo sob controle. – Disse Grant Ludovic.

 

 

 

 

 

Através do Éter – O Uivar do Vento

“Acabamos de confirmar: Madame Octavius está oferecendo seu Cassino como abrigo para todos que precisarem. Com a tempestade cada vez pior, urgimos que procure por um lo… a. priado como refúgio. Busque más… de gás, pro… ja su… nelas e…”

-A Voz De Nova Glória

 

As tropas da Lampreia esperavam em fila, prontas para adentrar a tormenta.

Homens e mulheres, vestidos com uniformes negros sobre armaduras de Argila, protegidos contra frio e bala. Cada um levava um rifle em mãos, uma faca num lado da cintura e uma pistola no outro. Nos bolsos de seus cintos levavam suprimentos vitais para a missão á frente, de tubos de munição á agulhas e bandagens. Máscaras de gás cobriam seus rostos.

Trinta soldados a postos no convés mais baixo da Lampreia. Seis equipes treinadas e armadas. Um pequeno exército para encontrar um único indivíduo em uma cidade desprotegida.

Elijah Tanoya andava entre as fileiras, protegido por manto e armado com o marfim de seu cajado.

-Vocês foram instruídos e suas ordens são claras. – Ele gritava para as forças sem face. Sua voz era a única no navio. – Mas vocês andarão sobre a sombra de um Titã, onde qualquer aparelho pode se tornar uma armadilha mortal e um furacão pode nascer da menor brisa. Quando Teriapolis chegar, vocês saberão, pois mesmo no caos mais profundo sua presença é sentida. Quando então deverão manter distância; Os titãs não têm malícia contra nós mortais, mas se achar que estão em seu caminho não haverá nada neste universo que possa lhes salvar.

-Vocês sabem o protocolo para esta situação: Fiquem longe do titã, reportem sua posição por rádio e esperem até ele ir pastar em outro local. – Disse um homem que descia pelas escadas até o convés. Ele se vestia como todos os soldados, exceto pelo quepe sobre seus cabelos brancos e o sabre negro e dourado em sua cintura. – Titãs acima, Tanoya, agora não é hora de botar medo em meus homens. Este trabalho é meu.

-Capitão Tibério, você sabe que nestas situações a confiança é uma assassina insídia. – Elijah Tanoya respondeu, se aproximando do capitão da Lampreia. –Estarei fazendo um favor a todos aqui se ficarem enchê-los com um pouco de paranóia e medo.

-Na minha experiência, paranóia sem foco ou controle serve apenas para distrair. Mas temos de marcar nosso debate de filosofia para depois: Os radares detectaram anomalias na Corrente 32. Você deve saber o que isto significa.

-Ele está chegando. – Tanoya sussurrou, com um olhar assombrado e apertando o cajado entre suas mãos.

-Hora de levantar e ir pro trabalho. – Capitão Tibério se virou para as tropas e gritou. – Batedores, a postos.

Um esquadrão de se destacou do grupo e se posicionou em frente á Tibério.  Cinco soldados semelhantes ao resto, mas portando fuzis de precisão equipados de lunetas, e vestindo mantos de camuflagem coloridos em uma mistura caótica de manchas pretas, brancas e todos os tons de cinza no ínterim.

-Cinco minutos para chegarmos á superfície. – Tibério continuou a gritar, garantindo que sua voz fosse ouvida entre o som de trovões e maquinários. – Vocês têm suas instruções: Fazer reconhecimento da área, passar detalhes para o cartógrafo por rádio, estabelecer perímetro e não serem pisados por um Titã. Alguma dúvida? – Ele esperou alguns segundos, encarando cada batedor, procurando por sinais de dúvida e desespero. – Ótimo. Fiquem prontos.

Capitão Tibério observou enquanto o esquadrão de batedores se dirigia para a parede, se posicionando e se organizando em completo silêncio.

-Posso ter uma palavra com você? – Ele comentou em voz baixa para Tanoya, sem deixar de vigiar o andamento de seus soldados.

-Sei que está preocupado, capitão. – Tanoya respondeu. – Mas esta não é minha primeira vez no campo de batalha. Lembre-se que participei da Guerra de Todas as Bandeiras, eu lutei e matei em nome da lula caolha. Mesmo me vestindo como um mago de uma peça de teatro, eu também sou um soldado veterano e sei como me manter vivo.

Um abalo fez o navio tremer por alguns momentos, sinal de que deixava a segurança do Éter e entrava na atmosfera do Porto-Lunar. O local se encheu com o som de trovão e ventania. A madeira rangia enquanto a embarcação se arrastava pelo ar, onde navios etéreos não eram tão ágeis quanto no grande vazio.

-Você não estava dizendo agora a pouco que confiança matava? – Disse Tibério.

-Eu não sinto confiança, mas também não sinto pânico. Apenas quero que saiba que não serei um peso morto lá em baixo.

-Bom saber,mas não é você que me preocupa. É algo que você disse para o mensageiro, sobre… – Tibério parou. Mesmo sob sua máscara, o seu desconforto era notável. – …Sobre as suas visões do futuro.

-Não é possível prever o futuro, capitão. – Tanoya falou com a confiança e autoridade de um profeta. – Ele não é uma ilha distante a ser espiada por luneta. Ele é uma maré que ainda se forma. Tudo o que faço é sentir a água se movendo entre meus pés e tentar adivinhar de onde vem a próxima onda.

-Certo. – A máscara de Tibério chiou enquanto suspirava irritado. – Uma hora atrás você molhou o dedão e disse o que sentiu para o mensageiro. Sobre palácios rachados e homens de muitos ângulos.

-Sim. A vastidão do Éter sendo interpretada pela mente mortal em metáforas.  O que te perturbou?

-Uma dessas metáforas foi o Jardineiro Sangrento.

-É certamente um nome agourento. Acha que sabe o que poderia significar?

-Bem, na época que você lutava sob a bandeira negra eu ainda usava o colete de ferro. – Tibério começou a explicar. – Nos Filhos de Ares eles usavam qualquer soldado que sobrevivesse mais de uma batalha em uma peça de propaganda. Até eu já tive meu rosto impresso em cartazes motivacionais na base. E então havia o Jardineiro Vermelho.

Tanoya escutou quieto, olhando para o ar enquanto apertava o marfim do cajado.

-Ele era uma figura famosa. – Tibério continuou. – Mais do que eu ou qualquer um que não fosse das tropas de elite, mas nenhum de nós sabia quem era ele. Só o pessoal do serviço secreto e os generais sabiam. Nós só recebíamos os relatos oficiais que o pessoal lá de cima achava ser útil para a moral: O único sobrevivente da batalha de Porto Andrômeda; Aquele que assassinou o general inimigo em um planeta tomado por forças inimigas, e conseguiu voltar sozinho para o Porto aliado mais próximo; Alguém que descobriu e então matou uma tropa prestes a desertar, e uma dúzia de outros casos. O agente secreto mais eficaz e mortal que serviu á bandeira vermelha.

-Acha que este Jardineiro Vermelho estará lá embaixo? – Elijah perguntou, olhar ainda perdido no vazio do teto.

-Eu vou ser honesto, até uma hora atrás achava que ele não existia. E talvez continue não existindo, metáforas espirituais contadas por um mago á beira da morte podem ser imprecisas. – Tibério pigarreou antes de continuar. – Mas eu também ouvi histórias sobre você, Tanoya. Eu sei que suas visões têm um pedaço vital de verdade em algum canto. Não acredito que tenha um super-assassino esperando por vocês, mas não ficaria surpreso se os Filhos de Ares tiverem alguma presença nessa lua. Talvez Nova Glória não seja tão indefesa quanto esperávamos.

-Hm. – Tanoya grunhiu pensativo. – Ainda não é o suficiente para mudarmos nossos planos, mas vou manter isso em mente.

O navio parou, ainda tremendo sob a força dos ventos, mas sua descida chegou ao fim. Motores se ligaram e engrenagens se moveram enquanto uma das paredes se abriu, dando passagem para o lado de fora.

A tempestade invadiu o interior, molhando todos perto da abertura e assoprando as poucas coisas que não estavam devidamente presas. Do lado de fora havia uma coluna inscrita com Runas de Sol, iluminando os poucos prédios no limite entre Nova Glória e o resto da lua. Um a um os batedores desceram, se movendo para posições defensivas no momento que suas botas tocavam o chão.

-Esta é minha deixa. Os batedores irão guiar o resto, mas eu terei de guiá-los. – Tanoya falou, voltando a focar seus olhos para o que havia á frente.

-Vou coordenar a operação lá de cima enquanto vocês morrem lá fora. – Tibério respondeu, com um tom forçado de bom humor. – Boa sorte.

-Uma última coisa. Digamos que minhas visões sejam precisas, e que encontremos o Jardineiro Vermelho em pessoa…

-Então você achou algo mais perigoso que o Titã. – Disse capitão Tibério. – Enquanto nosso amigo lá em cima é poderoso, ele não dá a mínima para você. Se o Jardineiro existir, e ele perceber que você também existe, ele já vai saber como te matar e provavelmente terá todos os recursos para isso. Algum outro dia eu poderia tentar ensinar como lidar com ele, mas agora só posso dar um conselho.

Tanoya encarou o capitão, uma sobrancelha levantada em dúvida, esperando saber o resto.

– Não o deixe sequer tentar falar, dê um tiro na sua cabeça. Dois, para ter certeza.

 

*****

 

Jonas pensou no que falar que não faria Staunen atirar em sua cabeça.

Já fazia alguns segundos desde a figura misteriosa, que Jonas estava considerando ser Staunen, parar em frente á ele, dirigindo uma moto antiquada e de rosto oculto por um capacete negro. Nesse pouco espaço de tempo sua curiosidade havia dado lugar á frustração enquanto Staunen o encarava em silêncio.

O visitante então levantou uma mão, mostrando a palma vazia de sua luva de couro, e acenou gentilmente.

Jonas olhou confuso, mas imitou o mesmo gesto, com cuidado para não fazer movimentos bruscos que levassem á violência.

A figura levantou a lente de seu capacete, revelando um par de olhos verdes joviais.

-Ei Jonas, eu estava te procurando. – Ela disse com alegria, descendo da motocicleta e ajeitando o descanso do veículo. – Me desculpe a demora, eu meio que te esperei na tenda errada, e agora que te encontrei fiquei um pouco sem saber o que dizer.

-Antes de qualquer coisa, duas perguntas. – Disse Jonas. – Em primeiro lugar, você é Staunen?

-Ah, sim,claro, esqueci de me apresentar. – Ela falou. Agora de pé e fora da moto, podia-se ver que era uma pessoa pequena, uma cabeça abaixo de Jonas e com braços igualmente finos. – Meu nome é Ilsa Staunen. Fui eu que te mandei aquele bilhete e pedi para me encontrar aqui no mercado.

Jonas se conteve para não mostrar a surpresa e decepção. De todas as teorias que havia pensado para a identidade de Staunen, de um agente secreto misterioso ao próprio Lorde Pirata, não havia considerado a chance de ser simplesmente alguém com o mesmo sobrenome.

-Segunda pergunta: Você pretende me matar? Ou pelo menos me ameaçar de morte?

-O que? – Ilsa respondeu, balançando as mãos no ar em sinal de negação. – Não, não, não. De jeito nenhum. Eu quero sua ajuda para salvar Nova Glória, e não dá para fazer isso arrastando seu corpo por aí.

Jonas não percebeu sinais de mentiras, seja em sua voz ou linguagem corporal. Em tempos atrás ele teria exigido por mais provas, feito alguns testes sutis, mas naquele momento ele estava cansado de paranóia.

-Ótimo. – Jonas cruzou os braços e se apoiou contra o balcão á suas costas, onde a chuva não o alcançava. – Agora, explicações.

-Bom, eu tenho tanta coisa para falar e não sei como começar. Só um segundo… – Ilsa levou as mãos ao capacete e o retirou, revelando a juba de cabelos loiros que chegavam aos ombros e um rosto redondo cheio de sardas, uma face que trazia memórias vagas na memória de Jonas, como um sonho esquecido logo após acordar. – Eu já te falei meu nome, então a próxima parte seria…

-Que tal: Como me conhece, e como descobriu meu disfarce.

-Ah isso é simples. Eu ouvi sobre você no Açucareiro, enquanto investigava por lá. As pessoas estavam contando histórias sobre como você capturou o lorde pirata Baltazar no meio de seu esconderijo no cassino e então enfrentou sozinho toda a tripulação dele, só com uma espada e uma pistola.

-Exageraram um pouco. – Disse Jonas, se arrependendo de ter deixado aquelas histórias se espalharem. Ele não impediu que seus tripulantes ou Alice contassem sobre os eventos, considerando que ninguém acreditaria em casos improváveis contados por um viajante bêbado.

-Tanto que quase não acreditei nelas, mas de certa forma pareciam encaixar bem nas coisas que têm acontecido, o que me levou á procurar um pouco mais fundo. Andei falando um com o pessoal do cassino e até visitei Sub-Glória para ver se teve mesmo uma batalha ali, onde achei um monte de marcas de bala nas paredes e pessoal da Octavius limpando rastros. Foi aí que percebi que tudo era verdade e você era a pessoa certa para me ajudar.

-Entendo… – Jonas falou, se controlando para não mostrar a vergonha que sentia. Saber que deixara um rastro tão simples até ele foi como um tiro em seu ego, um erro que nunca teria sobrevivido em tempos passados. O porquê de a Octavius limpar a cena da batalha também era preocupante, mas ele decidiu que aquele era um problema para outro dia. – E como me encontrou?

-Eu vi você fugindo de alguns guardas e te reconheci.

-Eu estava disfarçado de mendigo, ninguém podia me reconhecer. – Ele respondeu irritado.

-E era um ótimo disfarce, mas desde que cheguei aqui insisti de conhecer os mendigos de Nova Glória, por que eles sempre são os que mais sabem segredos de uma cidade, e você não era um deles, mas eu meio que consegui reconhecer o formato do seu corpo e lembrei que você devia ser algum tipo de mestre golpista, o que explicava o disfarce. Foi aí que decidi te seguir um pouco e deixei aquele bilhete.

Jonas sentia raiva, principalmente de si mesmo, por ter sido pego por alguém no meio de um trabalho importante e por se sentir tão exposto

-E você também sabia qual era minha loja favorita. Provavelmente todo mundo no sistema sabe qual é minha fruta favorita. – Ele falou.

-Na verdade… – Ilsa começou. – Eu achava que era o alfaiate no outro lado do mercado, por isso a demora. Desculpe.

-Ótimo. Pelo menos um dos meus segredos está seguro, não tenho mais com que me preocupar. – Ele ergueu as mãos para o alto, imitando uma prece religiosa, antes de voltar á cruzar os braços. – Então você se deu ao trabalho de me procurar para “salvar Nova Glória”. Que perigo é esse que aparentemente ameaça a cidade inteira?

-O Titã Teriapolis veio até aqui para escolher seu próximo Arauto. – Ela falou apressadamente no momento em que Jonas perguntou.

Jonas a encarou com uma expressão de pura surpresa.

-Desculpe, mas… – Ele começou.

-E têm um navio pirata do Staunen pronto para invadir a cidade e capturar o Arauto. – Ilsa interrompeu.

Jonas continuou encarar, esperando que fosse apenas uma piada, mas o final da dela não veio. Havia um desespero nos olhos de Ilsa, uma suplica para que acreditassem na história impossível de uma completa estranha.

Ele esperou um pouco para se acalmar, se focando no som das gotas caindo ao redor. A última lâmpada do mercado estourou, restando apenas Runas de Sol como fonte de luz e deixando Nova Glória presa em uma noite sem estrelas.

-E como você sabe disso? – Jonas perguntou.

-Eu roubei papeis de um navio pirata, que estão lá na moto se precisar ver. O Staunen estava tentando prever quando e onde um dos titãs vai aparecer, e achou oito pontos onde isso podia acontecer, incluindo aqui. Eu tinha motivos para achar que Nova Glória seria o local certo, e agora tenho certeza.

-Isso é difícil de acreditar. – Disse Cecília Harlas para a surpresa de Jonas, que havia se esquecido da presença dela.  – Quer que acreditemos que simplesmente entrou em um navio pirata do próprio Lorde Staunen, encontrou documentos importantes, os roubou e escapou sem nenhuma conseqüência.

-Bem, eu… – Ilsa mordeu o próprio lábio enquanto juntava forças para falar, uma expressão que Jonas reconheceu subitamente, a memória lhe atingindo com o impacto de um encouraçado.

-Por que ela é filha de lorde Amadeus Staunen. – Jonas falou subitamente, quase gritando. As duas olharam para ele, de olhos e bocas abertos.

Jonas finalmente entendeu de onde a reconhecia, lembrando de uma foto em preto-e-branco recebida em um envelope confidencial; Uma foto que passou horas memorizando antes de rasgá-la em pedaços e jogar os restos na fornalha, mostrando o maior pirata do Círculo Delta sorrindo para a câmera, ao lado de uma mulher em um vestido elegante, e acompanhado de uma criança sardenta mordendo os lábios. Alvos á serem eliminados ou capturados.

-Você já sabia? – Ilsa perguntou.

-Só percebi agora. – Ele explicou, escondendo o sorriso de satisfação pela descoberta. – Como nem tentou esconder seu sobrenome, até chamando atenção para ele, acho que queria ser descoberta.

Ilsa concordou em silêncio, com um olhar de culpa, esperando pela reação dos dois.

-Sem ofensas á nossa visitante. – Cecília começou. – Mas como podemos ter certeza? Ela poderia ter simplesmente usado um nome falso para te convencer. Quantos nessa parte da galáxia já se disseram filhos bastardos dele?

-Eu sei que é ela. Não posso contar como, mas eu sei. –Ele não conseguiu conter a excitação em sua voz. – Acabamos de encontrar a filha do maior vilão da galáxia.

-Esta sou eu. – Disse Ilsa Staunen, de braços abertos como se apresentasse em um palco, tentando esconder sua vergonha com um sorriso.

Cecília abriu a boca para falar, mas desistiu logo antes que a primeira palavra escapasse, e decidiu observar a cena em silêncio.

-Só para rever: O Titã vai escolher um Arauto aqui, e a Frota Negra vai nos invadir para pegá-lo? – Perguntou Jonas.

-Na verdade é só um navio. – Respondeu Ilsa. – Tinham oito locais que Teriapolis podia visitar, mas ninguém tinha certeza de qual seria, então tiveram de dividir navios entre todos para ficar esperando até descobrir qual. Aqui é o lugar menos protegido e a Frota Negra não é tão grande quanto antes.

-Não sabiam onde o Titã ia parar, mas você sabia?

-O feiticeiro do meu pai disse que tinha uma impressão sobre essa lua e que viria pessoalmente aqui. Ele sempre tem essas alucinações sobre o destino e eventos, então pareceu a escolha certa, e como os capitães se recusaram a acreditar nele e mandar mais de um navio, parecia o único lugar que eu podia visitar e fazer diferença.

-Agora temos um feiticeiro no meio? – Ele perguntou.

-Eu sei que soa estranho, mas é tudo verdade. – Ela respondeu. – Os piratas de meu pai querem achar o Arauto assim que for escolhido e forçá-lo a trabalhar para a Frota Negra. Quando conseguirem vão destruir a cidade para ninguém saber o que aconteceu, e depois disso vão voltar a fazer guerra com as outras nações. Por favor, Jonas, você é o único aqui que pode me ajudar a salvar Nova Glória.

Jonas a observou em silêncio, vendo o desespero crescente em suas palavras e a inocência em seus olhos.

Ele se afastou do balcão, andou lentamente até onde a chuva o alcançasse, e olhou para cima. O chuvisco tinha dado lugar á uma tempestade. A água encharcava seu cabelo, seu rosto e suas roupas. Jonas não se importou.

O céu tinha se tornado apenas escuridão cinzenta, relâmpagos e violência. Ele se lembrou da última vez que presenciou a visita de um Titã, através da luneta de um rifle á quilômetros do evento, quando o céu choveu fogo sobre a cidade e o peixe-sol escolheu seu Arauto.

Jonas fechou seus olhos, sentindo a água escorrer por seu corpo. Ele se lembrou de tudo que aconteceu em Nova Glória: A batalha desastrosa contra a Barracuda que quase o levou a desistir; As palavras de Alice que o impediram de acabar com tudo; o encontro com Movna e Eli que o levaram a montar sua nova tripulação; a captura pela Madame Octavius que o fez um servo, e o confronto com Sergei que lhe devolveu a vontade de lutar.

Um novo som chegou aos seus ouvidos, entre a cacofonia de água e trovão, quando percebeu que estava rindo com toda a força de seus pulmões. Ele se lembrou mais uma vez das chuvas na fazenda, quando era um jovem atirando em garrafas com a espingarda de seu pai, sonhando se tornar o maior soldado de todos.

-Ele está bem? – Ilsa perguntou para Cecília.

-Definitivamente não. – Cecília respondeu.

-A princesa pirata se rebela contra seu pai, rouba os planos de um feiticeiro, onde procura a ajuda de um capitão para encontrar o novo escolhido dos Titãs. – Ele gritou para elas entre gargalhadas.

-Isso quer dizer que não vai me ajudar? – Ilsa perguntou.

Ele voltou para a tenda, encharcado e sorridente.

-É claro que vou ajudar. Com um caso tão estranho eu tenho de participar.

O rosto de Ilsa se iluminou com esperança.

-Ótimo, certo, eu… Eu nem sei onde começar. – Ela quase pulava de excitação. – Eu tenho todos os planos lá na moto.

-Tenho de buscar algumas coisas no meu esconderijo, mas vá falando tudo que sabe no caminho. – Capitão Jonas falou. Ele se virou e começou a andar por uma das ruas, e Ilsa o seguiu segundos depois, levando a moto ao seu lado. – Também preciso me secar. Parar de cara pra chuva foi uma péssima idéia.

-Tem certeza do que está fazendo? – Cecília gritou de onde estava, frustrada e irritada. – Toda essa história é improvável demais. E se estiver errado?

-Vou apenas desperdiçar tempo. – Ele gritou de volta, sem olhar para trás. – Mas se estiver certo, vou salvar a cidade e ser um herói.

 

*****

 

As runas se rebelavam contra Jericó, exalando seu poder em vento e relâmpago.

Jericó d’Damara observava atentamente o pote em mãos, dentro do qual uma pedra quicava de um lado ao outro, levada pelos ventos que ela mesma criava. Água se acumulava no fundo do pote, e minúsculos relâmpagos atormentavam as paredes de plástico.

A pedra era inscrita não apenas em Runas de Tempestade, mas no conjunto de símbolos específico de Teriapolis: A estrada, o corcel e o raio. As runas que se mostraram as mais instáveis e violentas sob aquele céu cinzento, a prova que Jericó precisava de que presenciava o mais sagrado dos dias.

Ele sorria incontrolavelmente por debaixo de sua máscara. O Titã vinha para Nova Glória para escolher seu Arauto, aquele que receberia parte de sua essência, uma fagulha minúscula de poder que o faria andar como um deus entre a humanidade.

As nações viriam em busca do Arauto, procurando mais uma grande arma de guerra contra as outras. Ele esperava que os Cavaleiros Hospitalares ganhassem essa competição, pelo bem de seus irmãos Ferreiros, mas de resto política era algo de pouco importância.

O que realmente importava era o significado daquele evento. Se Teriapolis estava disposto a escolher seu Arauto na mesma lua em que Jericó vivia, então talvez seus crimes não fossem tão severos. Talvez redenção ainda fosse uma possibilidade.

“Os olhos do eqüino celestial não vêm os crimes do Ferreiro, apenas por que ele é baixo demais para sequer ser notado.” Jericó pensou, enquanto seu sorriso desaparecia.

-Acha que podemos confiar nele? – Disse Eli Aros de outro canto do armazém. Uma capa de chuva amarela o cobria da cabeça até suas botas de borracha, uma máscara de gás cobria a metade de baixo de seu rosto e óculos de proteção protegiam seus olhos.

-Por que devia? É um Octavius, não tem como confiar. – Movna respondeu. Ela vestia seu habitual poncho negro com um capuz, normalmente preso no interior da vestimenta, cobrindo sua cabeça. Um pedaço de Erva-de-Viajante se prendia á sua canela.

-Não o Mordecai. – Ele abaixou sua voz um pouco. –Estou falando do nosso novo tripulante.

Jericó pensou em gritar para Eli e avisar que podia ouvir suas palavras, mas decidiu que não valia o esforço.

-Ah. – Ela respondeu, afiando com uma pedra a arma que cobria seu punho: Um pequeno escudo de metal, do qual surgia uma lâmina coberta de Runas de Ferro. Um objeto planejado por ela, e feito pelas mãos de Jericó. – Por que não confiar?

-Por que ele já nos traiu, faz uma semana. – Eli quase gritou, erguendo as mãos para o alto. – É justamente por causa dele que estamos nessa missão suicida para uma família criminosa.

-Ele já se redimiu.

“Ainda não”, Jericó pensou. “Meu caminho pela forja ainda é longo”. Ele torceu para não ter falado em voz alta sem perceber.

-E quando foi isso? Foi quando ele me botou em coma?  Quando quebrou meu crânio? – Eli falou em voz baixa, mas sua frustração e vontade de gritar era clara.

-Quando lutou com a gente. – Ela ergueu a lâmina para o alto e a admirou, o metal refletindo o pouco de luz no armazém. – Ele ficou no nosso lado contra a Barracuda. Para mim é o bastante.

-Só isso? Basta ajuda em uma briga e já se torna um aliado confiável?

-Sim.

-Eu nunca vou entender essa lógica Agnae. – Eli falou. -E quanto a Octavius? Ela pode lhe chantagear de novo a qualquer momento, e nós nem sabemos por qual crime.

-É segredo dele, não vou interferir. – Disse Movna, focada em sua arma. Ela deu alguns golpes pelo ar, cortes audíveis com rastros cinzentos.

-Segredo dele? Você já reclamou, repetidamente, que odeia quando Jonas mantêm segredos.

-Jonas é nosso líder, as decisões dele arriscam todo mundo.

-E Jericó não seria um risco? – Disse Eli.

-Talvez, mas é responsabilidade do capitão. – Ela ergueu a arma para cima e, com um pouco de foco e vontade, fez a lâmina se retrair para dentro do escudo de metal. – Para mim só importa que ele seja da tripulação.

-Certo. E se ele tentar nos trair ou me atacar de novo?

-Então vai virar um inimigo e vou quebrar os braços dele.

-Certo, não era o apoio que queria, mas vai servir por hoje. – Eli ficou quieto por alguns momentos enquanto ajustava seus óculos de proteção. – E quanto a tudo que ele nos disse sobre Teriapolis?

-Acha que é mentira?

-Não, por mais que queira acreditar no contrário. Ele é um bastardo, mas o que disse condiz com o que têm acontecido: A tempestade repentina, o comportamento instável das runas, a busca da Octavius por um indivíduo secreto. –Ele suspirou em frustração. – E como sempre, minha vida saindo de controle mais uma vez.

Movna o encarou, expressão oculta por óculos e capuz. Quando começou a falar, as portas do armazém se abriram.

-Venham. É hora do trabalho. – Disse Mordecai, parado do lado de fora sob a chuva, com o mesmo terno e penteado de antes, ignorando a água que caia sobre ele.

Ele deu um assovio estridente e Aristaeos respondeu ao chamado: Um cão surgiu de um canto escuro, uma criatura amarelada de olhos brancos e presas grossas, alto o bastante para que seus ombros chegassem á barriga de um homem normal. Suas orelhas eram altas e dobradas, seu rabo era longo e fino, seu corpo esguio e suas garras eram como foices.

Ele caminhou casualmente até o exterior, seguido pelo olhar assombrado de Eli.

Jericó não conhecia a raça daquele animal, mas reconhecia as criações dos Drakov. Ele sabia que Aristaeos não era apenas grande e intimidador, mas também mais inteligente que um cão normal e tão letal quanto sua aparência sugeria.

-Cuidado. – Movna disse para Eli, com uma mão sobre seu ombro. – Quando precisar, chame e eu venho.

Ela ajustou seu poncho negro mais uma vez, checou as faca em seu cinto e caminhou para a saída, sumindo entre as sombras do exterior.

Eli respirou profundamente, tomou uma pistola de cima da mesa e guardou num bolso interno de sua capa de chuva. Ele se virou para Jericó e disse antes de partir:

-Não arruíne tudo de novo.

Jericó queria ter uma mensagem final para dizer, e alguém para quem dizer. Ele olhou para o pote mais uma vez, onde a pedra de runas continuava sua luta contra as paredes.

-Se comporte. – Ele falou antes de cuidadosamente encostar o objeto no chão. – Em breve vou te testemunhar em pessoa.

Jericó se levantou, pegou seu martelo e partiu para o mais sagrado dos dias.

 

 

 

Através do Éter – O Cheiro de Eletricidade

“… Repito, as Runas de Tempestade estão instáveis e nosso maquinário está quebrando. Os mecânicos da prefeitura avisam que as Colunas mantendo nossa atmosfera também podem sofrer mau funcionamento. Pedimos que desliguem seus aparelhos elétricos e se preparem para vazamentos de Éter. Busquem máscaras de gás ou o abrigo mais próximo.”

-A Voz de Nova Glória

 

A Lampreia flutuava pelo Éter. Observando. Esperando.

O navio era coberto pelo preto mais escuro, tornando-o apenas uma mancha negra contra o céu estrelado, exceto pelo símbolo branco em seu casco: A lula caolha sobre um par de sabres cruzados, a bandeira de todos que serviam diretamente a Lorde Staunen.

A Lampreia estava quieta, seus motores em silêncio, suas asas fechadas e todas as luzes apagadas. Por precaução, as Runas de Tempestade foram prontamente desfeitas, incluindo aquelas que mantinham o ar da embarcação. A maior parte da tripulação esperava dentro de câmaras fechadas, onde portas pressurizadas mantinham o Éter venenoso de fora, enquanto o resto usava máscaras de gás ao andar pelos corredores desprotegidos.

Tudo para um evento que provavelmente não viria. Oito navios negros espalhados pela galáxia esperavam pela mesma coisa, torcendo para serem os primeiros a ouvir o som de cascos.

-Eu sinto no Éter. Só pode ser aqui. – Disse Elijah Tanoya quando ouviu a porta abrir.

Ele se sentava no convés da Lampreia, de pernas cruzadas em posição de meditação, segurando um cajado de marfim entre as mãos. Ele era um homem magrelo, de cabelos negros e longos enrolados em uma única trança, seu nariz era torto como resultado de tantas lutas e seu rosto enrugado como marca de tantos anos. Um manto azul-elétrico cobria seu corpo, enquanto um colar de presas e vértebras de bestas enfeitava seu pescoço. Havia um jarro de terra ao seu lado.

Não havia máscara de gás ou aparelho que o protegesse do Éter. Seus olhos marrons se tornavam azuis à medida que o ar contaminado envenenava seu corpo. Tanoya não parecia se importar.

-Eu trouxe notícias, senhor. – Disse o pirata que havia entrado no convés, vestido com o uniforme negro da Lampreia e uma máscara de gás. – O que você sentiu? Consegue ver se ele está chegando?

-Ele não se decidiu ainda. Oito tempestades e não sabe qual a mais fértil. Mas eu… – Ele parou para tossir, uma tosse longa que fez sua garganta arder enquanto seu corpo tentava expelir o Éter em seus pulmões, então continuou. – Mas… Mas eu sei. Você consegue ver?

O pirata examinou a vista. Á frente da Lampreia pairava um gigantesco planeta gasoso, uma silhueta laranja que bloqueava a luz do sol. Oito luas giravam ao redor deste planeta, e na maior delas estava o Porto-Lunar de Nova Glória.

A cidade em si não estava á vista, apenas uma massa cinzenta que se espalhava pelo resto da lua.

-Eu vejo que o local está próximo da Corrente 32. – Disse o pirata. – Talvez isto seja um atrativo. Este também pode ser um bom centro comercial agora que as nações estão abrindo comércio, mas não sei se isto é relevante para ele…

-É mais do que isto. – Disse Tanoya, lutando contra sua voz rouca e a falta de ar. – Não são só rotas de navios e dinheiro, este local se tornou o centro de uma teia ainda maior, um redemoinho no grande mar onde peixes e dejetos são puxados até atrair atenção dos tubarões.

-Então o destino…

-Não há destino. – Tanoya gritou antes de começar a tossir mais uma vez. O pirata esperou pacientemente até ele se recuperar. – Estou falando nas marés e ventos do universo, não na predestinação arbitrária de uma força teatral.

-Desculpe, mas ainda não entendo a diferença.

-É claro que não. Staunen é o único que entende. – Tanoya apoiou o cajado contra o chão e se levantou com o pouco de força tinha. – Eu também não entendo, mas eu sinto. Eu sinto no Éter que está me matando. Eu sinto as pegadas no acaso, e as gotas que se juntam nestas pegadas para formar o novo rio: A rainha da colméia negra, a princesa perdida de um palácio rachado, o eremita de muitos ângulos, o jardineiro de sangue, o predador derrotado e o peixe de asas quebradas que arrancou sua garganta…

-O que isto significa?

-Eu não sei, mas ele vai entender. – Ele parou para tossir de novo, deixando manchas de sangue no chão. – Parece que cheguei ao meu limite. Se não se incomoda…

Elijah Tanoya se abaixou e esticou um braço em direção ao vaso, deixando sua mão pairar acima das pequenas folhas que saíam da terra. As folhas se moveram e se enrolaram em seus dedos.

-Nós temos máscaras de gás sobrando, senhor.

-Já tenho Éter demais no meu sangue. Economize seu oxigênio, só esta planta pode me salvar agora. – Tanoya explicou enquanto as pontas das folhas perfuravam sua carne e se prendiam a ela. A planta puxou suas raízes para fora da terra e se enrolou no braço de Tanoya como uma cobra faminta.

Ele fechou os olhos enquanto a criatura se cravava em seu corpo. Quando os abriu, todo o azul havia desaparecido deles. Lentamente sua respiração voltava ao normal.

-Cuidado senhor, se ficar mais de três horas com esta—

-Eu conheço a Erva-de-Viajante, somos inimigos íntimos. – Tanoya interrompeu. – Você disse que trazia notícias. Quais?

-Nós tentamos falar com nossos contatos na região, mas o herdeiro da Barracuda e sua tripulação foram presos alguns dias atrás. Se descermos para o Porto-Lunar nós estaremos praticamente cegos. O capitão pediu por sua opinião sobre o que fazer.

-O redemoinho está se movendo rápido. Mas não importa, ele virá e nós iremos invadir a cidade, com ou sem a dinastia de Baltazar. – Tanoya se apoiou no cajado e pensou por alguns momentos, revirando os ossos de seu colar com dedos sangrentos. – Diga que irei descer junto com nossos homens para guiá-los. Podemos estar cegos, mas meu faro é potente.

-Sim senhor. – O pirata fez uma saudação e voltou para dentro do navio.

Tanoya continuou a observar Nova Glória. A planta em seu braço lhe deixava respirar o Éter como um peixe respirava água, mas todos os sinais desapareciam. Ele não podia mais sentir a direção dos acontecimentos e o movimento das marés. O que era o redemoinho no centro do acaso agora voltara a ser apenas mais um Porto-Lunar.

Não importava. Ele já sabia o que iria acontecer: Staunen iria vencer e a cidade iria queimar.

 

*****

 

O mercado parecia ao mesmo tempo tumultuado e completamente vazio.

Jonas andou por entre tendas recém abandonadas e aquelas cercadas por enxames de clientes apressados, fazendo suas últimas compras antes de se esconder das intempéries. Restos de comida e ferramentas estavam jogados ao chão, levados de um lado para outro pela ventania constante. Gotas de chuva ocasionalmente batiam em seu rosto, freqüentes o bastante para distrair, mas não o bastante para acostumar.

Jonas vestia roupas comuns, deixando seu uniforme e a carteira que roubou em um esconderijo especial. Havia a tentação de trazer uma arma, de ter o peso reconfortante de uma pistola em seu bolso, mas sua experiência discordava, dizendo que era uma daquelas situações onde se preparar para violência tinha mais chances de provocá-la que preveni-la.

-Aqui estou eu. – Jonas sussurrou enquanto olhava de um lado á outro do mercado. – De braços abertos e nada nas mangas. Também devia ter trazido um alvo pendurado no meu pescoço…

Um cheiro familiar atingiu suas narinas, uma mistura de ferrugem e sangue que fazia sua perna coçar furiosamente.

O odor vinha de uma das tendas ainda ocupadas, onde uma Etérita vendia vasos de terra para um grupo de clientes apressados.

Mesmo de longe, Jonas sabia que os vasos continham Erva-de-Viajante, uma alternativa barata para aqueles que não podiam comprar máscaras de gás.

-Não usem por mais de cinco horas de uma vez. – Gritava a Etérita, uma mulher de idade com cinco estrelas douradas tatuadas em sua testa. – Ou vão começar os efeitos colaterais.

Jonas sabia quais eram aqueles efeitos, e fez o possível para não pensar neles. Ele se focou em seu objetivo atual e continuou a andar.

O leve frio de Nova Glória havia dado lugar á um vento gélido. As luzes elétricas aumentavam e diminuíam de intensidade, enquanto as Runas de Sol pareciam indiferentes ao que acontecia. Uma lâmpada na distância se estourou, espalhando faíscas e vidro pela rua.

Um novo perfume atingiu Jonas. O cheiro de frutas frescas, algo agradável que trazia memórias de tempos simples e milharais sem fim. Jonas chegou á uma tenda vazia, onde cestas de frutas e vegetais enchiam os sentidos com cores e aromas. Ele se curvou, pegou uma laranja jogada no chão, se encostou contra a tenda e esperou.

Pessoas iam e vinham, comprando e vendendo o que podiam antes de fugir do clima cada vez mais hostil. O cheiro de ozônio era forte, assim como o cheiro da laranja que ele descascava com as mãos. Imagens de uma fazenda flutuavam para a superfície de sua mente, memórias de um local sempre cheio e das chuvas que chegavam.

Ele se lembrou das janelas que batiam com força, do milharal assoprado pelo vento, do espantalho que lhe trazia tantos pesadelos balançando na distância, das gotas batendo contra o telhado de uma forma estranhamente relaxante, de sua família correndo ás presas tentando guardar tudo que era frágil e importante. Por fim ele se lembrou de si mesmo, olhando para o horizonte através da janela, se imaginando sendo assoprado para longe e se perguntando se alguém sentiria sua falta.

-Jonas, finalmente. – Disse uma figura no mercado, uma voz conhecida que lhe pescou de volta á realidade. – Há horas que estou procurando por você.

Cecília Harlas, violinista do Açucareiro e ocasional enfermeira dos tripulantes do Robalo, se aproximava apressada por entre as tendas. Em suas mãos haviam sacolas cheias de máscaras de gás, potes de Erva-de-Viajante e caixas de materiais medicinais. Ela era uma mulher alta e esguia, vestida em um terno velho bem mantido, sem um casaco, mas trajando um colete negro por cima de sua camisa branca.

-Cecília? Você é Staunen? – Jonas perguntou surpreso, ainda tentando entender aquela revelação.

-Staunen? Jonas, por que eu seria o lorde pirata? – Ela respondeu com ainda mais surpresa e dúvida, antes que uma expressão de pânico surgisse em seus olhos dourados. – Você está sofrendo de uma concussão? Há quanto tempo está sofrendo de alucinações?

Jonas suspirou em frustração. Em retrospecto era óbvio que Cecília não era o Staunen que lhe contatou. Anos atrás, quando sua mente era constantemente afiada em treino árduo, ele nunca teria cometido aquele erro.

-Engano meu. Estava pensando em outra… – Ele parou quando Cecília segurou seu rosto, largando as sacolas no chão, e começou a analisá-lo como um inquisidor procurando por pistas de um crime.

-Os ferimentos superficiais estão cicatrizando adequadamente, assim como o corte na garganta. – Ela retirou uma pequena lanterna de plástico do bolso e a balançou em frente aos olhos de Jonas, observando enquanto suas pupilas seguiam o objeto, e então ligou a luz contra seu rosto, em um teste de fundo de olho. – Dilatação das pupilas está normal, e não há danos óbvios nos nervos. Nenhum sintoma de sangramento interno, sem suor ou palidez, mas ainda há riscos de danos colaterais.

-Já checamos minhas feridas, várias vezes. Eu estou bem.  – Ele disse, esperando que a presença de Cecília não atrapalhasse sua reunião secreta com Staunen. – Sem sangramentos e nada fora do lugar. Não tem por que se preocupar.

-Uma série de cortes pelo corpo todo, contusões, eletrocussão, múltiplos ferimentos de bala no torso e uma garganta cortada. – Ela largou o rosto de Jonas e cruzou os braços, lhe encarando com um olhar duro. – Em um curto período de tempo você sofreu ferimentos o bastante para matar três homens. Eu tenho bons motivos para me preocupar.

-Eu já vi sobreviverem á muita coisa pior, e ao contrário deles eu tive medicina moderna do meu lado. Com tantas sanguessugas que botaram em mim não tem como ainda correr riscos.

-Também já testemunhei indivíduos sobreviverem á danos ainda mais graves, assim como vi outros terem sua saúde debilitada por machucados mínimos. Existem dois tipos de ferimentos, Jonas, os debilitantes que irão durar a vida toda, e aqueles que só esperam para se tornarem o primeiro tipo. – Ela explicou, um pouco de tristeza se infiltrando em seu tom severo. – Não adianta quantos procedimentos de sanguessugas use, se você vai se desgastar logo em seguida correndo pela cidade e sendo defenestrado do Cassino.

-Eu adoraria poder descansar, mas tenho tanto trabalho a fazer… – Jonas resistiu à vontade de continuar aquela linha de pensamento, de explicar que não conseguia dormir até ter algum avanço em seus planos, de que não dormia desde a cirurgia alguns dias atrás, quando Cecília lhe encheu de anestesia e o esvaziou das balas em seu torso. – Espera, como sabia que me atiraram pela janela do cassino?

-Jericó me contou os detalhes enquanto tratava a perna dele. Ou foi o que consegui decifrar do que ele falava.

-Ele soa estranho, mas depois de uns dias dá para entender a língua dele. – Jonas se lembrava de dividir o incidente no cassino com Movna quando Jericó estava por perto para ouvir, mas não se perguntou por que dividiu aquele detalhe específico com Cecília. Os motivos trás das ações do mecânico era um mistério para outro dia. – Eu não posso parar e descansar, não agora, não enquanto a Octavius ameaçar minha tripulação e meu navio não voltar a voar. Eu tenho de continuar a trabalhar, a correr por aí e ser jogado para fora de locais até concertar tudo.

-Mesmo sob o risco de danos permanentes? Sob o risco de morte? De sabotar seu próprio corpo e se tornar incapaz de continuar seu trabalho?

Jonas apenas acenou com a cabeça. Havia uma certeza no cinza de seus olhos que refletia o do céu acima.

-Muito bem, não irei mais insistir no assunto. – Ela respondeu, com uma expressão de exaustão. – Mas seja cuidadoso, não se envolva em tantos riscos desnecessários. Eu prometi para minha irmã que manteria vocês do Robalo vivos. Por favor, não me faça uma mentirosa, Jonas.

-Eu queria dizer que vou ficar longe de tiroteios, piratas e janelas altas, mas estou quase conseguindo avanços no meu plano e não posso parar agora. – Ele disse. – Mas eu prometo, pelos titãs acima, que quando meu navio estiver pronto e esse problema com a Octavius acabar, vou tirar um mês de descanso, sem nenhum esforço físico ou plano mirabolante. Você pode fazer qualquer exame que precisar, até me abrir na mesa de cirurgia para ver quantas balas acumulei aqui dentro.

-É um avanço. Acho que posso me contentar com a promessa de seus intestinos. – Cecília Harlas disse com um pequeno sorriso. Ela tirou suas sacolas do chão, as pôs sobre um balcão da tenda e se encostou ao lado de Jonas. O vento assoprava seus cabelos negros contra seu rosto. – Mas então, por que você me chamou de Staunen momentos atrás?

-É um dos planos em que estou envolvido: Tenho um encontro secreto com um estranho misterioso usando o codinome Staunen.

-Sério?

Jonas acenou com a cabeça e continuou a descascar sua laranja.

-Isto explicaria algumas de minhas dúvidas, e abre todo um leque de perguntas novas. – Ela disse. Irritada com o vento, Cecília tirou um elástico do bolso do colete e começou a amarrar seu cabelo em um rabo de cavalo. -O que este “Staunen” quer com você?

-Alguma coisa sobre a cidade estar em perigo. – Jonas falou. –E você, por que estava atrás de mim?

-Eli fugiu do Açucareiro sem qualquer aviso. Imagino que você saiba o paradeiro dele.

Jonas deu de ombros e comeu um gomo de laranja. Enquanto conversava com Cecília, seu olhar saltava entre todas as pessoas ainda no mercado, avaliando cada indivíduo que conseguia enxergar, procurando por pistas de quem poderia ser Staunen.

-Aquilo que você falou sobre o corpo dele se concertar errado… – Ele continuou a falar enquanto mastigava.

-É uma possibilidade. O simbionte de um Hominae Flora substitui partes da anatomia do hospedeiro quando há danos significantes ao corpo. Os efeitos costumam ser benéficos, mas há sempre o risco do simbionte causar danos colaterais permanentes, substituindo tecidos e órgão errados ou distorcendo os já existentes. O risco é ainda maior em indivíduos idosos ou que já sofreram intensa regeneração.

-Eli não é nenhum desses. Então…

-A chance de efeitos colaterais é pequena, mas considerando que ele recebeu um golpe na cabeça forte o bastante para deixá-lo em coma… Prefiro evitar riscos e deixá-lo em observação.

-Certo. – Jonas respondeu logo antes de cuspir os restos do gomo em uma lixeira próxima. – Assim que achá-lo vou mandá-lo de volta pra casa.

Os últimos clientes já haviam abandonado o mercado, restando alguns poucos mercadores para arrumar seus pertences. Todas as casas ao redor tinham suas portas e janelas fechadas. Havia alguns lagartos pequenos correndo pela rua, mas Jonas duvidava que fossem quem procurava.

-Sabe, esta resposta me deixa curiosa. – Cecília disse, terminando de amarrar seu cabelo. – Minutos atrás nós brigamos por sua falta de cuidado com a própria vida, mas quando tratamos de um colega você imediatamente aceita minhas sugestões.

-É como aquele ditado: Quando o navio afunda, o capitão fica por último. – Disse Jonas, mas antes que pudesse se explicar um grande e grave estouro roubou a atenção de todos na área.

Inicialmente ele achou que fosse mais um trovão ou lâmpada quebrando, mas o barulho durou mais que um instante e chegava cada vez mais perto. A cada segundo que o som durava, Jonas conseguia reconhecê-lo um pouco mais, trazendo á mente imagens de sua infância na fazenda, especialmente a imagem de um trator vermelho e sua fumaça fedorenta.

A origem do som apareceu de uma esquina, uma motocicleta negra montada por alguém vestindo as mesmas cores. O veículo tinha um motor estranho, com canos que exalavam fumaça e barulho, sem uma única runa á vista. Jonas reconheceu o cheiro da gasolina que movia a máquina, algo que não esperava ver fora de seu planeta.

O estranho fez uma curva fechada e se dirigiu para o centro do mercado, desviando de todas as tendas e objetos largados ao chão sem perder velocidade, com uma elegância que contraía o jeito brusco de seu veículo.

O visitante desconhecido chegou á tenda de frutas e parou subitamente na frente dos dois, os encarando por trás da lente opaca do capacete.

-Talvez seja uma contusão. – Disse Jonas para Cecília. – Mas acho que encontramos Staunen.

 

*****

 

A porta estava aberta. O armazém em silêncio. Eli estava aterrorizado.

A porta devia estar trancada, Movna fazia questão de mantê-la assim. Ninguém podia entrar sem dizer o código secreto ou se arriscar a encontrar uma das armadilhas.

O armazém devia estar ocupado por uma cacofonia insuportável. Jericó trabalhava incessantemente para concertar o Robalo, e segundo os relatos de Jonas e Movna não havia um momento sem o som de uma serra elétrica, um prego sendo batido, ferro sendo soldado ou qualquer outro som ensurdecedor das ferramentas sem fim do mecânico.

Eli não sabia o que fazer. Parado em frente ao armazém onde seus colegas decidiram permanecer depois do último ataque pirata, com o chuviscar de água atingindo seu rosto, ele se decidia entre ficar ou fugir. Não havia ninguém á vista para pedir ajuda, apenas a cidade vazia e o céu sem estrelas.

Houve um estouro. Ele se abaixou e protegeu a cabeça, antes de perceber que era apenas uma lâmpada que estourou.

-Isto é ridículo. Tenha um pouco de dignidade. – Eli sussurrou para si enquanto se levantava.

Ele fechou os olhos e respirou, inspirando ar pelo nariz e expirando pela boca, contando os segundos de cada fôlego. Quando chegou á um estado vagamente semelhante á calma, percebeu que precisava ter uma idéia melhor da situação antes de qualquer decisão, e se dirigiu para uma das janelas laterais, subindo em um par de caixotes para ter uma vista clara do interior.

Não havia uma única luz acesa. O interior estava ocupado apenas por sombras e silhuetas. Entre todas as formas que conseguia ver, o Robalo era a única que reconhecia.

O navio estava suspenso no ar por uma série de colunas e correntes, em frente á uma janela por onde as luzes restantes da cidade e o ocasional relâmpago delineavam sua estrutura. Ele parecia mais completo do que da última vez que Eli o viu. O que era antes uma pilha de madeira quebrada que mal podia ser reconhecida como uma embarcação etérea, agora parecia uma nova nau em construção. Mesmo que ainda faltasse metade de sua estrutura, não havia sinais óbvios de que já foi destruído em algum momento.

Eli notou seu momento de distração com o Robalo e voltou a procurar, esticando seu pescoço para tentar ver mais do armazém.

Uma luz fraca surgiu no canto de sua visão, mas não conseguia enxergar a fonte ser daquele ângulo. Dentro daquele campo de iluminação havia a ponta de uma mesa e uma cadeira vazia, mas nada que pudesse distinguir. Um braço surgiu em sua linha de visão, apoiado contra a mesa e coberto pela manga de um terno, grande demais para ser de Jericó ou Movna.

Eli se apoiou na ponta de seus dedos e se apoiou contra a base da janela, tentando ver o tanto quanto pudesse daquele invasor. Houve um rangido, vindo do caixote sob seus pés. Ele torceu para que o ruído se perdesse entre o som da chuva e dos trovões. Antes que pudesse se abaixar, um par de olhos brilhantes apareceu no armazém, olhando diretamente para ele.

Os olhos reluziam como o luar, brancos e redondos, do tamanho de olivas. Um pouco abaixo, grandes presas brancas refletiam a luz deles, tão grossas e longas quanto os dedos de uma mão. Um rosnar surgiu de trás daqueles dentes, soando com a intensidade do motor de um navio.

Logo em seguida veio o brilho das runas de uma pistola, segurada pelo grande braço sobre a mesa, apontada diretamente para Eli.

-Seja quem for, desça daí e entre pela frente. – Disse a voz Grave e profunda daquele que segurava a arma. – Tente fugir e soltarei o cachorro. Ele já tem seu rastro, e irá te perseguir por toda a lua e trará o que sobrar de você como troféu. Compreende?

Eli sentiu o frio de pânico em seu peito. Sem dizer qualquer palavra ou fazer qualquer sinal, ele desceu de onde estava e deu a volta até a entrada principal. Com cuidado para não nada que pudesse ser confundido com uma tentativa de fuga.

Quando abriu a porta a primeira coisa que viu foi a mesa, seus colegas sentados ao seu redor, juntos do maior ser humano que já viu.

O homem que segurava a pistola estava sentado á cabeceira da mesa, e mesmo naquela posição sua cabeça chegava á altura da de Eli. Ele era tão largo quanto se esperava de seu tamanho, com membros grossos que lembravam troncos de uma árvore.

Sua pele era cinzenta, pálida como um cadáver, e seus olhos eram completamente amarelos, dois globos dourados que refletiam o pouco de luz da sala. Os traços comuns de um Hominae Voivode.

A figura se vestia com um terno justo. As mangas e dobras se encaixavam perfeitamente em sua grande fisionomia. Todos os botões do terno estavam fechados, a gravata vermelha amarrada em um nó perfeito, e seus cabelos negros penteados para trás com uma precisão profissional. Em cada uma de suas mangas havia uma abotoadura no formato de um hexágono preto.

-Ah, Eli Aros. Eu presumi que era um ladrão. Entre e feche a porta. – Ele disse, guardando a pistola no bolso do casaco enquanto Eli seguia as ordens. – Você sabe quem sou eu?

-Um capanga da Octavius. – Disse Movna, sentada de braços cruzados, pés sobre a mesa e pura frustração em seu olhar. – Um que devia ser menos arrogante.

-Morvana. – O estranho disse, com todo desprezo que conseguia colocar naquele nome sem perder a composição. – Vocês trabalham para nós agora. Eu não peço por obediência cega, mas vocês irão mostrar o mínimo de respeito.

-Esse é meu mínimo. – Ela respondeu. – Espere até me ver sem respeito nenhum.

O grande estranho a encarou. Sua expressão não mudou, mas o amarelo de seus olhos se tornou mais intenso, mais reluzente, como brasas que ganhavam mais força ao serem assopradas. Movna o encarou de volta, sem piscar ou mover um músculo.

O tempo de fora se tornava pior. O chuvisco deu lugar á uma chuva de verdade, com gotas pesadas e ventos cortantes.

-O contador de moedas chegou. – Disse Jericó d’Damara, sentado oposto á Movna e de cabeça deitada sob os braços, lembrando Eli de uma criança cochilando no meio das aulas. – Isto significa que posso voltar aos trabalhos importantes?

-Isto é um trabalho importante. – Disse o estranho. – Estamos aqui para discutir seu capitão e seu próximo trabalho para a Octavius.

-É por isso que interrompemos a forja? Suas prioridades são confusas e nem um pouco práticas. – Jericó resmungou.

O grande homem de terno fechou os olhos e respirou profundamente. Quando os abriu, eles tinham retornado ao normal. Ele se levantou, fazendo toda a sala parecer menor.

-Voltemos ao assunto. Sente-se conosco Eli. – Ele acenou para uma cadeira ao lado de Movna. – Você sabe quem eu sou?

-Mordecai O Traidor. – Eli falou enquanto se sentava, em um tom formal que usava durante negócios, tentando esconder seu medo. – Eu já o vi de longe, perto do Cassino. O capitão nos falou um pouco sobre você: supervisor da Octavius; trabalha diretamente para a Madame e atirou Jonas por uma janela recentemente.

Jonas também havia lhe contado o codinome de Mordecai, “O Topeira”, mas parecia melhor não dividir aquele detalhe naquele momento.

-Finalmente, alguém civilizado que sabe conversar direito. – Mordecai exclamou para cima, como se agradecesse aos próprios Titãs. Ele cruzou os braços por trás das costas e andou ao redor da mesa. – Sim, eu recebo ordens da Madame, e também sou o agente responsável por vocês e seu capitão.  Sou eu quem deve mantê-los na linha, garantir que façam o que lhes for exigido, e irei ordenar sua eliminação caso saiam do controle. Sabe por que estou aqui?

-Você disse que temos um trabalho para a Família, então presumo que seja por isso. – Eli respondeu.

De onde sentava podia ver a fonte de luz: Um tubo de pedra marcado com Runas de Sol, que também gerava um calor reconfortante para aqueles sentados. Montes de panos coloridos também se encontravam sobre a mesa, junto de agulhas, tesouras, desenhos de bandeiras e alguns uniformes semi-acabados. Tudo feito pelas mãos de Movna.

Houve um movimento na escuridão, de algo andando silenciosamente de um canto par outro, mas não era possível dizer se era o cachorro ou para onde ia.

-Este é o motivo principal, mas também vim tratar sobre Jonas. Nesses últimos dias ele tem desaparecido de nossos olhos por longos períodos de tempo. Acreditamos que esteja tramando contra nós. – Mordecai parou atrás de Eli, onde não podia ser visto, mas sua presença podia ser sentida. – Diga onde ele está.

-Ele não sabe. Eu não sei. Ninguém sabe. – Movna gritou, ainda imóvel. – Já discutimos isso três vezes. Quer perguntar isso pra cidade inteira? Todo mundo vai responder a mesma coisa.

Mordecai não respondeu. Apenas continuou parado e esperou pela resposta.

-Mas é verdade, eu sei tanto de onde ele está ou que está fazendo quanto qualquer um nesta sala. – Eli explicou.- Ele e Movna me visitaram no Açucareiro no começo da tarde, quando eu estava de repouso, mas não comentamos sobre nenhum plano sobre desaparecer da lua.

-Hm. – Foi a única resposta de Mordecai por um longo momento. – Minha carteira foi roubada por um mendigo esta tarde. Meus guardas o capturaram, mas ele escapou de maneira “ardilosa”. Sabe alguma coisa sobre isto?

Eli simplesmente discordou com um aceno de cabeça.

-Eu avisei. – Movna sussurrou.

-Então prove que não está mentindo. – Mordecai ordenou, com tanta calma em sua voz quanto ameaça.

Eli apoiou seu rosto contra uma mão, tamborilando os dedos da outra contra a mesa, ao mesmo ritmo das gotas batendo contra o telhado. Pensar no que dizer era pelo menos uma distração de sua situação. Então ele respondeu.

-Não.

-Desculpe, o que? – Mordecai perguntou, com um pouco de confusão escapando de sua voz.

-No momento eu não sei como dar qualquer prova de minha falta de conhecimento sobre o paradeiro de nosso capitão, e imagino que arranjar uma iria requerer tanto tempo quanto a presença dele para confirmar nossas histórias, duas coisas que suponho não serem possíveis no momento, já que aparentemente temos uma tarefa importante para fazer agora. – Eli Aros explicou. – Além do mais, o que seria mais provável: que todos nós três sejamos bons mentirosos que conseguem coordenar a mesma história, incluindo Jericó; ou que Jonas simplesmente não tenha nos dado detalhes de suas atividades justamente para não podermos contar nada?

Ele continuou seu tamborilar de dedos enquanto esperava a resposta, tentando manter uma postura casual que escondesse seu medo, e também tentando ignorar a respiração que sentia em sua nuca.

-Isso basta. Por enquanto. – Respondeu Mordecai, antes de se continuar a andar ao redor da mesa. Seu andar era lento, mas pesado, fazendo o chão de madeira tremer a cada passo. – Era melhor ter Jonas conosco, mas agora vocês terão de servir. Vamos ao que é realmente importante.

-Finalmente. – Jericó gritou. Ele se levantou da mesa e andou apressado para sua mesa de ferramentas num canto escuro do armazém.

-Não, eu quis dizer que… – Mordecai tentou gritar para Jerico, mas desistiu e se voltou aos dois que restavam á mesa. – Repassem minhas ordens para ele depois.

-Não. – Disse Movna.

Mordecai a ignorou e continuou.

-Há um indivíduo específico perdido em Nova Glória, e a Madame quer encontrá-lo. Vocês irão buscá-lo e encontrá-lo antes do fim desta tempestade.

-Por que nós, especificamente? – Eli perguntou. – Por que a Octavius não usa de seu próprio pessoal?

-E quem disse que não é exatamente o que fizemos? Nossos homens já estão por toda a cidade, mas a Madame insistiu que a opinião de alguém de fora facilitaria nossa busca. Acredito que ela tinha Jonas em mente para isto, mas agora somos forçados á improvisar. – Mordecai parou em frente á uma janela, de costas para todos enquanto falava e admirava o cenário tempestuoso. – Darei todos os detalhes em breve, mas por agora vocês irão se preparar. Vistam o que tiverem para se protegerem da tempestade, do frio e de vazamentos de Éter. Preparem também suas armas, é possível que encontremos resistência em nossa busca. Espero que tenham compreendido.

-Que tal não perder tempo nessa tarefa imbe – Movna começou.

-Não é uma opção. – Mordecai a interrompeu, sua voz soando como um dos trovões de fora. – Irei coordenar detalhes com os outros agentes. Aristaeos irá manter guarda até minha volta. Qualquer tentativa de fuga terá resultados… Sangrentos.

Ele se virou á porta e saiu do armazém, ignorando a escuridão ou a chuva que lhe encharcava. Um rosnado veio das sombras, lembrando a todos da besta oculta entre elas. Não era possível enxergar o animal, exceto por pequenos vislumbres de olhos brancos e dentes afiados.

-Eli você está bem? – Movna deixou a posição que mantinha há tanto tempo e se virou para Eli.

– Ainda estou um pouco… Surpreso, com o que aconteceu. – Ele respondeu. Havia uma fraqueza em seus membros e um frio em seu peito, dando a sensação de que seu corpo estava prestes a falhar. – Mas consigo lidar com isso. O que aconteceu aqui?

-Eu e Jericó buscamos suprimentos. Quando voltamos, o filho de uma pistola já estava aqui dentro. – Ela explicou. – Ficamos esperando Jonas aparecer até você chegar. Por que está aqui? Aconteceu algo com o bar?

-Não. Eu… Eu apenas perdi minha paciência com o Açucareiro, então vim aqui para ajudar em algum trabalho.

-Então teve sorte, contador. – Jericó gritou, surgindo da escuridão atrás dele com o martelo em mãos. – Você agora tem o peso de uma missão sagrada sobre seus ombros.

Eli gritou, saltou de sua cadeira, agarrou uma tesoura da mesa e a brandiu como uma arma.

-Jericó. – Movna falou com toda calma que conseguia naquele momento. – O que te falei?

-Ah, sim, sobre não ameaçar o tesoureiro com um martelo novamente. Mil perdões. – Jericó d’Damara respondeu. – Mas o tempo escorrega rápido e preciso dividir minhas palavras antes que o traidor volte. Eu conheço a verdadeira face desta chuva.

-Face da chuva? Sério? O que há de errado com você? – Eli Aros gritou, ainda segurando a tesoura com firmeza. O frio em seu peito deu lugar ao calor da fúria. -Viramos escravos da Octavius por sua causa, então não perca nosso tempo com seus devaneios.

Ele se preparou para falar mais, de jogar toda sua frustração e raiva, mas sentiu a mão firme de Movna sobre seu braço, empurrando a tesoura para baixo.

-Continue. – Movna falou. – O que descobriu?

-Um evento milagroso, o novo girar do ciclo mais importante das galáxias. – Jericó exclamou, com um entusiasmo que podia ser notado mesmo através de sua voz abafada e de seu rosto oculto. – A família quer encontrar um indivíduo sem revelar o que procura, mas eu sei sua natureza. Ele está vindo para Nova Glória, para escolher aquele que trará sua marca, e a colméia negra quer este poder para si.

-Primeiro diz que não temos muito tempo, e então nos dá um enigma de 10 páginas para traduzirmos. – Disse Eli enquanto guardava a tesoura de volta na mesa. – Pode pelo menos dizer quem ele é?

-Teriapolis, aquele dos cascos de trovão. – Sir Jericó recitou o nome grande reverência, parecendo prestes á se ajoelhar.

-Espera… Quando você diz Teriapolis… – Eli começou.

-Sim, contador. O titã está chegando á Nova Glória.

 

 

Através do Éter – Dias de Chuva

“Querida Nova Glória, nosso telefone passou a última hora tocando com seus avisos sobre a tempestade acima da nossa cidade. Pelo o que sabemos é apenas uma anomalia das runas que mantêm nossa atmosfera, um evento raro que não acontece há décadas, mas inofensivo e que deve passar em algumas horas…”

-A Voz de Nova Glória

 

Jonas disparou pelas ruas sob o céu cinzento. Guardas armados corriam atrás.

Ele tropeçou em seus próprios trapos e caiu contra a estrada de tijolos, ao lado de um lagarto de carga e a carroça que puxava. As pessoas se afastaram, espantadas e curiosas, abrindo um buraco na multidão.

Para todos os que o viam, Jonas era um mendigo vestido em trapos, com uma enorme juba embaraçada e uma barba que cobria metade do rosto. Seus olhos eram de um amarelo assombroso, deixando-o irreconhecível á praticamente todos que o vissem.

-Ladrão! Peguem o mendigo! – Gritou um dos guardas que se aproximava, segurando o cabo de sua espada e pronto para sacá-la. Quatro outros o seguiam na distância.

Se recuperando da queda, Jonas começou a se levantar, levando uma mão para checar seus bolsos enquanto procurava a rota de fuga, escolhida horas atrás para emergências como aquela.

Ele se viu de frente para o lagarto e seus olhos amarelos. O animal não se movia, mas se levantava com as patas e abaixava sua cabeça, mostrando-se irritado e preparado para se defender.

Jonas se levantou com cuidado e movimentos lentos, se afastando cuidadosamente.

O guarda se jogou contra ele e o mandou de volta contra o chão. O lagarto começou a rosnar, prestes a atacar. Uma mulher tentava acalmá-lo, balançando o sino em sua mão e sussurrando palavras reconfortantes.

Logo Jonas se encontrou debaixo do guarda, um joelho apertando seu peito e um braço contra sua garganta.

-Peguei! – O guarda gritou para os colegas que chegavam á área. Em seu peito, sobre a armadura de argila, não havia o punho fechado da União Hominae, mas o hexágono negro da Octavius. – Traz a corda que eu seguro ele.

-Eu não… – Jonas tentou falar com o pouco de ar que conseguia respirar.

-Todos te viram roubando a carteira. – O guarda respondeu.  – O chefe vai chegar e você vai balançar da for–

Ocupado com suas ameaças, o guarda não percebeu Jonas esticando o braço e tentando alcançar algo.

Havia pedras no chão, tijolos soltos, cacos de vidro e gravetos. Ao invés de usar qualquer um destes como arma, ele alcançou uma pata traseira do lagarto e lhe deu um soco.

Em resposta, o animal chicoteou o rabo na direção do golpe, atingiu o guarda no peito e o jogou no meio da multidão.

Assustado e furioso, o lagarto ergueu patas pesadas e começou a atacar, cortando o ar com suas garras e balançando seu rabo violentamente.

Pessoas começaram a gritar e a correr. Um dos guardas tentou ajudar seu colega ferido, os outros três mantiveram distância do animal e sacaram suas espadas, mas se recusaram a chegar perto do círculo de garras e golpes que a criatura formou ao seu redor.

Mesmo estando no centro daquele círculo, Jonas foi poupado da atenção do lagarto. Ele permaneceu completamente imóvel enquanto se fingia de morto, se tornando a menor ameaça daquela rua.

De onde estava ele procurou e identificou sua rota de fuga. Ele cerrou os dentes, fechou os olhos, cruzou os braços contra o peito e rolou por debaixo da besta furiosa.

Ele pôde sentir o chão vibrar sob passos reptilianos, patas escamosas atingindo seus arredores e ameaçando esmagar seu crânio. Ele não pensou no perigo, apenas no número de vezes que rolava.

Quando o número calculado chegou e não estava mais sob o lagarto, Jonas se jogou de pé, desviou de um golpe de causa que quase acertou sua cabeça e voltou a correr.

Os guardas o viram fugindo, mas seu caminho estava bloqueado por uma tonelada de fúria reptiliana. Eles só puderam observar enquanto Jonas desaparecia entre tumulto e multidão.

 

Jonas chegou ao esconderijo, ofegante e exausto, mas seguro.

Ele sentou no chão de um beco escuro e isolado, no centro de um labirinto de passagens iguais, onde as luzes da cidade tinham dificuldade em chegar. Aquele ponto foi escolhido como refúgio dias atrás, como precaução para quando seu plano inevitavelmente saísse de controle, um local acessível e ao mesmo tempo escondido.

-Lembre de treinar seus roubos de carteira depois, aquilo foi erro de principiante. – Ele sussurrou para si entre fôlegos. – E voltar a fazer corridas de manhã, seu físico está horrível.

Antes que seu coração pudesse desacelerar, Jonas retirou uma carteira de couro dentre seus trapos, o objetivo de todo aquele dia, e revirou os conteúdos: Dobrões de prata, cédulas marcadas com o símbolo da União Hominae, um cupom de desconto para um restaurante local, cartões de negócio do cassino Octavius, uma agenda de capa de couro recheada de lembretes com notas de papel coladas entre as páginas, fichas telefônicas e o mais importante: uma carteira de identidade.

-Observem: as primeiras peças para a destruição da Octavius. –Jonas falou enquanto esticava seu braço como um maestro de circo apresentando as próximas atrações, mas com cuidado para não levantar sua voz. – Ou uma perda de tempo. Pelo menos vou comer bem hoje a noite.

Jonas não tinha um plano certo para se livrar da Octavius, mas aqueles documentos podiam ser úteis enquanto planejava seu próximo passo.

Após um breve descanso ele se levantou e adentrou uma passagem escura, desaparecendo entre as sombras para se livrar daquela aparência. Levaram dias para preparar aquele disfarce, da reunião dos materiais ás horas se arrumando em frente ao espelho.
Com ferramentas escondidas no escuro ele começou a desfazer todos aqueles esforços. Com um líquido especial desfez a cola que prendia sua barba e cabeleira, com uma esponja áspera retirou a sujeira e maquiagem, e um conjunto de roupas esperavam por ele enquanto se despia dos trapos. Por último ele tirou as lentes de contato, substituindo o amarelo de seus olhos pelo cinza natural.
Quando saiu do escuro, Jonas havia voltado á sua aparência natural, ou o mais próximo que podia chegar dela sem seu uniforme azul. Todas as peças do disfarce estavam guardadas em um saco de lixo que foi prontamente jogado entre outras pilhas de entulho do beco. Foi enquanto Jonas limpava a poeira de sua camisa que percebeu o envelope no chão, no mesmo local em que estava sentado, minutos atrás.
Ele olhou para os lados, procurando pelo possível entregador do envelope, por algum espião da Octavius ou um atirador; apenas esperando que Jonas lesse a mensagem dramática no envelope para abrir um buraco em seu crânio. Não seria a primeira vez.
Não havia ninguém a vista, o que não era o bastante para acalmá-lo.

Com passos curtos ele se abaixou próximo do envelope, o pegou com a ponta dos dedos e o balançou delicadamente. Havia apenas o peso de papel. Finalmente ele criou coragem de abri-lo, achando apenas uma folha com uma mensagem escrita à mão.
As letras cor de rosa foram uma surpresa.
“Ei Jonas.” Dizia a carta em letras pequenas e amigáveis. Haviam marcas de rabiscado​s sobre o nome do capitão. “Eu te reconheci fugindo daqueles mafiosos agora a pouco. Eu queria falar com você, mas não queria estragar sua missão secreta, então deixei está carta aqui. “
-Eu… Agradeço pela educação? – Disse Jonas, surpreso com a direção que aquele dia havia levado.
“Eu ouvi suas histórias, a de quando pegou o capitão Baltazar, e a de como enfrentou todo o resto da Barracuda. É por isso que quero falar com você. Eu preciso de ajuda, têm pessoas perigosas chegando aqui e a cidade toda pode acabar destruída. Eu quero impedir essas pessoas, mas acho que vou precisar de sua ajuda”
“Eu não posso contar mais por que essa é uma mensagem secreta. Se acreditar em mim, por favor, venha para sua loja favorita na feira para conversamos essa tarde. Se não acreditar, por favor, venha falar comigo de todo o jeito para eu poder te convencer. Eu prometo te comprar uma laranja.”
     A expressão de confusão de Jonas desapareceu quando viu o nome da assinatura.
Staunen.

Staunen, um dos nomes mais temidos de todo o Círculo Delta. Staunen, o nome do maior lorde pirata da galáxia, fundador da Frota Negra e seu único líder a sobreviver. Staunen, o dilacerador de homens, aquele que tombou encouraçados com as próprias espadas, o terror do Éter.

Jonas achava improvável que o próprio senhor das lâminas escreveu aquela carta, mas quem quer que fosse o escritor, ele conseguiu reconhecer seu disfarce, encontrar seu esconderijo e deixar uma mensagem sem ser percebido.
Uma gota de água atingiu o papel em suas mãos. O céu acima começava a gotejar.
Mais uma vez ele olhou para os lados em busca de algum observador, não encontrando nenhum, para então rasgar a carta em pedaços e espalhá-los pelo beco.
Jonas guardou a carteira no bolso mais seguro de suas calças, limpou a poeira de suas roupas e saiu dos becos escuros​s para sumir mais uma vez entre a multidão.
*****

 

No grande vazio, um navio negro vigiava Nova Glória, cheio fome e paciência.

 

 

 

 

 

 

Através do Éter – Algumas Palavras

“Bom dia, Nova Glória. Nas notícias de hoje: Nosso prefeito finalmente enviou mecânicos para fazer manutenção dos armazéns e o Giroscópio; Faz cinco dias desde o incêndio da delegacia, e o culpado ainda não foi encontrado; o xerife Alexandre declara sua aposentadoria, mas insiste que a União Hominae já enviou substitutos adequados; E Helena Octavius recusa a comentar sobre o homem arremessado de seu cassino.”

-A Voz de Nova Glória

 

-Talvez eu nem devesse ter acordado. – Disse Eli Aros para o quarto vazio.

De braços cruzados em seu quarto no Açucareiro ele observava os cidadãos de Nova Glória, a multidão das ruas em mais um dia de trabalho. Ocupados demais para se preocuparem com eventos recentes.

Do outro lado da rua ele via uma carroça levando uma massa de areia e pedras, provavelmente vinda das minas próximas á cidade, puxada por um grande lagarto que por sua vez era guiado por uma mulher e seu sino.

A carroça passou por uma tenda, onde um homem de cabelos grisalhos fatiava e embalava peixes, provavelmente criados na lagoa do porto, e os entregava para a mulher do sino.

Ao lado da tenda um par de trabalhadoras carregava tábuas de madeira, vindas de árvores plantadas em uma estufa próxima, e as carregava para dentro de um caminhão.

Debaixo do caminhão havia uma criança abaixada, chamando a atenção de um pequeno lagarto que dormia debaixo do veículo, até que o roncar do motor sendo ligado fez com que os dois fugissem para longe do caminhão.

O lagarto, correndo sobre suas patas traseiras, passou por entre um grupo de mineiros, um dos quais derrubou o pote de sopa que levava para o trabalho.

-Verdade seja dita, eu sinto inveja de todos eles. – Eli disse. Seus dedos tamborilavam contra relógio de bolso em sua mão, fazendo uma batida tão rítmica quanto as engrenagens de bronze. – Não que eu goste de carregar madeira, mas eles têm algo com que se ocupar. Eu estou preso em meu próprio quarto, sem nada a fazer além de remoer preocupações. E sem um livro para ajudar.

Houve um ruído do canto. Ele olhou para trás, em direção ao gramofone que gravava todas as suas palavras. O antigo aparelho foi resgatado do porão e lhe entregue como distração pelos próximos dias, ou pelo menos até que a máquina empoeirada finalmente falhasse.

-Certo, eu não sei quanto tempo de gravação ainda tenho, então vou pular as divagações. – Eli pigarreou, e após decidir o tom de voz certo, voltou a falar. – Diário de Eli Aros, rolo número dois, dia vinte e quatro, quinto mês, ano duzentos e cinqüenta, calendário do Círculo Delta pós-invasão, décimo quarto dia em Nova Glória. Na gravação anterior descrevi minha chegada á cidade, de meu conflito com a gangue de Yaakov, passando por meu recrutamento ao Robalo, e terminando com nossa captura de um capitão pirata. Por favor, procure pelo rolo número um se precisar dos detalhes. Agora, vamos ao que aconteceu depois.

Ele parou, ordenando eventos em sua cabeça, misturando memórias e relatos, resumindo os últimos dias em uma história de cinco minutos.

-Bem, após as comemorações vieram as tarefas. Para construir uma nova tripulação nós precisávamos lidar com a burocracia local, ter documentos em ordem, orçamentos preparados, arranjar… – Ele parou ao perceber que estava contando os itens nos dedos, cruzou os braços de novo e voltou a falar. – Uma série de questões de organização. Como tesoureiro em uma tripulação de três eu tomei a responsabilidade de resolver tudo, especialmente a questão de nosso navio em ruínas. Os rumores me apontaram para um eremita debaixo da cidade, Jericó D’Damara um gênio da engenharia rúnica que oferecia seus serviços á cidade como caridade, capaz de manter uma câmara-de-giroscópio por conta própria. Eu e o capitão fomos atrás desta figura, e foi nesta parte em que tudo saiu de rumo.

Eli se virou e andou até estar de frente para o espelho, onde passou tantas horas se examinando nos últimos dias. Seu olhar pairou sobre a testa, para o pequeno galho que crescia de um lado, e então para o ramo que nascia do outro. Eli se imaginou com um par de chifres de madeira, como uma espécie de carneiro vegetal.

-Infelizmente não só a família Octavius estava atrás do capitão, como chantageou o ferreiro a trabalhar para ela. Durante nossa negociação ele nos atacou. Eu tive o azar de quebrar o joelho e parte do crânio, enquanto Jonas teve a grande sorte de ser eletrocutado e entregue para a maior família criminosa da galáxia. Jericó me largou em frente ao Açucareiro, onde fui entregue para o armazém de nossa tripulação, e então levado de volta para cá durante um ataque pirata.

Eli passou um dedo pelo novo ramo, considerando quanto tempo levaria até se acostumar com aquele novo pedaço de seu corpo.

-Passei três dias em um coma curativo enquanto me recuperava, e acordei neste quarto, onde Alice e Cecília me mantêm até terem certeza de minha saúde. Avisei á Cecília que já estava bem, e expliquei que a Madeira fechou todos os meus ferimentos e não havia mais perigo, mas ainda sim ela insistiu que eu passasse alguns dias sob observação. De alguma forma ela convenceu o capitão a ordenar que eu a obedecesse, como se eu fosse uma criança que precisasse da presença dos pais para se comportar.

Havia um sutil tom de verde em sua visão, como se uma camada de musgo crescesse sobre as lentes de seus óculos. Era preciso de atenção para perceber a mudança, mas era o bastante para lhe distrair, fazer com piscasse constantemente na esperança de limpar a vista.

-De todo o jeito concordei em permanecer aqui até perceberem que estou perfeitamente saudável. A vantagem de estar em uma taverna é o fácil acesso á comida, água e companhia. Mas os dias são terrivelmente entediantes, meus conhecidos estão ocupadas trabalhando e não há tarefa em que me focar. Foi uma benção dos ancestrais ter encontrado o gramofone.

Ele parou para examinar o reflexo de seus olhos, como havia feito tantas vezes desde que acordou. Seus olhos pareciam mais verdes que o normal, de um tom mais forte. Ele se lembrava de quando eram marrons.

-O capitão e minha colega Morvana me visitaram esta tarde, até trouxeram uma cesta de laranjas. Ele me perguntou constantemente se estava bem, ela atirou uma laranja na minha cabeça para testar meus reflexos. – Ele sorriu por um momento, um sorriso que desapareceu com o andar de suas memórias. – Durante o almoço me contaram o que aconteceu durante minha inconsciência. Os detalhes da captura do capitão até a “batalha” em Sub-Glória estão na minha gravação anterior, restam agora as conseqüências.

Ele puxou a manga do casaco e examinou o ferimento do seu braço. Onde antes era o buraco de uma bala, restava uma placa de madeira no lugar de carne e osso.

-Segundo o capitão, logo após eles capturarem o novo líder da Barracuda, eles amarraram todos os piratas túneis e os prenderam na câmara de Giroscópio, antes de voltarem para o nosso armazém na superfície. – Eli arrumou a manga de volta e retornou a cruzar os braços atrás das costas, revirando o relógio entre seus dedos. – Devo lembrar que acompanhando meus colegas estava Jericó D’Damara, o mesmo mecânico que procurei no começo deste desastre, e por acaso o mesmo que me atingiu com um martelo.

O ferimento em seu joelho não podia ser examinado no espelho, mas ele podia sentir as raízes e vinhas a cada passo que dava, substituindo músculos partidos e tendões perdidos. Mais uma rolha vegetal para os buracos em sua carne.

-O capitão voltou ao cassino por conta própria e deixou uma mensagem, explicando que conseguiu vencer o “jogo” contra os piratas e onde os deixou. Vamos deixar claro que ele não deixou uma carta ou bilhete, mas invadiu o salão principal e gritou sua mensagem á plenos pulmões para todos os clientes e funcionários. Ao invés de ser executado e jogado na lagoa, Jonas apenas foi defenestrado do edifício. A câmara estava vazia quando voltaram para lá. Uma sacola cheia de dobrões foi deixada na porta do armazém no dia seguinte, o bastante para acelerar o concerto do navio.

Em silêncio ele considerou o último mês de sua vida. Há pouco tempo quase foi morto por uma divida com a gangue de Yaakov. Foi pela intervenção de Jonas que conseguiu sobreviver, e foi por gratidão que se juntou ao Robalo. Poucas semanas haviam se passado e agora todos estavam á mercê do maior grupo criminoso da galáxia.

Memórias de uma frota emergiram. Uma dúzia de galeões transportando fortunas entre estrelas. Em seguida veio a memória da tempestade, de toneladas de destroços e duas décadas de trabalho arremessados pelo Éter.

-Desculpe, me distraí novamente. Alguns dias de ócio e minha concentração já está se estilhaçando. – Eli se virou para longe do espelho e se sentou na cama, dedos tamborilando contra os joelhos. – O plano do capitão é finalizar os concertos do navio e o recrutamento da tripulação, enquanto esperamos por novas ordens da Octavius. Não é certo quando e qual será este trabalho, ou se sequer vão entrar em contato de novo depois do incidente com Sergei, então resta apenas esperar enquanto o capitão planeja. Ele prometeu que arranjaria um jeito de não só livrar nos livrar da Família, mas livrar também toda Nova Glória. Isto é uma idéia insana, e não estou surpreso dela ter vindo de Jonas, mas… Bem, já o vi fazer idéias um pouco menos insanas funcionarem antes. Eu não sei se devo fugir daqui antes que ele destrua a lua inteira, ou se fico para ver o tamanho do fogo.

Ele se levantou de novo, sentindo suas pernas tão inquietas quanto sua mente.

-Crime organizado á parte, temos coisas o bastante para nos ocupar: Movna está reforçando o armazém contra futuras invasões, e também está trabalhando em um projeto para “construir a imagem do Robalo”. Não tenho certeza do que significa, mas envolve muitos panos; Jonas está contratando os tripulantes e serviços que arranjei alguns dias atrás; Eu por minha vez estou ocupado morrendo de tédio até Cecília me poupar; E Jericó D’Damara… – Eli parou e se dirigir á um jarro de água sobre a mesa, encheu um copo até quase transbordar e o bebeu em um único gole. Só voltou a falar quando tinha certeza que não iria encher a gravação com raiva e obscenidades. -… Jericó D’Damara recebeu o posto de mecânico oficial da tripulação. Lembrando mais uma vez que estamos falando do mesmo indivíduo que nos traiu para a Octavius.

Ele parou novamente para tomar outro copo.

-O capitão explicou todos os detalhes durante o almoço, sobre como o senhor Damara também é um inimigo da Família, foi essencial na luta contra os restantes da Barracuda e vai acelerar os reparos do navio sem exigir um grande salário. Eu até entendo, e se o que Jonas me diz dos Ferreiros da Caligrafia Imaculada é correto, então ter um deles cuidando de nosso equipamento é uma grande vantagem, mas… – Eli parou de falar mais uma vez, e foi frustrado ao ver que não sobrava mais água no jarro. –… Vou simplificar e dizer que, do ponto de vista racional, não consigo confiar nele, afinal ainda não sabemos com que crime a Octavius o subornou. Do ponto de vista irracional, quero vê-lo afundar no fundo do lago. Se não fosse nossa situação eu…

Um estrondo ensurdecedor quebrou seu raciocínio em pedaços, um som explosivo que cobriu toda a cidade.

Ele saltou para a janela, esperando ver encouraçados bombardeando a cidade. Bastou olhar para o céu para ver a tempestade se formando sobre o Porto-Lunar. Nuvens negras nasciam dos limites de Nova Glória e cresciam para seu centro, iluminadas pelas lâmpadas e Runas de Sol ao mesmo tempo em que cobriam todas as estrelas de vista. Apenas a linha tênue da Corrente 32 podia ser vista do céu.

Abaixo, os cidadãos de Nova Glória olhavam espantados para a tempestade: A mulher do sino; o vendedor de peixes; As trabalhadoras em seu caminhão cheio de tábuas; a criança e o pequeno lagarto que se escondia entre seus braços.

Todas as histórias de Nova Glória pararam diante á entrada do novo ator.

Eli, também, conseguia apenas encarar as nuvens. Um vento forte batia contra seu rosto, trazendo frio e o cheiro de eletricidade. As memórias o inundaram. Cada frustração e cada desastre se misturavam nas nuvens.

-O falcão não ouve mais o falcoeiro, as coisas caem em pedaços, o centro não consegue agüentar. – Eli recitou em voz alta enquanto encarava o céu agourento, parado á janela como uma gárgula vigilante no alto da muralha. – Já dizia algum autor ou outro da Espiral Sol. Um pouco dramático, mas cada vez mais apropriado. Tudo parece estar sempre se desmoronando, saindo de controle, constantemente se desfazendo em poeira. Você pode passar toda sua vida construindo algo, mas basta um pouco de azar e tudo é assoprado para longe. Você pode tentar reunir todas as peças e tentar reconstruir algo novo, apenas para outro desastre derrubar tudo de novo. – Eli Aros fechou os olhos, sentindo as primeiras gotas de água baterem contra sua testa, mas continuou a falar. -Há sempre uma tempestade esperando por mim, esperando que eu junte esperança o bastante para arruinar tudo. Eu posso me levantar, limpar meu casaco e continuar a trabalhar, tentar de novo, mas até que ponto? Quantas vezes devo passar por este ciclo sem fim até que não suporte mais? Quantos anos até que eu sucumba desespero e não sobre mais carne em meus ossos?

Eli continuou na janela por algum tempo, sem saber quanto, apenas ouvindo os trovões e murmúrios da multidão. Gradualmente as pessoas começaram a voltar aos seus negócios, tentando ignorar as luzes e sons que vinham de cima.

Seus dedos passaram pela superfície do relógio, sentindo o desenho gravado em sua superfície: A imagem de um punho segurando uma corrente. O emblema da família Aros.

Abaixo do punho, uma simples frase: Aros. Dever e disciplina.

Calmamente ele abriu os olhos, se virou de volta para o espelho e começou a se organizar: Vestiu as botas, ajeitou o casaco, colocou objetos de importância nos devidos bolsos, ajustou o pouco de cabelo que tinha, separou alguns dobrões, pôs seus óculos de reserva para então ler os documentos sobre sua mesa e guardar os relevantes. Quando achou que estava pronto, Eli refez o inventário de todos seus pertences por garantia.

A rotina trazia um pouco de paz e as tarefas monótonas lhe davam foco. Eli sentia seus pensamentos mais ágeis e seu corpo mais energético a medida que se preparava para mais um dia de trabalho. As preocupações ainda estavam ali, rugindo e ameaçando como a tempestade fora da janela, mas ele podia pelo menos ignorá-las enquanto tivesse o que fazer.

Por fim se dirigiu ao gramofone. O rolo tinha chegado ao fim, talvez durante seu discurso ou no momento de silêncio que se seguiu. Ele não se importou em verificar, apenas pegou o cilindro entre as mãos e a esmagou em pedaços. Ele preferia regravar tudo depois, quando estivesse menos distraído e propenso a monólogos desesperados.

Eli Aros abriu a porta e saiu para o Açucareiro. Em algum momento teria de explicar sua decisão para Cecília, mas este momento viria depois. Ele sentia que se não voltasse á trabalhar, á tentar concertar o que estava quebrado, acabaria perdendo a razão.

Pela janela, cinza se espalhava pelo céu.

Através do Éter – A Batalha de Sub-Glória

“O incêndio da delegacia foi apagado e até agora ninguém se feriu gravemente, mas pedimos aos nossos ouvintes que mantenham cautela. Não sabemos como o incêndio aconteceu ou se alguém o começou. Muito ainda pode acontecer esta noite.”

-A Voz De Nova Glória

 

 

Levaram quatro horas para Jericó terminar seu trabalho. Mais tempo do que esperava.

Um mecânico comum levaria dois dias para terminar aquele projeto, mas como um Ferreiro da Caligrafia Imaculada ele esperava mais de si mesmo.

Ele se encontrava ajoelhado em um túnel apertado, terminando de soldar uma parede de ferro-velho, formada com placas de metal avulsas e peças sobressalentes unidas em uma trincheira de metal. A barreira tinha um metro de altura, e seu topo alternava entre partes mais altas e espaços vazios, imitando as muralhas de um castelo.

Quando terminou de soldar, ele guardou o maçarico rúnico na sacola sobre seu ombro e retirou as ferramentas de entalhar. Levaram alguns minutos para gravar as Runas nas placas de metal, deixando símbolos mais imprecisos e menos poderosos do que gostaria, mas não havia tempo para seu perfeccionismo usual.

Sir Jericó guardou suas ferramentas na bolsa e examinou seu trabalho. Aquela barreira seria capaz de resistir aos tiros de pistolas e até rifles, mas ele se arrependia um pouco de não poder fazer mais, de aperfeiçoar o seu trabalho e fazer algo capaz de resistir ao tiro de um canhão.

Já tendo feito todas as modificações nos túneis que capitão Jonas lhe pediu, Jericó se deu ao luxo de analisar sua obra, desmontando e remontando-a em sua imaginação em busca da forma mais eficiente de fazer aquele trabalho.

Ele só percebeu o pirata quando sentiu o cano da pistola em sua nuca.

Sem a vantagem da surpresa ou uma arma em sua manga, ele apenas levantou suas mãos lentamente para o ar e deixou os Titãs acima tomarem conta do resto.

Houve o ruído do pirata mexendo em seu bolso, a estática de um rádio e então a uma voz irritada:

-Achei um deles. – Disse o pirata, tão exausto quanto irritado. O rádio chiou em resposta. – Não sei, ele está de máscara. Certo, vou conferir. – Seus passos ecoaram à medida que se afastava alguns metros. – Você, vire lentamente e tire a máscara, o Serg—

O pirata só percebeu que havia algo de errado quando foi estrangulado.

Jericó ouviu grunhidos de uma luta que durou pouco, e virou a cabeça cuidadosamente para trás. Ele viu Movna, um de seus braços apertado ao redor do pescoço do pirata, o outro segurando a mão armada dele para cima. O membro da Barracuda se agitou e esperneou por poucos minutos antes de perder a consciência.

-Fantástico. – Disse Jericó – Sua vinda não foi só pontual como tremendamente efetiva.

Movna se manteve completamente concentrada no pirata até ele perder a consciência, então o deixou cair no chão.

-Obrigada, mas ainda te odeio. – Ela falava enquanto retirava uma corda do cinto e começou a amarrar o homem desmaiado. – Como vai o trabalho?

-Barreiras construídas, sistemas de Runas sabotados e armadilhas fabricadas. Todas as engrenagens foram encaixadas adequadamente.

-Certo. – Ela tomou as armas e munição do pirata para si, guardando-as em um saco em seu cinto. – Minha parte está pronta, agora vamos voltar para o capitão.

Em instantes os dois andavam apressadamente por Sub-Glória, Movna na frente com seus ouvidos atentos a qualquer outra patrulha. Jericó a acompanhava com dificuldade.

-Há uma curiosidade me atormenta… – Ele começou a falar.

-Ótimo. – Movna comentou. – Ela está fazendo bem.

-Reconheço pela lua tatuada em seu rosto que você é uma Etérita. As tribos Etéritas proíbem sujar o corpo com violência, então é curiosa a forma como você…

-Agnae. – Ela interrompeu, sem se virar para trás. – Fique claro: Nasci Etérita, mas sou uma Agnae Mavrata.  O que as tribos Etéritas acreditam não vale mais nada.

-Hm. – Jericó ficou quieto. Sua respiração ofegante foi o único som que fez por alguns minutos. – É cedo de se dizer, mas compreendo sua situação.

-Como?

-Eu também nasci em um ângulo errado do universo. – Ele respondeu. – Me chamo Sir por que comecei como um cavaleiro, destinado a vagar pelo Grande Vazio armado com justiça e metal, mas abandonei minha vocação pela vida no Templo das Formas, como um Ferreiro, para vagar pelo Grande Vazio armado com sabedoria e metal de melhor qualidade.

-Não é mais cavaleiro, mas ainda é “sir”?

-Uma lembrança. Um hábito. Um parasita do qual nunca consegui me livrar. – Jericó D’Damara continuou a divagar. – Você ainda mantém a tatuagem da solitária lua crescente, então talvez tenha motivos semelhantes.

-Certo, e por que abandonou os cavaleiros? – Ela perguntou, sem se virar ou diminuir a velocidade.

-Meus motivos são muitos, cada um mais longo que o anterior. – Ele explicou.

-Conte o mais curto.

-Os cavaleiros me entediaram.

Eles seguiram em silêncio por alguns túneis, passando por canos sabotados e piratas amarrados.

-Jericó, eu ainda te odeio… – Ela começou.

-Compreensível.

-Mas se não morrermos hoje, quero ouvir as outras versões da história.

-Um bom prospecto.

Os dois continuaram a andar, e em pouco tempo chegaram ao ponto de encontro.

Era uma alta câmara redonda, uma encruzilhada de múltiplas passagens, e no centro dela estava capitão Jonas, estudando e planejando, se preparando para a batalha que viria.

Em suas mãos havia um velho mapa de todos os túneis conectados aquele ponto, marcado com setas e anotações, que ele estudava com total atenção, sem reagir á chegada de seus aliados.

Sob sua bota havia um caixote de todos os suprimentos que conseguiram reunir: Ferramentas sobressalentes, kits de primeiros socorros, pistolas, tubos de munição, placas cobertas de Runas de Ferro, fita adesiva, tiras de borracha, cordas e uma injeção de Essência de Enguia que o Ferreiro tinha para emergências médicas. Tudo de alguma forma parte do plano.

Jericó não conseguia evitar comparar Jonas com uma aranha: No centro de sua teia, tramando, apenas esperando uma vítima entrar em seu domínio.

-Trabalho pronto. – Movna gritou assim que viu seu capitão. – Jericó construiu a parte dele, e eu fiquei espreitando e capturando os piratas que chegaram perto daqui.

-Hm. – Jonas começou a pensar, sem parar de olhar para o mapa. – E como a Barracuda reagiu?

-Estão patrulhando em grupos maiores e juntando nessa área. – Ela respondeu enquanto retirava as armas e munições de seu cinto para despejá-los no caixote. – Acho que peguei uns quinze de surpresa.

-Começamos bem. – Jonas disse, abaixando o mapa, mas ainda mantendo o olhar fixo nos túneis á frente, como se pudesse ver através de suas paredes. – Diminuímos os números deles, pegamos alguns de seus recursos, acham que estamos nos escondendo aqui e agora Vão vir em maior número. Perfeito.

-Senhor Capitão, por que está feliz em se tornar alvo de tantos inimigos? – Perguntou Jericó.

-Por que se sobrevivermos e vencer, eu não quero o resto da Barracuda se reorganizando e vindo atrás da gente de novo. – Jonas explicou. – Eles têm de perder gente o bastante para não conseguirem se reformar. E também temos de capturar o líder, então me passe o rádio.

Jericó vasculhou sua bolsa até encontrar um comunicador de rádio e o jogou para Jonas, que mexeu brevemente em seus botões até achar a freqüência certa. O rádio chiou com estática e produziu uma voz.

-Encontraram alguma coisa? – Disse alguém que Jericó não reconhecia.

-Oi Sergei, você não vai acreditar no que encontrei: a freqüência do seu rádio.

-Jonas. – Sergei disse em um tom seco. – Como…

-O número estava no arquivo que a Madame deu. – Jonas tinha um grande sorriso e uma expressão condescendente no rosto, como se estivesse falando de frente com o capitão pirata. – Você devia dar uma olhada nele, é muito útil, mas faz você parecer um tanto previsível.

-Hilário. – Respondeu Sergei. – Você vem zombar de mim no momento em que minhas patrulhas descobriram seu esconderijo. É tanto desespero que eu quase penso em te deixar desistir.

-Você quase me pegou, eu admito. Tem mais peças no seu lado do tabuleiro, me tirou de minha casa e seus homens me cercaram, mas tem duas coisas que acabei de achar que fazem deste dia uma vitória.

-O que são estas coisas milagrosas? Um exército inteiro? O braço perdido de Lorde Staunen?

-Quase. – Capitão Jonas respondeu. – A primeira coisa é uma saída daqui. Você sabia que tem contrabandistas em Sub-Glória? Custou uma fortuna, mas eles concordaram em me levar para fora da lua em meia hora.

-Quer que eu acredite que por acaso tinha uma fortuna nos bolsos para pagar estes contrabandistas?

-O que nos leva a segunda coisa que eu encontrei: a espada de Baltazar Terceiro. O seu chefe. Lembra?

Por um longo minuto não houve resposta, mas ainda podia-se ouvir respiração pelo rádio.

-Você está mentindo. – Veio a acusação pelo rádio.

-Espere um momento. – Jonas tirou a espada do cinto e a admirou. – A espada é um sabre pirata clássico, uma das várias distribuídas entre os lordes piratas da Frota Negra. A bainha e o cabo são pretos, mas tem detalhes de ouro gravados por ele, a maior parte tem o formato de ondas, barracudas e a lula caolha. – Com o dedão, Jonas empurrou parte da lâmina para fora da bainha, deslizando com um ruído metálico que chegou ao rádio. – A espada é feita de metal comum, e as Runas de Ferro estão cheias de jade preta. Tem uma assinatura dourada no pomo que diz “Para Baltazar Tol, o carrasco da Corrente 32”. – Ele guardou a espada de volta. – Os contrabandistas aqui ficaram impressionados, mas não sei se vão usar de decoração ou só desmontá-la e ficar com o ouro.

Houve outro minuto sem resposta.

-Filho de uma pistola. – Veio a resposta de Sergei. – Esqueça a possibilidade de desistir, eu vou te degolar pessoalmente e pendurar seu corpo na proa da Barracuda.

-Se me alcançar. – Disse Jonas antes de desligar o rádio e se virar para Movna. – Agora ele definitivamente vai vir para cá.

-Certeza? – Ela perguntou. – Foi ótimo ver Sergei raivoso, mas ele vai vir mesmo?

-Lembra dos arquivos que a Octavius me deu? Eles tinham um perfil psicológico de Sergei. Ele é obcecado com status, honra, a história da família Baltazar e o melhor de tudo: Ele se ofende facilmente. Com o limite de tempo que demos, ele nem vai pensar antes de correr até aqui.

-Qual é nosso próximo passo nesta missão, senhor capitão? – Perguntou Jericó, impressionado.

-Agora nós lutamos com quarenta piratas.

 

*****

 

Os gritos e trovões ecoaram por Sub-Glória, mais cedo do que esperado.

-Quanto tempo falta? – Jonas perguntou sem olhar para trás, ocupado encarando a longa passagem á frente, seu pé esquerdo apoiado sobre uma barreira de metal e seus braços cruzados atrás das costas.

Da distância vinham os sons de inimigos se aproximando, primeiro tentando andar em silêncio para uma emboscada, mas desistindo no momento em que caíram na primeira armadilha.

-Mantenha calma. Pressa é a nêmese do bom Ferreiro. – Jericó respondeu, sentado ao lado e escondido atrás da trincheira improvisada. Ele entalhava Runas de Tempestade e Ferro em um par de pedaços de cano. – Mas eu sou um ótimo Ferreiro, e velocidade é um luxo que posso me dar.

-Só diga se acabou meu presente. – Disse Movna, sentada do outro lado de Jonas, batendo seu pé no chão para que todos soubessem que estava impaciente.

-Que estas imitações de armas tragam a dor e salvação de uma arma verdadeira. – Jericó anunciou e entregou dois bastões para ela.

As armas eram eletrificadas, com minúsculos relâmpagos surgindo de sua superfície. Movna segurou os canos por cabos de borracha presos por fita adesiva, os girou pelo ar para testar seu peso, e os guardou em coldres improvisados de borracha e cola.

Houve o estrondo de uma explosão, seguido de gritos. Os sons eram mais próximos, mas o túnel a frente continuava vazio.

-Chequem suas armas, munição, placas e óculos. – Jonas ordenou. Havia um medo misturado com determinação em suas palavras, como um homem de frente á uma grande onda da qual se recusava a fugir.

Movna e Jonas checaram suas pistolas, os tubos de munição em suas sacolas e ajeitaram seus óculos de proteção. Jericó não precisava de óculos graças ás lentes de sua máscara, ele apenas ergueu um bastão entalhado com Runas de Sol. Suas mãos tremiam.

-Armas para baixo. – Disse capitão Jonas. – Só apontem quando tiverem certeza que querem destruir algo.

-Só avisando, eu atiro feito um viajante bêbado. – Disse Movna.

-Apenas atire tanto quanto puder. – Jonas explicou. – Atire até acabar a munição. Recarregue. Atire de novo.

Houve outro trovão, ainda mais próximo, seguido pelo som de uma grande massa de água caindo. Não houve gritos.

Jericó sentia seu coração batendo intensamente, suas luvas encharcadas de suor, seus pulmões enfraquecendo e tornando cada fôlego um esforço. Ele odiava momentos como aquele, cheios de expectativa e tensão e nada que ele podia fazer para solucionar o problema, onde a única opção era esperar e sofrer.

Ele tentou imaginar todos os seus arredores no formato de um tabuleiro, transformando o ambiente caótico em mais um quebra-cabeça. Aqueles túneis eram familiares e não era preciso um mapa para Sir Jericó visualizar seus caminhos complexos.

Seu tabuleiro imaginário consistia dos túneis mais próximos, uma grande teia complexa de passagens. Em uma destas estavam peças de metal representando os três, logo atrás de uma barreira de metal. Dos cantos do tabuleiro vinham peças de madeira representando os membros da Barracuda. As peças dos piratas avançaram pelas passagens, procurando chegar á peça de Jonas pelo caminho mais curto e inevitavelmente caindo nas armadilhas.

Sob as instruções de capitão Jonas, Jericó alterou e sabotou os mecanismos de múltiplas salas para transformá-las em grandes ratoeiras: Salas inteiras consumidas por tempestades elétricas, corredores foram ocupados por incêndios intermináveis e passagens bloqueadas por paredes de gelo.

Mais trovões e explosões aconteceram na distância, mas não o distraíram de seu tabuleiro imaginário.

Algumas peças dos piratas foram perdidas quando encontraram os obstáculos e seu grupo começou a se dividir, procurando por caminhos seguros. Elas encontrariam caminhos curtos bloqueados por mais daquelas armadilhas; passagens abertas e seguras; atalhos que levariam por longos caminhos, mas que terminavam no mesmo ponto, e armadilhas propositalmente defeituosas por onde poderiam passar.

Independente da rota que seguiam, todos os grupos de peças eram direcionadas para o mesmo corredor a frente de Jonas.

-É como uma aranha manipulando uma teia de engrenagens. – Jericó falou. – Uma aranha de chapéu.

-O que? – Jonas disse, se virando para trás pela primeira vez em horas. – Jericó, você está confundindo pensamento com fala de…

Ele parou de falar quando ouviu os piratas chegando.

Um grupo de cinco, andando com armas em mãos e verificando seus arredores cuidadosamente, com medo de ativar outra armadilha.

-Fogo! – Jonas gritou e se ajoelhou atrás da trincheira, mirando sua arma. Os piratas o viram e correram de volta para a passagem da qual vieram.

Jonas fez um sinal para Movna não atirar, e esperou.

Um pirata se arriscou a sair de sua cobertura e atirou algumas vezes antes de voltar. As balas bateram e ricochetearam contra a barreira, mas esta sequer vibrou com o impacto.

Outro pirata, armado com um rifle, começou a mirar, procurando algum membro ou cabeça exposta.

-Jericó, luz. – Jonas gritou.

Sir Jericó D’Damara ergueu a vara para o alto, se focou Runas de Sol e elas responderam com fogo e luz.

Chamas se espalharam pelo objeto como se consumissem uma folha seca, começando com um leve brilhar que cresceu, formando uma intensa luz branca que tomou todo o túnel. Os piratas não conseguiram mais mirar, incapazes de encarar em direção á trincheira sem que seus olhos ardessem, apenas continuaram a atirar para qualquer direção esperando acertar alguém.

Jonas, Movna e Jericó continuaram a enxergar perfeitamente através de suas lentes de proteção, mas nenhum deles atirou de volta.

A batalha se tornou um impasse. Piratas cegos atirando a esmo de um lado do túnel, três pessoas escondidas atrás de paredes metálicas do outro lado, e um corredor cheio de luz e tiros entre os grupos.

Entre os assovios das armas, Jericó ouviu mais passos de fora do corredor, mais piratas chegando e se juntando ao primeiro grupo. Eles pararam de atirar e o túnel foi tomado por silêncio e expectativa.

-Vem cá, eu estou te esperando. – Jonas sussurrou.

Três minutos se passaram quietamente. Jericó sentia seu corpo queimando com a tensão.

Um novo grupo surgiu na passagem, sete piratas armados com rifles e protegidos por armaduras de argila.

Um deles tinha uma granada. Ele a ativou e jogou em direção aos três.

-Bomba! – Jonas gritou ao ver o objeto voar em um arco pelo ar para trás da trincheira.

A esfera de metal transparente atingiu o chão, quicou algumas vezes e começou a tremer, a brilhar e se estilhaçar.

Jericó não processou a mensagem a tempo, só entendendo quando Movna se levantou e o puxou para fora dali.

Os três fugiram pelo túnel.

Os sete piratas miraram seus rifles.

A granada se partiu.

Uma grande explosão tomou conta do corredor, formada do frio e vento de uma nevasca, consumindo todo o calor que encontrava, congelando qualquer coisa ao alcance. A barreira metálica que antes havia suportado um tiroteio foi arrancada do chão e partida em pedaços.

Movna e Jonas estavam distantes o bastante da explosão para só sentirem uma forte onda de ar gélido.

Jericó não teve a mesma sorte. Ainda começando a correr enquanto puxado pela gola, a explosão lhe atingiu pelas costas.

Uma camada espessa de gelo se formou em suas costas, mas não chegaram ao seu corpo. Suas roupas de Ferreiro, feitas para agüentar os perigos das Runas e grandes máquinas, salvaram sua vida.

Mas uma bota foi imediatamente congelada ao solo e o impacto o derrubou. Ele se chocou contra o chão, deslocou o pé e perdeu a vara rúnica. A grande luz branca desapareceu.

A explosão acabou. Uma nuvem de poeira e vapor frio era o que restou dela. Os sete piratas logo iriam vê-lo claramente, sem nenhuma luz ofuscante ou barreira de ferro para protegê-lo de seus tiros. A mente de Jericó foi paralisada por todo o caos, dor e certeza de que iria morrer.

Ele ainda estava se movendo, de alguma forma, mesmo sem mexer seus braços ou pernas. O pouco de razão que tinha entendeu que Movna ainda estava lhe puxando pelo casaco, deixando a bota congelada para trás, mas não era rápido o bastante para lhe tirar do alcance dos rifles a tempo.

Jonas se pôs entre Jericó e os piratas. A nuvem deixada pela explosão se dissipou. Rifles e pistolas foram disparados.

Jericó não viu o que aconteceu em seguida, apenas o teto do túnel se movendo enquanto era arrastado para longe. O ar estava cheio com o som agudo de tiros e gritos de dor estridentes.

Ele se sentiu sendo puxado por uma curva, entrando em outro túnel, e se lembrou da segunda trincheira que havia preparado para uma inevitável recuada. O tabuleiro dos túneis voltou á sua mente, um novo farol no meio da tempestade de sua mente.

Ele reorganizou as peças imaginárias, mudando a posição dele e Movna e tirando a peça de capitão Jonas do tabuleiro, voltando a compreender o ambiente ao redor. Ele se levantou e se arrastou para trás da segunda barreira enquanto Movna pulava por cima dela.

Para sua surpresa Jonas se juntou a eles logo em seguida.

-Senhor capitão, como conseguiu… – Jericó começou a perguntar. Jonas apenas olhou para ele, sorriu e bateu contra o peito, fazendo um som metálico debaixo de seu casaco e indicando as placas de metal escondidas: as mesmas que o Ferreiro passou horas fazendo com Runas e culpa.

As placas salvaram Jonas de ser morto, mas ele não saiu ileso: Em seu rosto e testa havia ferimentos de raspão, sangue escorria de seu braço e ainda mais de seu joelho, onde foi atingido por duas balas.

-Passe a injeção de Enguia. – Jonas ordenou, com palavras rápidas e firmes. – Movna, cobertura.

Movna imediatamente se levantou por cima da trincheira e começou a atirar o máximo que podia. Seus tiros tinham a precisão e mira de um tijolo em queda, mas tinham a fúria necessária para manter inimigos afastados daquele túnel.

Jericó vasculhou sua sacola, que por sorte ainda estava em seu ombro, e dela tirou uma injeção de Essência de Enguia. Ele a injetou no braço ferido de Jonas.

A substância não substituiria a devida atenção de um médico real, mas era o bastante para impedir que alguém sangrasse até a morte.

Movna parou de atirar quando não havia mais munição em sua pistola, e se escondeu atrás da proteção da trincheira. Ela e Jonas começaram a recarregar suas pistolas, enquanto Sir Jericó procurava uma segunda vara rúnica em sua sacola.

Os membros da Barracuda aproveitaram o momento e avançaram para dentro do túnel.

Cinco piratas com espadas e pistolas em mãos, seus torsos cobertos por armaduras de argila e seus olhos por óculos de proteção vermelho-sangue.

Aqueles com espadas viram a trincheira e correram para ela com toda a velocidade que podiam, gritando furiosamente com bocas abertas e dentes á mostra. Antes que qualquer arma fosse recarregada eles já chegaram á trincheira, levantando suas armas para o ataque.

Movna estava preparada para eles. Ela largou a pistola e sacou os bastões marcados de Runas. As armas se cobriram de eletricidade ao seu toque.

O inimigo mais próximo avançou com a espada. Em três movimentos Movna quebrou seu punho, o derrubou e o nocauteou. A força e velocidade de cada golpe eram o bastante para vencer aquela luta, mas a eletricidade tornava a tarefa mais rápida.

Ela imediatamente mudou sua atenção para outro atacante, bloqueando um golpe de espada. Um terceiro pirata se juntou ao segundo, ambos a flanquearam e começaram a golpear freneticamente, fincando e cortando.

Ela bloqueou cada golpe e cada espadada com suas próprias armas. O ar se encheu com rastros de eletricidade e fumaça prateada enquanto espadas se chocavam com bastões.

Houve um impasse. Mesmo cercada e em menor número, Movna era rápida o bastante para se defender de seus inimigos, mas não conseguia a oportunidade de contra-atacar.

Os outros dois piratas avançaram contra Jerico, que estava desarmado e mal conseguia se manter de pé. Ele não tinha uma pistola, e não saberia usar uma mesmo se tivesse. E não era um soldado nem um guerreiro, e não poderia se defender como um.

Ele apontou a vara para frente e se defendeu como um Ferreiro.

Através de suas luvas Sir Jericó forçou as Runas de Sol com sua força de vontade. Não com sua sutileza comum, de como se esculpisse uma estátua, mas com a força e impulso de alguém martelando a estátua em pedaços.

Chamas explodiram da vara em um soco de fogo e luz que atingiu os dois piratas, os afastando para trás, queimando suas roupas e seus cabelos. Um rolou pelo chão para apagar as chamas, o outro arrancou seu casaco e o jogou para longe.

A vara parou de funcionar, com sua superfície derretendo e deformando seus símbolos. A luva de Jericó o protegeu do calor, mas agora ele estava sem Runas e sem arma.

Tiros acertaram as pernas de um pirata, então o joelho do outro. Ambos caíram.

Jericó viu Jonas com a pistola em mãos, suas feridas fechadas e de volta a luta.

Movna aproveitou o momento de distração e nocauteou os dois com quem lutava, com pancadas eletrificadas em cabeça e pescoço. Ela jogou seus bastões para longe, danificados demais para serem úteis em outra luta, se ajoelhou ao lado do capitão e os dois apontaram suas armas para o corredor, esperando pelo próximo á tentar entrar por ele.

-Eu vi Sergei. – Jonas falou aproveitando o intervalo na violência. – No meu fuzilamento, eu vi o chapéu dele no meio da multidão. Eu só ele vir até nós e podemos acabar com isso.

-Ele pode não aparecer. – Disse Movna.

-Então vamos atraí-lo. – Jonas respondeu.

Houve um movimento para dentro do corredor. Os tripulantes do Robalo lançaram uma chuva de disparos naquela direção. Mas não havia pessoa para ser atingida, apenas uma mão segurando um casaco agora cheio de buracos.

A mão recuou para fora da esquina, e voltou segurando uma granada. A bomba foi arremessada antes que qualquer um tivesse a oportunidade de mirar nela. Ela caiu atrás da barreira, vibrando violentamente.

Desta vez Jericó soube correr junto de seus dois companheiros, sofrendo a dor de seu pé ferido enquanto fugia. Ele tentou não pensar nos piratas desmaiados perto da trincheira quando a granada explodiu em uma esfera infernal.

Uma onda de calor e luz passou pelos três enquanto fugiam. No momento em que o fogo se abaixou, duas dúzias de membros da Barracuda vieram os perseguindo, atirando e gritando com suas espadas erguidas.

Jericó D’Damara seguiu seus aliados por uma série de curvas bruscas, quebrando a linha de tiro de seus inimigos até eles, seguindo o plano de Jonas.

No final do caminho eles chegaram á uma sala retangular e sem saída, cortada ao meio por duas trincheiras de peças soldadas com uma abertura entre elas. No fundo da câmara haviam enormes tanques. Que armazenavam água para os habitantes da cidade acima.

Os três buscaram cobertura atrás da barreira. Eles podiam ouvir a Barracuda se aproximando.

– Sergei, onde você está? – Capitão Jonas sussurrou enquanto recarregava a arma. – Jericó, ainda tem seu martelo?

-Preso ao meu cinto que está preso a mim. – Ele respondeu.

-Deixe á mão. Daqui a pouco vou dar o sinal e você faz a última parte do plano. – Jonas engatilhou a pistola e assumiu posição de tiro. – Essa é nossa última parada. Temos de manter esta posição até Sergei aparecer, sem mais retiradas ou fugas, ouviram?

-E as granadas? – Perguntou Movna.

-Você atira, eu cuido das bombas. – Respondeu Jonas. Ele ouviu os piratas se reunindo na última curva antes da câmara, se reunindo para outro avanço, então retirou seu sabre com um corte audível no ar e começou a gritar. – Oi, Sergei, eu tenho sua espada bem aqui. Você vai ter de vir buscá-la, por que não vai ser um dos seus capangas que vai pegá-la.

Ele fez um sinal e Movna atirou para frente, bloqueando a única passagem que a Barracuda tinha até eles, até que as balas acabaram e ela parou para recarregar.

Neste intervalo uma terceira granada foi arremessada, um minúsculo cometa de luz branca atravessando a câmara.

Jonas ajustou sua mira e a atingiu no meio do ar.

A esfera se partiu em uma nuvem de neblina branca e gélida. Todos os três sentiram a onda de frio chegando até eles, assoprando seus cabelos, beliscando sua pele e embaçando seus óculos, mas ninguém se feriu. Movna terminou de encaixar o tubo de munição e voltou a atirar.

-É só isso? É por isso que a Octavius desistiu de vocês. – Jonas gritou por cima dos assovios da pistola. – Antes mesmo de eu humilhar seu capitão vocês eram inúteis.  Essa espada é a única coisa da Barracuda que vale alguma coisa.

Outra pausa no tiroteio e mais uma granada veio. Jonas mirou de novo e a atingiu, criando uma explosão de chamas acima de sua cabeça.

-Baltazar Primeiro lutou ao lado de Lorde Staunen? – Capitão Jonas continuou. – Bem, o terceiro se tornou um bêbado em uma lua esquecida que precisa de favores da Octavius. Como é que se estraga sua dinastia desse jeito em três gerações?

Mais uma pausa para recarregar. Mais uma granada branca veio da sala. Jonas atirou nela e causou mais uma explosão de frio por cima de sua cabeça, e Jericó não deixou de perceber o grande sorriso nos lábios do capitão.

-Ou Baltazar Terceiro era muito incompetente, ou a família nunca valeu nada. – Jonas começou a falar antes da neblina se dissipar, e mal pôde reagir quando outro explosivo surgiu de dentro da fumaça.

Ele virou sua arma de um ponto ao outro enquanto tentou atingir a granada. Ele errou cada bala e a esfera metálica caiu aos seus pés.

O objeto vibrou intensamente, uma miniatura de tempestade trovejava e relampejava em seu interior, preparando para explodir e consumir seus arredores em eletricidade e vento. Os três não tinham para onde fugir ou como se protegerem.

Jericó pegou a granada em suas mãos, e a encarou.

Suas luvas o protegeram da eletricidade enquanto espremia a esfera para impedir que ela se partisse. Mas era sua mente que realmente sofreu enquanto suprimia as Runas do explosivo, sendo atingida por inúmeras impressões e sensações alienígenas: O galopar de um cavalo, o cheiro de ozônio, o vento frio, as luzes das estrelas e a escuridão do grande vazio.

Sua visão se tornou turva como no centro de uma neblina e sua cabeça queimou com dor latejante. Toda a sua concentração e vontade eram como uma casa de tijolos sendo atingida por um furacão, partindo sua estrutura em pedaços e os jogando ao vento.

Aquilo era demais até mesmo para um especialista em runas.

Jericó, porém, era um Ferreiro da Caligrafia Imaculada.

As imagens e sensações caóticas foram substituídas por uma voz calma e firme: “Como sua caligrafia traz força ao metal, eu busco força na forja; Como o bater do martelo dá forma e o cinzel escreve suas Runas, eu busco ordem em sua arte. Mais uma vez, me construo um servo digno.

A casa de tijolos foi reforçada com ferro. Placas cobriram cada centímetro de suas paredes, parafusos e rebites prenderam todas as peças, vigas deram estrutura ao edifício, metal transparente substitui o fraco vidro e runas reluzentes deram o poder de titãs para a construção. Nem furacões e nem relâmpagos conseguiam mais afetar a casa.

A granada parou, toda a sua energia explosiva se tornou um minúsculo, mas intenso ponto de luz.

Apenas um segundo havia se passado desde que Jericó pegou a granada. Jonas o encarava espantado, momentaneamente esquecendo a batalha ao redor.

-Como você… – Jonas começou, quando piratas surgiram em uma investida frenética.

Todos os que restavam da Barracuda atravessaram começaram a surgir por aquela pequena passagem como um veneno viscoso derramado de sua garrafa, gritando e erguendo armas com toda fúria e energia que ainda tinham.

Movna continuou a atirar, esvaziando sua pistola com disparos erráticos, mas não conseguiu atrasar o avanço deles.

-Jericó, martelo. – Jonas gritou, largou suas armas, agarrou a granada e a jogou para trás.

A bomba se tornou instável no momento em que deixou as mãos do Ferreiro, brilhando e se deformando enquanto atravessava o ar em direção aos tanques de armazém.

Houve uma explosão de eletricidade e ventos. Canos se partiram em pedaços, tanques se abriram ao meio e uma enchente se derramou sobre a câmara.

A massa violenta de água cortou a sala pela metade, atravessando o buraco no centro da trincheira e atingindo o grupo de piratas que avançava.

Toda a fúria deles desapareceu quando foram golpeados pelo rio recém formado. Muitos caíram e foram arrastados pela força da corrente, alguns conseguiram firmar seus pés contra o chão e se manter de pé, enquanto um deles continuou a avançar em passos lentos.

Jericó escapou da massa de água, mas sua mente arriscava ser afogada no caos mais uma vez. Havia, porém, uma linha de pensamentos que usou como âncora para se controlar: a armadilha contra a Barracuda foi posta em prática, e era seu dever continuar o plano.

Ele mancou mais próximo da corrente e retirou seu martelo, marcado por Runas de Tempestade e coberta por um manto de eletricidade.

O Ferreiro ergueu seu martelo, o mergulhou na água e eletrificou seus inimigos.

Uma brilhante teia de raios surgiu da ferramenta, que cruzou a corrente e instantaneamente atingiu cada um dentro dela.

Dezenas de piratas foram tomados por choque e dor, tanto em mente quanto corpo. Alguns tentaram gritar e começaram a se afogar. Todos perderam controle de seus músculos, e os que haviam se mantido de pé foram levados pela correnteza.

A teia se manteve por mais alguns segundos, suas linhas brilhantes serpenteando á medida que seus alvos mudavam de posição, até que Sir Jericó d’Damara recolheu seu martelo.

A corrente durou mais um pouco até não haver mais água nos tanques. Sobraram apenas poças de água, o pingar de gotas e corpos inconscientes no chão.

Comparada com suprimir a granada, dar força á tempestade e guiar seus raios pela água a mais simples das tarefas.

Teria sido ainda mais simples matar todos. Um pouco de força de vontade bruta seria o bastante para queimar carne e destruir neurônios. Mas capitão Jonas havia insistido que o plano deveria ser não-letal, tentando poupar tantas pessoas quanto possível.

Foi um trabalho maior refinar as energias da runa para apenas nocautear seus inimigos, mas não era pouco se comparado á curiosidade do Ferreiro.

-O que a aranha está planejando? – Jericó falou exausto enquanto guardava o martelo de volta na sacola. – Sua teia tem curvas estranhas que alcançam longe.

-Confundiu as vozes de novo. – Jonas falou do outro lado da trincheira, onde havia saltado para escapar da enchente. Movna o ajudava a se levantar. – Essa devia ficar dentro da sua cabeça.

-Mais uma lição a aprender. – Jericó respondeu. – Agora que vencemos a batalha, para onde seu plano nos leva?

-Vamos ter certeza de que vencemos. – Jonas ajeitou seu casaco, retirou seus óculos de proteção e vasculhou a câmara com o olhar. –Vamos cuidar de nossas feridas, depois checamos quanta gente da Barracuda sobreviveu e quantos conseguiram fugir, então amarramos os inconscientes. E ainda temos de encontrar…

Sergei surgiu de detrás da trincheira e agarrou Jonas.

Metade de seu corpo estava encharcada e seu chapéu pendurava de sua orelha por um fio, mas ele havia escapado ileso da enchente e da armadilha elétrica.

Com uma mão ele segurou a cabeça de Jonas para trás, e com a outra encostava uma faca contra sua garganta.

Movna entrou em posição de luta, mas ficou paralisada ao ver a posição arriscada em que seu capitão estava.

-Larguem tudo que tiverem, ou vou pintar as paredes de vermelho. – Sergei grunhiu através de dentes cerrados. Seus olhos estavam vermelhos com veias inchadas de sangue e raiva. Ele deslizou a faca ligeiramente, deixando uma gota de sangue escorrer pela lâmina. Em resposta Movna deixou sua pistola cair e levantou as mãos para cima. – Não, eu disse tudo. Sem armas escondidas. Sem martelos. Sem runas.

Jericó deixou cair sua sacola de ferramentas enquanto Movna recolhia suas facas.

-Sergei, por favor. – Jonas disse em tom de deboche. Ele parecia completamente calmo, mesmo que um pouco desconfortável com a posição de sua cabeça. –Sua tripulação inteira foi derrotada por só três pessoas. É melhor desistir antes de ver o que meus dois colegas fariam com você.

-Você está pedindo para ser degolado? – Sergei ameaçou.

-Talvez eu esteja.

-Lembre-se de qual é o uso de um refém. Nenhum de vocês irá ousar fazer nada contra mim enquanto tiver minha arma em seu pescoço.

-Você vai me matar de qualquer jeito. – Jonas reclamou. – Podemos acelerar isso e pular para a parte onde você apanha?

-Errado. – Sergei pressionou a faca com mais força. – Eu não vou te matar, não se vocês me obedecerem. Eu vou te entregar vivo para a Madame Octavius.

-Titãs acima, Sergei, a Madame me mandou te matar. Ela não vai te receber de braços abertos.  – Jonas levantou a voz, quase gritando.

-Mas ela vai mudar de idéia quando souber que eu virei o jogo. – Disse Sergei. – Ela saber o que acontece com traidores e aqueles que desafiam a Barracuda.

Jericó observava a cena imóvel. Mesmo sem o caos da batalha anterior ele se sentia paralisado, sem saber o que fazer ou conseguindo sequer pensar em uma resposta para aquele problema. Não havia runas com que interagir, ferramentas com que construir ou um plano para seguir.

Ele olhou para Movna, botando suas esperanças na Agnae. Ela tinha um olhar fulminante e apertava seus punhos até os dedos ficarem brancos, mas também parecia não ter idéia do que fazer.

-Você da máscara. – Sergei falou para Jericó. – Vá até aquele sabre negro e mande até mim.

Jericó mancou até a espada de Jonas, e com a ponta da bota a chutou para perto do pirata. Sergei olhou pensativo para a arma no chão, sem saber como pegar a arma sem soltar seu refém.

-Mudança de plano. – Sergei voltou a falar. – Pegue o sabre e venha comigo, mas não se aproxime demais ou irei…

-Não, já perdi a paciência. – Jonas interrompeu. Ele agarrou a lâmina da faca, puxou para o lado e cortou a própria garganta.

Tudo pareceu deixar de existir para Jericó enquanto observava capitão Jonas cair. Uma mancha rubra se espalhou por roupas azuis e pelo chão cinzento.

Ele levantou seu olhar para ver Sergei, surpreso e também de olhar fixo para baixo, tentando entender o que aconteceu.

Quando o pirata olhou para frente Movna já estava sobre ele como um pássaro feroz.

Jericó aproveitou a distração, agarrou sua sacola e se agachou ao lado de Jonas enquanto Movna descarregava sua fúria sobre Sergei.

O Ferreiro não era um médico e pouco entendia dos engenhos do corpo humano, mas tinha experiência com ferimentos causados por todos os tipos de maquinários, e talvez pudesse manter o capitão vivo por alguns momentos a mais.

Ele vasculhou sua sacola com mãos tremidas. Talvez Runas de Sol pudessem cauterizar o corte, mas havia o risco de queimar a garganta. Runas de Nevasca podiam congelar sangue e tampar o corte, mas poderia bloquear completamente sua traquéia. Jericó retirou um par de ferramentas, planejando usar ambas.

-Você ia enfiar uma chave de fenda em mim? – Jonas disse enquanto sentava.

-Não se mexa. – Jericó falou assustado. – Cada batida de seu coração é um passo que a morte se aproxima.

Jonas sorriu, levou uma manga ao pescoço e limpou o sangue. O corte em seu pescoço havia se fechado, coberto por uma camada de algo vermelho e gelatinoso.

-Estou cheio de Essência de Enguia, lembra? – Capitão Jonas explicou. – Enquanto sobrar algo da injeção, meus buracos se fecham antes de vazarem muito. Infelizmente ainda dói.

-Você… Você planejou ser capturado? – Jericó falou.

-Não, o plano já havia saído de controle. Eu só improvisei e usei o que tinha. – Jonas disse através de seu sorriso. – Obrigado por tentar me salvar, agora vamos ver se sobrou alguma coisa do Sergei.

Por trás de suas lentes negras, Sir Jericó encarava capitão Jonas com olhos arregalados. Ao invés de expressar qualquer um dos inúmeros pensamentos que infestaram sua cabeça, ele apenas deu uma mão e ajudou seu aliado a se levantar. Haveria tempo para reflexão depois.

Ao lado estava Sergei caído no chão, acordado, mas imóvel. Sua perna estava dobrada em uma posição improvável e respirar havia se tornado um esforço doloroso. Movna estava de pé ao lado, massageando o nós dos dedos e respirando ofegante.

-Jonas? – Ela perguntou ao ver o capitão de pé.

-Essência de enguia. – Ele respondeu. – Obrigado por me vingar.

-Há. Eu sabia que não era um idiota com uma adaga que iria te vencer. – Movna gritou, sorrindo e quase saltando, antes de olhar para o corpo quebrado de Sergei e perder parte do entusiasmo. – Acho que exagerei um pouco com nosso amigo aqui. O que fazemos agora?

-Por enquanto cuidamos de nossos ferimentos e imobilizamos os piratas. Lidamos com o resto depois.

Capitão Jonas se abaixou, pegou o sabre negro jogado ao chão, o prendeu ao cinto, ajustou seu quepe e então seu casaco, agora manchado de vermelho.

Quando terminou de se arranjar, ele chegou perto de Sergei e chutou seu rosto, arrancando o pouco que tinha de consciência.

-Ei, Jericó. – Jonas chamou.

-Sim? – O ferreiro respondeu.

Agora nós vencemos.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Através do Éter – Dança de Engrenagens

“Faz uma semana desde a prisão do lorde pirata Baltazar Terceiro, mas nossos ouvintes ainda perguntam quais serão as conseqüências. Hoje eu e nossos convidados vamos discutir: será este o fim do crime na cidade, ou o começo de uma guerra nas ruas?”

-A Voz De Nova Glória

 

 

Nos túneis sob Nova Glória, capitão Jonas fugia de um assassino.

Ele andava apressado pelo labirinto subterrâneo, mas não ousou correr ou sacar sua arma, tentando se passar por uma vítima desprevenida.

-Eli, você está aí? – Ele Gritou ao passar por uma encruzilhada de túneis. –Você está vivo? Se não, por favor, não responda.

A única resposta foi o som de sua voz ecoando pelos corredores. Jonas escolheu um dos túneis ao redor e seguiu pelo caminho a passos ligeiros, continuando a gritar por seu amigo e a olhar constantemente por cima de seus ombros.

A procura por Eli Aros era um motivo para vigiar os arredores e se mover rapidamente sem causar suspeitas, embora Jonas não tenha encontrado aquele que o perseguia nem o tesoureiro. Os únicos sinais de vida que percebia eram os seus próprios, os dos ratos na ventilação e os lagartos que os caçavam.

Ainda sim Jonas tinha certeza que havia alguém lhe seguindo. Alguém perigoso. Não havia como provar, mas seus instintos e sua experiência com tentativas de assassinato lhe diziam para andar com precaução, desconfiar de cada sombra e manter a pistola ao alcance.

No caminho encontrou um mapa preso á parede que mostrava os caminhos para todos os pontos de importância daquele nível. No topo do mapa havia escrito ”Sub-Glória”, o nome dado á rede de túneis e câmaras no subterrâneo da lua.

Jonas parou em frente ao mapa e tentou decifrar o paradeiro de seu colega, torcendo para não ser interrompido por um tiro na nuca.

Fazia três dias desde o desaparecimento de Eli Aros. Ele já havia se tornado uma visão rara nos dias anteriores, saindo do Açucareiro logo depois do amanhecer e voltando tarde da noite, raramente encontrando seus colegas do Robalo ou informando aonde ia. O último a vê-lo foi a atendente do Açucareiro, com quem ele comentou estar procurando pelo melhor mecânico da cidade, uma pista que Jonas usou para rastrear seu colega até Sub-Glória.

Jonas passou um dedo pela superfície do mapa, decorando a localização e função de cada sala, e parou sobre um circulo pintado de vermelho-sangue ao lado das palavras “Câmara de Giroscópio”. Ele decidiu que aquela seria sua próxima parada e partiu, com andar apressado e ouvidos atentos.

As paredes dos túneis e seus encanamentos eram repletos de runas, que se tornavam cada vez mais presentes à medida que se aproximavam da Câmara de Giroscópio.

Runas de Tempestade geravam eletricidade para as baterias e ar para a cidade acima; Runas de Sol traziam luz e calor; Runas de Nevasca protegiam as maquinas contra o superaquecimento e geravam água para as reservas; E por fim havia as Runas de Ferro, fortalecendo o metal contra a ferrugem e o desgaste dos outros símbolos.

Logo as passagens se tornaram como páginas de um livro, ocupadas por linhas e mais linhas de letras exóticas. Jonas teve de manter as mãos longe das paredes para evitar perder os dedos.

O eco de uma voz veio do final do caminho, da direção da Câmara de Giroscópio na forma de grunhidos e palavras quase inaudíveis. Jonas se aproximou cautelosamente enquanto tentava decifrar o que a voz dizia, mas ela parou antes de chegar perto o bastante para escutar.

Ele havia chegado á um corredor escuro, cujas Runas de Sol haviam parado de funcionar. A sua frente havia uma porta de ferro.

Quando chegou a porta ele se abaixou, andando com os joelhos dobrados e apoiando seus passos pelos calcanhares, diminuindo o som de seus movimentos para poder se aproximar furtivamente. Jonas não sabia quem estava do outro lado, mas não queria se arriscar. Cautelosamente ele empurrou a grande porta de ferro, tentando abrir uma fresta pela poderia espiar.

Um grito desesperado de dor veio de dentro da sala. Era a voz de Eli.

Jonas abandonou a sutileza e avançou para dentro, sacando a pistola.

Do outro lado estava Eli Aros, segurando sua própria mão com dois dedos na boca, próximo á uma porta de cofre repleta de runas e eletricidade.

-Anh… Olá capitão. – Disse Eli, paralisado e encarando o cano da arma apontada para seu rosto. – Espero que esta não seja sua forma de me demitir. Uma carta seria o bastante.

-Desculpe. – Jonas guardou a pistola. – Ouvi seu grito e achei que estavam te torturando.

-Quem estaria me torturando nesta parte de Sub-Glória?

-Eu não sei. – Jonas respondeu. – Mas já fizemos alguns inimigos por aqui, e é fácil pensar o pior quando seu amigo desaparece sem aviso.

-Eu não desapareci sem aviso. Deixei uma nota com explicações em minha cama.

-Um pedaço de papel que só dizia quanto dinheiro levou. Mas nada sobre por que desapareceu durante dias e sem falar com ninguém.

-Bem, senhor capitão, eu estive procurando por candidatos á tripulantes, um marceneiro, um navegador, fornecedores de suprimentos, mapas atualizados deste sistema solar e agora estou procurando por um mecânico para reparar os imensos estragos no seu navio. – Eli listava os itens em seus dedos. – Enfim, estive ocupado trabalhando por seu projeto de tripulação. Acredito que isto seja mais importante que sua paranóia.

Jonas respirou profundamente antes de responder.

-Podemos discutir quando voltarmos ao açucareiro. Agora só estou feliz de você estar vivo.

-Obrigado. – Eli terminou de examinar a queimadura em seu dedo e o escondeu no bolso. – Só por curiosidade, como me encontrou?

-Eu andei perguntando por aí e seguindo o rastro de pessoas com quem andou falando. A última pessoa da trilha disse que viu um careca com topete de árvore procurando o melhor mecânico da cidade em Sub-Glória. O Giroscópio é o aparelho que mais precisa de atenção e reparos nesta parte dos túneis, então aqui estamos.

-Ah, faz sentido. Por onde anda nossa colega Agnae?

-Ela está cuidando do resto dos piratas da Barracuda. – Disse Jonas. – Sabe… Aqueles que juraram vingança e querem nos matar. Ela disse que achou a nova base deles.

-Não vejo você se preocupando com ela.

-É a Movna. Estou mais preocupado é com os danos colaterais.

-Pelo menos é bom que nos livremos destes piratas de uma vez. – Eli disse. – Não quero perder mais tempo me preocupando com tentativas de vingança.

Jonas pensou em sua viagem paranóica até ali, sendo perseguido por uma figura que podia sequer existir, mas não comentou sobre ela, apenas cruzou os braços e começou a andar em círculos pela sala.

-Agora que está aqui pode me ajudar a abrir esta porta? – Eli sugeriu.

No fim da sala, levando para a Câmara de Gravidade em sí, havia uma grande porta de cofre: Um círculo de dois metros de diâmetro feito de ferro puro. Pela sua superfície havia alavancas, fios de cobre, manivelas, barômetros e o segredo no centro que abriria a entrada. Em cada peça e cada espaço livre havia pelo menos um par de runas, de Tempestade e Ferro. Ocasionalmente minúsculos relâmpagos surgiam do metal para chicotear o ar, e ela exalava um forte cheiro de cobre queimado e ozônio.

-O mecânico instalou essa espécie de quebra-cabeça impedindo a entrada. Uma série de peças tem de ser manipuladas para divergir a eletricidade e o segredo poder ser tocado sem que você seja eletrocutado. Por sorte sei pelo menos os números da senha. – Eli se curvou para o lado, tentando analisar o quebra-cabeça por outro ângulo. – Estou tentando resolver isto há três horas e tudo que consegui foi decifrar as peças externas.

-Ah, então é um Ferreiro. – Jonas falou enquanto circulava de olhos fechados e prestando atenção em seus próprios passos.

-Sim, é provável que o mecânico tenha forjado suas próprias peças para este projeto…

-Não um ferreiro, um Ferreiro da Caligrafia Imaculada. – Jonas interrompeu, e recebeu uma expressão duvidosa como resposta. – Eles são um culto dos Cavaleiros Hospitalários. Para eles escrever runas e construir máquina com elas é uma atividade sagrada, um tipo de caminho para a iluminação. Já vi coisas parecidas, são testes para só os “iluminados” especialistas em runas poderem entrar.

-Estranho. – Eli resmungou. – Já visitei os territórios Hospitalários diversas vezes e nunca encontrei uma invenção como esta.

-Tente invadir uma base militar da próxima vez. Os quebra-cabeças que vi na guerra teriam arrancado seu braço inteiro. Uma vez precisamos de um mecânico que pudesse suprimir as runas a dois metros de distância… –Jonas conteve sua nostalgia e continuou a falar. – Todos os enigmas que vi precisaram de um especialista em runas para abrir.

-Certo. – Eli sussurrou para si mesmo, tamborilando seus dedos contra o lado de sua perna. – Então a solução deve começar pelas runas em si, e as peças físicas devem ser parte secundária do enigma.

Nos minutos seguintes os dois continuaram o que faziam, sem trocar nenhuma palavra. Eli continuou encarando o mecanismo complexo á sua frente enquanto o desmontava e reconstruía em sua mente. Jonas continuou andando em círculos, esperando algo acontecer.

Jonas levantou sua perna para outro passo, mas parou bruscamente, parando seu pé centímetros acima do chão. Ainda sim, o som de uma bota pisando no chão ecoou dos corredores.

Jonas se virou para a porta de onde o som veio e apontou a pistola para ela.

-Imitando meus passos para não eu te ouvir me seguindo. – Ele gritou. –Foi um bom truque e me enganou por um bom tempo, parabéns. Mas agora você vai sair daí com as mãos atrás da cabeça, dizer quem te mandou. Ou eu atiro.

Não ouve resposta. Jonas continuou completamente focado naquela passagem, e Eli observava para trás por cima do ombro, confuso e querendo perguntar o que estava acontecendo.

Então começaram os tiros.

A porta foi perfurada por um enxame de balas, voando por todas as direções, ricocheteando contra as paredes edeixando rastros prateados por onde passavam.

Jonas se abaixou e correu em busca de cobertura contra os tiros. Sua experiência e memória o guiaram para trás de uma coluna feita de cimento e coberta de Runas de Sol. Mesmo sem tocar na coluna e com a proteção de seu casaco ele pôde sentir o calor escaldando sua pele.

Do outro lado Eli havia encontrado outra coluna para se proteger.

Os tiros continuaram por alguns segundos, enchendo a sala com assovios das balas perfurando o ar e pedaços das paredes se partindo, antes de pararem e deixarem espaço para o silêncio.

-Você foi atingido? – Jonas sussurrou.

-Estou intacto. – Eli respondeu da mesma forma, mas com uma dose de pânico em cada palavra. –O que está acontecendo?

-Estão atirando em nós. Fora isso eu sei tanto quanto você.

Jonas se abaixou, mantendo a cabeça abaixo dos buracos de bala na porta. De trás da coluna espiou por qualquer sinal do atacante, mas apesar dos danos na porta ela continuava fechada e ninguém tentou entrar.

-Talvez ele tenha desistido. – Eli Aros voltou a sussurrar, com uma expressão de foco e certeza, mas cada vez mais pálida. – Talvez sua munição tenha acabado, ou então este ataque foi apenas uma distração para fugir.

-Não. Ainda tem alguém armado esperando do outro lado.

-Como você sabe?

-O atirador estava atrás da porta, mas depois que as balas pararam só ouvi uns dois ou três passos, então ainda está por perto.

-Durante todo este caos você ainda consegue contar passos?

-Eu pratiquei bastante. – Jonas Sussurrou. Ele se levantou e começou a se aproximar cautelosamente, pistola em mãos e apontada para baixo enquanto andava silenciosamente. Mais uma rajada de tiros atravessou a porta e o forçou a voltar para a proteção da coluna. – E o filho de uma pistola também consegue nos enxergar pelos buracos.

-Por que não entra aqui e nos rende de uma vez? – Eli continuou a sussurrar.

-Ele não sabe se estamos bem armados. É arriscado demais entrar aqui apenas para descobrir que temos espingardas e explosivos, então estamos em impasse. Provavelmente vamos ficar esperando por aqui até algo mudar ou alguém ficar desesperado. – Jonas parou para verificar o tubo de munição de sua pistola. –E com a sorte que tivemos até agora não somos nós que vamos receber reforços, então temos de escapar por aquele cofre.

-Muito bem. – Eli fechou os olhos e começou a respirar em fôlegos profundos e controlados, tentando se focar em sua parte racional no meio de todo o pânico e medo. Quando abriu os olhos estava pronto para resolver o quebra-cabeça. –O círculo exterior da porta já está resolvido, talvez eu consiga bloquear as runas se me aproximar, então o segundo círculo… – Eli foi interrompido quando Jonas se levantou e começou a atirar no cofre.

Runas de Ferro na pistola se iluminavam a cada disparo. Jonas atirava duas vezes antes de mover o braço alguns centímetros e repetir o processo.

Quando acabou, todas as runas da passagem deixaram de funcionar. Não havia mais correntes de eletricidade ou tempestades em miniatura, apenas símbolos distorcidos pelo impacto das balas.

-Jonas, o que… Como? – Eli tentou falar, confuso e com um pouco de raiva.

-Runas só tem poder quando estão no formato certo, e uma bala no lugar certo muda o formato delas. Já fiz isso centenas de vezes. – Ele respondeu enquanto retirava novamente o tubo de munição, contando as balas que sobravam. –Agora termine de abrir a porta enquanto te dou cobertura.

Jonas se levantou subitamente, se pôs de frente para a porta esburacada e começou a atirar com toda a intensidade que sua arma conseguia. Uma corrente constante de balas atravessou a sala; uma corrente menos intensa do que a produzida pela metralhadora a momentos atrás, mas o bastante para impedir que o inimigo pudesse contra-atacar.

Eli Aros correu até o cofre e começou a girar o segredo, torcendo para ter os números certos.

Os segundos seguintes se passaram com uma lentidão dolorosa.

Os tiros pararam. Jonas não precisou checar para saber que não tinha mais balas.

Um olhar rápido para trás mostrou que o cofre ainda estava trancado, e os passos do lado de fora mostravam que o inimigo estava voltando para outro ataque.

Jonas começou a correr; não em busca de cobertura contra o tiroteio que viria, mas em uma carga violenta.

A metralhadora estava prestes a atirar, suas Runas de Ferro brilhando na escuridão do correr, quando ele se colidiu contra a porta.

O metal se dobrou sob seu peso, destorcido e enfraquecido por centenas de balas que o atravessou, se desprendeu das dobradiças e caiu sobre a figura oculta do outro lado.

Jonas se jogou em cima da placa de metal para manter seu inimigo no chão. O impacto foi respondido com um grunhido de dor e um disparo de metralhadora; balas foram atiradas para o lado e atingiram a parede do corredor.

Um grave rangido de metal sendo arrastado veio da sala.

-Consegui! – Gritou Eli Aros.

Jonas se jogou para o lado, se levantou com o impulso e começou a correr enquanto o assassino empurrava a porta para longe. Ao reentrar a sala viu Eli Aros empurrando a porta com as costas e toda sua força, abrindo uma entrada para a Câmara de Giroscópio.

Veio outra cascata de tiros; Jonas sentiu os cortes que elas deixavam pelo ar. Ele se abaixou com as mãos sobre a cabeça e fugiu, correndo em curvas bruscas e repentinas para se tornar um alvo menor e imprevisível.

Ele chegou ao cofre e saltou pela brecha, imediatamente buscando proteção atrás da grande massa de metal.

Os dois arrastaram a porta de volta á sua posição original até ela se fechar e se trancar com o encaixar de travas mecânicas.

 

 

Os tiros pararam. Houve silencio. Os tripulantes do Robalo estavam sozinhos e seguros mais uma vez.

Eli Aros encostou sua cabeça contra o ferro gelado. Ele estava ofegante, ignorando tudo ao seu arredor, sentindo seu coração queimando e batendo como os pistões de um encouraçado.

Á frente dos dois estava a Câmara de Giroscópio: Um enorme salão redondo repleto de mecanismos e tubos de borracha. Haviam estantes cheios de livros pelo lugar, mesas de trabalho, ferramentas jogadas ao chão, roupas sujas, peças sobressalentes, placas de ferro, máquinas desmontadas, pequenas estátuas dos Titãs e até uma forja com sua própria bigorna.

No centro de tudo estava o giroscópio em sí: Oito anéis metálicos de variados tamanhos, o maior do tamanho de um homem adulto e o menor do tamanho de um punho fechado, um ao redor do outro, todos girando em intensa velocidade e flutuando dentro de um tubo de metal transparente. Toda a máquina era marcada por centenas de runas, não simplesmente gravadas no metal, mas feitas com gemas preciosas, safiras e rubis em maior parte, e no centro dela, no centro de todos os círculos, flutuava um diamante.

Todas as partes da máquina, toda a dança de peças e círculos que a envolvia, tinha um simples motivo: Gerar gravidade para todo o Porto-Lunar.

-Jonas, me faça um favor: explique o que acabou de acontecer. – Falou Eli.

-Alguém tentou nos matar. – Jonas respondeu casualmente. Ele andava apressado pela câmara, verificando cada passagem e cada saída da câmara. Todas estavam fechadas.

-Ah, eu devia ter adivinhado. Agora que temos o “o quê” do mistério, teria alguma sugestão do por que ou quem estava envolvido no crime?

-Talvez um pirata da Barracuda. – Disse Jonas, com as mãos ao redor da manivela de uma escotilha na parede. Ele tentou girá-la e puxá-la, sem qualquer resultado. – Mas é cedo demais para adivinhar. Prefiro resolver esse mistério no Açucareiro, onde tem mais bebida e menos assassinos.

-Certo… Certo. – Eli esfregou seu rosto com as mãos. – Certo, vamos nos concentrar no que fazer agora.

-Eu vou continuar procurando a saída daqui antes que nosso amigo ache a entrada.

-Muito bem. Neste meio tempo eu…

-Uma sugestão, senhor invasor. – Disse uma voz abafada logo atrás de Eli. – Tente explicar como vocês dois entraram aqui sem permissão.

Eli sentiu um calafrio vir da base da espinha até o que sobrava de seu cabelo. Ele imediatamente saltou para frente, pegou o objeto mais próximo no chão, se virou para a figura e a ameaçou com a arma improvisada.

-Titãs acima, não vou entender sua dança representativa. Use palavras! –O estranho falou.

Ele era um homem baixo e magrelo, de postura curvada como se para alcançar algo no chão. Todo seu corpo era coberto por roupas, sem deixar um centímetro de pele exposta ao ar: Botas grossas de borracha em seus pés; Calças e camisas amareladas com anos de manchas; Seu torso era coberto por um casaco negro que chegava aos seus calcanhares, de onde pendurava um martelo de ferro; O mais chamativo era a máscara de gás, feita com uma diversidade de tecidos e metais cinzentos, equipada com dois cilindros de ar e grandes lentes negras.

Eli encarou o visitante por alguns momentos enquanto se recuperava do choque, e lentamente abaixou o espanador em suas mãos. Do canto da visão viu Jonas se aproximando, uma mão sobre o coldre da pistola.

-Espere, este é o mecânico que estamos procurando.

-Ferreiro, por favor. – O estranho resmungou. – Jericó d’Damara, Ferreiro da Caligrafia Imaculada. Prazer conhecê-los e todos aqueles floreios extravagantes, agora digam como entraram em minha câmara.

-Ah, sim, claro. – Eli pigarreou, arranjando tempo enquanto lembrava-se do discurso que havia preparado horas atrás. – Eu sou Eli Aros e este é capitão Jonas. Nós viemos de um navio mercante que sofreu danos consideráveis. Ficamos sabendo que você é o melhor mecânico da cidade, então viemos procurar por sua ajuda.

-Como. Vocês. Entraram. – Jericó grunhiu.

-Obviamente nós resolvemos o quebra-cabeça na porta.

-Impossível.

-Era um quebra-cabeça particularmente complicado, mas com algumas horas e discussão nós…

-Não, a entrada literalmente não tem solução. – Jericó o interrompeu. – A porta está lá para eletrocutar visitantes idiotas… O que consistiria de todos os visitantes, agora que penso nisto.

-Eu atirei nas runas até quebrarem. – Jonas disse. Ele estava á certa distância dos outros dois. Seu olhar virava de um canto ao outro da câmara para descobrir de onde veio Jerico.

-E… Bem, eu também devo admitir que subornei um guarda em troca da senha do cofre. – Eli falou, timidamente.

-“O problema de um plano á prova de idiotas é que nunca se sabe o que um idiota irá fazer”. – Jericó recitou em um grunhido cansado. – Agora, por quê?

-Por que… – Eli parou para resistir à vontade de mencionar que já havia explicado seus motivos, ou a de reclamar do fedor intenso de óleo e suor que o Ferreiro exalava. – Nós dois somos da tripulação de um navio etéreo, o Robalo, que sofreu danos severos em um saque pirata. Nós damos muito valor á nosso navio, e ouvimos rumores de que você…

-Ah, os visitantes souberam da perícia deste com o alfabeto divino e querem meu serviço para si. – Jericó falava em sua voz distorcida pela máscara enquanto dava as costas para os dois, se dirigindo para uma das mesas de ferramenta e arrumando seus pertences. – Um Ferreiro não trabalha como um mercenário, mas procura pelo caminho com o qual pode refinar suas habilidades. Eu trabalho com o Giroscópio de um Porto-Lunar inteiro para iluminar minha alma, então quem são vocês que poderiam melhor alimentá-la?

Eli olhou para Jonas a procura de sugestões, mas este estava ocupado procurando passagens secretas sob o chão.

-Por acaso… – Eli Aros começou. – Ouviu os rumores sobre Baltazar Terceiro?

-Descendente de uma dinastia pirata. Associado aos Octavius. Preso em uma operação da União Hominae. – Jericó listou imediatamente. – Até aqui em baixo os boatos chegam.

-O senhor vai gostar de saber que fomos nós, a tripulação do Robalo, que terminou a carreira pirata de Baltazar. – Eli falou em um tom dramático, ignorando o olhar surpreso que Jonas lhe lançou. – Todos os eventos que levaram á prisão de Baltazar foram planejados por nós, livrando este sistema solar de um de seus maiores criminosos. Veja: o Robalo não é apenas um navio mercante, mas um local para aventureiros ousados que querem beneficiar a galáxia. É por isto que não queremos simplesmente os seus serviços temporários, mas sua presença na tripulação, Ferreiro da Caligrafia Imaculada.

-Não me diga. – O ferreiro Jericó sussurrou pensativo. Imediatamente pegou uma pena-caneta da mesa e começou a escrever na palma de sua luva antes de se voltar aos visitantes. – Quem são vocês, exatamente?

-Meu companheiro aqui é Jonas, capitão de nossa embarcação, herói de guerra e defensor dos inocentes. E eu sou Eli Aros, tesoureiro e experiente corsário.

Jonas quis parar e perguntar o que seu colega estava fazendo, mas decidiu que continuar a procurar por passagens seria um uso melhor de seu tempo. Em um canto havia uma caixa de recursos médicos, incluindo uma seringa de essência de enguia; ele decorou a localização daqueles itens caso um assassino entrasse na câmara.

-Palavras convenientes, mas como sei se são quem sonham que são? – Jericó andava ao redor de Eli, analisando suas roupas e gestos, como um cachorro julgando um estranho.

-Hora, nós três chegamos á apenas uma semana e já somos celebridades pela cidade. – Eli Aros exclamou dramaticamente. – Passe pelo Açucareiro, pergunte sobre Jonas, e eles falarão por horas sobre nossas peripécias pela cidade. Junte-se a nós e faça parte desta história.

-Impressionante. – Sir Jericó continuava a andar, desta vez ajustando as ferramentas em seu cinto. – O que farão quando seu navio voltar á saúde?

“O que não iremos fazer” é a pergunta certa. Ainda estamos discutindo, mas temos todo um leque de oportunidades ao nosso alcance: Podemos trabalhar como comerciantes de produtos exóticos; corsários; caçadores de relíquias; pescadores de criaturas obscuras, e centenas de outras opções.

Eli Aros parou de falar quando viu o martelo nas mãos de Jericó.

O Ferreiro Jericó ergueu a ferramenta no ar e a golpeou contra o joelho de Eli, quebrando ossos com um estalado tão alto quanto o grito de dor que veio em seguida.

Eli desmoronou ao chão, sem conseguir fazer nada além de se agarrar ao seu joelho despedaçado. Por um momento conseguiu olhar para cima, viu Jericó erguendo o martelo novamente, e então não viu mais nada.

 

Jericó d’Damara estava curvado sobre o corpo inconsciente de Eli, verificando seu estado. Jonas veio correndo com a pistola em mãos.

-Largue o martelo e se afaste dele. Mãos atrás da cabeça. – Jonas gritou, deixando com que o brilho intenso das runas em sua arma deixasse claro o que poderia acontecer.

Jericó obedeceu, deixou sua ferramenta cair com um estrondo, mas sem mudar suas mãos de posição.

-Ponha. As duas mãos. Atrás da nuca. Ou vou atirar.

-Titãs acima sabem que preciso fazer isto. – O Ferreiro Jericó começou a se aproximar. Um passo lento atrás do outro. A espada dos Octavius pendura sobre a cabeça deste ferreiro, e entenda que preciso sacrificar vocês para me livrar dela.

-Não importa se está sendo chantageado ou se as vozes na sua cabeça disseram para fazer isto, se der mais um passo eu atiro.

-Como, se sua arma está vazia? – Jericó falou e apontou para a lateral da pistola. – O prateado das runas muda de tom quando não há balas no tubo para responder ao seu poder.

Jonas sabia que não havia mais munição no tubo, mas não sabia se Jericó estava blefando. Ele olhou rapidamente para a lateral da pistola, procurando alguma mudança qualquer em suas luzes.

Foi nesse instante que Jericó atacou.

Ele saltou pela pequena distância entre os dois, sua luva erguida para o alto, mostrando as Runas de Tempestade inscritas em sua palma, e com ela segurou a testa de Jonas.

O corpo de Jonas foi tomado por eletricidade e dor. O choque total de todos seus sentidos e a falta de controle sobre seu corpo. Aquela não era eletricidade natural, como um mero relâmpago, mas o poder de um Titã passando por cada peça de seu corpo. Ele viu luzes, um arco-íris piscando e girando na frente de seus olhos.

Então escuridão.

 

*****

 

No momento que voltou á consciência, Jonas sabia que estava envenenado.

Há medida que acordava ele reconheceu os efeitos da saliva de Serpente-Etérea: Dúzias de manchas roxas bloqueando sua visão; A câimbra fazia seus membros coçarem como se espetados por milhares de agulhas, principalmente onde as algemas prendiam seus punhos á cadeira; Toda a força de seus músculos havia escapado e tudo o que podia ouvir era um apito agudo de dentro de seu crânio.

Veneno de Serpente Etérea era uma das formas mais seguras de se manter um ser humano inconsciente, sem os riscos de infartos ou reações alérgicas que outros anestésicos traziam; o que explicava o preço exorbitante da substância.

Para Jonas isto significava que alguém queria capturá-lo não apenas vivo, mas em boas condições.

Apesar de ter sido eletrocutado antes de desmaiar, seu corpo não parecia ter sofrido danos. Apenas eletricidade rúnica, combinada com o controle de um especialista, teria aquele efeito. Jonas estaria impressionado com a habilidade de Jericó se não fosse a vontade de quebrar o crânio dele.

Em sua mente ele começou a listar os inúmeros inimigos com tempo e dinheiro para seqüestrá-lo daquele jeito. Lembrou que estava em uma cidade distante do resto da galáxia, e reduziu a lista apenas aos inimigos que fez no último mês. Ainda era uma lista considerável.

Então se lembrou de Eli, jogado ao chão com sua perna quebrada ao meio e uma poça de sangue sob sua cabeça. Naquele momento decidiu que não apenas escaparia dali, mas iria queimar o local até sobrarem apenas cinzas.

Há medida que seus sentidos voltavam, chegavam também às pistas de sua localização.

Ele estava em uma cadeira macia forrada com couro e esculpida em curvas suaves. Sob seus pés descalços sentia um tapete macio de veludo que se acomodava ás curvas de seus pés. Ainda vestia suas calças e camisa, mas todos os outros objetos estavam faltando.

Havia um perfume forte no ar, um cheiro nauseante de uma mistura de flores que escondia os odores de bebida e suor.

Sons abafados vinham de longe, de apitos e engrenagens, música e gritos, moedas caindo e dados rolando.

Quando as manchas coloridas se dissiparam, ele se viu em um grande escritório cercado de retratos á óleo em molduras de ouro: Pinturas de pessoas de cabelos grisalhos e rostos severos, vestindo ternos formais e jóias brilhantes.

Havia uma figura familiar no maior quadro da sala, alguém que vestia uma armadura de bronze e posava para o retrato em cima de um cavalo alado. Uma placa de prata logo abaixo identificava o homem: Salomão Octavius, fundador de uma das famílias mais influentes daquela galáxia.

Quando sua mente começou a clarear e perceber onde estava, Jonas imediatamente tentou escapar, procurando por seu casaco e qualquer pertence com o qual abrir as fechaduras. Não encontrou nada de útil.

Ele começou a deslocar os dedões para escapar das algemas, mas foi interrompido por um grupo se aproximando da sala com passos pesados.

Uma esmeralda pendurada no teto começou a tremer, a porta se abriu e as runas de sol no interior da gema se iluminaram mais. Uma voz invadiu os seus sentidos e conquistou todos os outros sons:

-E diga para lidarem com a delegacia esta tarde. Três galões de gasolina e um fósforo são o bastante. Deixe o jornal de nove dias atrás como lembrete. O Topeira vai se encontrar com Alexandre no dia seguinte para lhe lembrar de nosso acordo. – Disse uma voz severa de uma mulher. As ordens foram de forma veloz, mas não apressada. Havia uma autoridade naquela voz, uma confiança que Jonas reconhecia de generais experientes e acostumados ao poder. – E se este é nosso novo recurso, tragam o arquivo e concertem a cadeira. Eu não vou interrogar alguém olhando para seu ombro.

Passos se espalharam para diferentes direções da sala. Jonas tentou guardar suas posições em seu mapa mental, mas o veneno em suas veias roubou todo seu foco.

A porta se fechou, houve um clique de um interruptor e as engrenagens sob o piso começaram a trabalhar. A cadeira girou suavemente, até que ele estivesse de frente para uma mesa de carvalho, onde a luz batia em seus olhos da forma mais irritante possível. Todas as outras pessoas continuavam fora de seu campo de visão, mas perto o bastante para que não esquecesse que estavam ali.

-Jonas, sobrenome não existente. – Disse a voz para si mesma, em tom alto o bastante para ser ouvida claramente. – Nativo do planeta Neith, atualmente estabelecido na taverna do Açucareiro. Trabalhou no Robalo por treze anos, é capitão há duas semanas. Contatos incluem Eli Aros, a Agnae Morvana, Alice e Cecília Harlas.

-Me desculpe moça. – Jonas falou. – Mas eu meio que já sei disso tu…

-Quieto. Isto não é uma conversa. –Ela interrompeu sem mudar de entonação, e imediatamente continuou a sua lista. – Recentemente interrompeu negócios de nossos associados para pagar a dívida de um desconhecido, mandando cinco membros da gangue para o hospital no processo. Passou-se por um funcionário público, invadiu nosso cassino, conspirou com a União Hominae e capturou um lorde pirata sob nossa proteção.

Ela parou de falar um momento e folheou as páginas, então largou a pasta de documentos em cima da mesa, se sentou em frente á Jonas e disse:

-Muito bem, agora estamos conversando.

Jonas a reconheceu de um dos quadros: Madame Octavius, atual líder da família em Nova Glória.

Ela tinha cabelos grisalhos arrumados em um penteado prático. Suas roupas eram de um preto quase absoluto, incluindo um casaco de peles enfeitado com pedras preciosas. Em seus olhos cinzentos Jonas reconhecia uma intensa confiança em sí mesma, e a sensação de que ela estava completamente decepcionada em todos ao redor. Em sua mão havia uma xícara de café escaldante.

-Ótimo. – Jonas falou. – Para começar, você não devia interrogar prisioneiros por conta própria. Se eu estivesse no seu posto mandaria minha centena de empregados fazerem o trabalho. – Ele olhou para o lado, o máximo que a cadeira lhe permitia. – E algum de vocês pode me servir um pouco de rum? Dá para ver que isto vai demorar e eu preciso molhar a garganta.

-Por favor. – Ela disse, apontando para um dos guardas escondidos, que se levantou, serviu um copo, o entregou para Jonas e abriu uma de suas algemas. Em momento nenhum o guarda se deixou ser visto. – Afinal ele precisa se fingir de bêbado e abaixar nossa guarda de alguma maneira.

Jonas sentiu o frio em sua espinha e pânico em seu cérebro, o que não o impediu de manter a aparência de calma surpresa quando falou:

-Não sei quem vocês acham que eu sou, mas é difícil fingir de bêbado quando se está cheio de álcool. – Ele ignorou o copo e pegou a garrafa com a mão livre, a levou aos lábios e bebeu metade do seu conteúdo antes de botá-la de volta á mesa com um baque.

-Curiosidade: Nós sabemos que você tem Ferrugem de Alma e também sabemos todos os seus sintomas. – A Madame começou. – Os agentes da Octavius tem acesso á contatos em todo o sistema, e eu tenho acesso á todos os agentes da família. A lista de coisa que sabemos sobre você inclui desde “como se infiltrou em nosso cassinoe “o que fez durante a Guerra de Todas as Bandeiras”. É por isto que você estamos conversando: a família sabe exatamente quem é você, agente Jonas.

Desta vez Jonas perdeu o controle, deixando que aquele momento de pânico chegasse ao seu rosto. Era a sensação de que estava completamente nu em frente á uma platéia de centenas.

-Quer mais um pouco de rum? – Madame Octavius continuou. – Um café talvez? Nós temos laranjas, sua fruta predileta.

-Ta bom, já entendi. Vocês têm controle total da situação e eu estou em suas mãos. – Jonas levou sua mão livre até a algemada e bateu palmas. – Podemos pular para a parte onde me dizem o que querem?

-Sabe por que te recebi pessoalmente? –A madame cruzou as mãos e apoiou o queixo sobre elas. – É tradição familiar receber pessoalmente nossos empregados mais importantes. Se tivéssemos uma medalha para nosso recruta mais especial, ela já estaria no seu pescoço.

-Ah, entendi.  – Ele se recostou contra a cadeira e relaxou, mesmo que apenas em aparência. – Eu sou um recurso agora, o pássaro na sua gaiola. Eu já passei por isto várias vezes, nos dois lados da mesa, e sei exatamente o que acontece depois: Vocês precisam de alguém para jogar o lixo fora, me lembram sobre como sabem tudo de mim, ameaçam me matar e eu faço o seu “favor”. – Com a mão livre fez um sinal imitando uma arma disparando. –Mas o problema deste plano é que eu não sou mais a pessoa que esse arquivo descreve.

Ela não respondeu, apenas levantou uma sobrancelha em sinal de curiosidade.

-O que estou dizendo é que fazem dez anos desde a guerra. – Jonas continuou. – Dez anos sem trabalhar em campo, sem uma rotina de treinamento, sem ensinar truques para novatos. Sabe o que isto faz com as perícias de alguém? Estou mais enferrujado do que meu navio.

-Para mim soa como se quisesse que nos livrássemos de você.

-O que eu quero é que sua “família” seja realista. Vocês estão me tratando como se ainda estivesse no auge da carreira, e não quero que me enviem para matar o primeiro ministro da União Hominae. Querem me subornar? Eu posso cooperar. Mas este plano de me tornar seu novo super-agente? Só vai decepcionar.

Madame Octavius o encarou com uma expressão passiva, retirou alguns papeis de seu arquivo, sem olhar quais eram, e começou a ler:

-“O indivíduo demonstrou capacidade de negociação, lidou com um confronto armado usando de recursos escassos, convenceu dois envolvidos na situação a se tornarem aliados; dentro do período de dois dias usou perícias destes aliados para conseguir o favor da população local, reuniu informações sobre os hábitos de um lorde pirata e sua localização, roubou uma delegacia da União Hominae, engenhou rumores sobre uma invasão policial á família, se infiltrou em propriedade Octavius, manipulou um lorde pirata a abandonar seu refúgio e ser levado á uma armadilha, onde foi subjugado e entregado á União por uma alta recompensa”.

Jonas resistiu a vontade de interromper e dizer que foram seus tripulantes que conseguiram tudo aquilo. Ele queria deixá-los nos holofotes dos Octavius o mínimo possível.

-Você não é mais o “jardineiro vermelho”, como te chamavam na guerra, mas não se engane: Nós sabemos exatamente o que esperar de nossos empregados. Mas para você ter certeza…

Ela folheou pela pasta, separou um grupo de documentos e o empurrou para Jonas. Ele esticou seu pescoço por cima da mesa para ver seus conteúdos: Um mapa de Nova Glória com um edifício circulado em vermelho; mapas de arquitetura do local; fotos em preto-e-branco de seus habitantes entrando e saindo do armazém durante a noite; um reporte escrito sobre todos aqueles no prédio; horários de suas atividades comuns, e no fundo da pilha um pedaço de pano com o símbolo pirata da lula caolha, cercada de peixes com dentes afiados.

-A tripulação da Barracuda. – Jonas sussurrou por entre seus dentes. – E tudo que preciso saber do local. Estão me mandando para matá-los?

-Isto seria simplesmente injusto. – Ela pausou sua resposta para um longo gole de café. – Portanto entregamos uma cópia de seus documentos para o novo líder da Barracuda. Ele está tentando se aliar á Octavius e ouvimos rumores de que vocês dois tiveram uma briga recentemente, então vamos deixá-los resolver suas diferenças e dar o emprego para quem sobreviver.

-E a minha tripulação? Se os piratas sabem onde eu moro também vão tentar matá-los. Suborne-me o tanto que quiser, mas não posso fazer nada se matarem minha equipe enquanto estou preso aqui.

-E é por isto que não iremos desperdiçar mais do seu tempo. – Madame Octavius disse e estalou seus dedos. Ela Ergueu a pasta no ar para que um guarda a recolhesse e se dirigiu para a saída.

Jonas começou a fazer uma pergunta, quando sentiu a agulha em seu pescoço.

-E não tente fugir, nós temos tanto espiões nos portos quanto fugitivos no fundo da lagoa. Divirta-se. – A Madame disse antes das portas se fecharem.

Jonas pôde sentir o veneno da serpente correndo em suas veias, paralisando corpo e devorando consciência.

De volta ao escuro.

 

*****

 

Jonas acordou e sentiu o cheiro das cinzas.

Os sentidos do capitão se recuperavam mais uma vez, mas o pouco de lucidez que tinha era o bastante para saber que havia um incêndio próximo.

O calor chegava atingia seu rosto como o hálito de uma fera faminta; o cheiro da fumaça invadia sua narina e fazia seus olhos lacrimejarem e a cacofonia de uma multidão ardia em suas orelhas.

Logo depois percebeu que estava dentro de um container de lixo.

Jonas abriu a tampa e escalou cegamente para fora da lixeira. Quando havia puxado metade de si para fora da caixa seus braços perderam a força e ele caiu no chão. Ele decidiu esperar por ali.

Tateando a si mesmo ele descobriu que haviam devolvido seu casaco, e dentro dele estavam os arquivos sobre a Barracuda. Seu quepe e sua espada ainda estavam desaparecidos.

As manchas de sua visão deram lugar ao céu noturno de Nova Glória, onde fumaça e brasas se espalhavam pelo céu. O container estava em um beco escuro, que levava á uma das principais estradas da cidade, onde uma multidão parecia se juntar.

Jonas juntou forças o suficiente para se levantar e mancar rua adentro em direção ao fogo. Enquanto alguns corriam, um grupo de pessoas havia se organizado em uma fila e passavam baldes de água entre si, da lagoa até o prédio em chamas e de volta para a água.

Minutos e ruas familiares se passaram até que ele chegasse á origem do fogo, onde o carro de bombeiros da cidade disparava uma nevasca por cima da estrutura: A delegacia da União Hominae

Os poucos membros do corpo de bombeiros de Nova Glória estavam sobrecarregados, se focando em evitar que o fogo se espalhasse para o resto da cidade de madeira velha.

Um público assustado assistia á distância, uma fila jogava baldes de água sobre o incêndio e os poucos guardas da União Hominae tentavam manter ordem no público.

Havia um indivíduo isolado da multidão, entre ela e o fogo, quase imóvel. Jonas o reconheceu e cambaleou até ele.

O xerife de Nova Glória era um homem desgastado, vestido em seu uniforme branco com detalhes em índigo e com um par de óculos de proteção sobre seu rosto enrugado. Seus cabelos e bigode grisalhos estavam sujos de fuligem, mas nada parecia lhe incomodar enquanto encarava o prédio em chamas.

Debaixo de seu braço havia um jornal enrolado, amassado e de bordas queimadas, mas inteiro. Um vislumbre da primeira página foi o bastante para Jonas reconhecer a notícia principal: “Lorde Pirata Preso Por União Hominae Em Bairro da Cidade”.

Ele estava a metros do xerife, pensando no que dizer. Ele queria gritar para todo o público ao redor quem era o responsável pelo incêndio, quem tinha toda a lua sob seu poder e que haviam tomado controle de sua vida logo quando começou a reconstruí-la.

Ao invés disso se virou para a casa em chamas. Seus olhos viram o edifício vazio sendo desfeito pelo fogo, enquanto os olhos de sua imaginação viam o Robalo no meio das chamas.

-É melhor você se afastar, menino, aqui é perigoso. – Disse Alexandre, como um avô falando com seu neto. – Espere com os outros enquanto nosso corpo de bombeiros termina seu serviço.

Jonas tentou pensar no que dizer. Sua mente estava como um céu tempestuoso coberto de nuvens negras, com raros relâmpagos de clareza.

-Eu sinto muito. – Foi tudo o que conseguiu dizer antes de se virar e partir, ignorando qualquer resposta e qualquer perigo, deixando sua culpa e outras distrações de lado.

Sua tripulação estava em risco mortal. Nada mais importava.

 

*****

 

Movna havia encontrado um raro momento de paz e tranqüilidade.

Ela meditava no chão do galpão, pacificando sua mente através de respirações controladas. Sua expressão era de pura serenidade, em contraste com seu olho roxo e nariz enfaixado.

Ao seu lado estavam os restos do Robalo, erguidos em um palco de ferro. O navio havia sofrido danos severos em uma batalha contra um navio pirata, e agora esperava por alguém que pudesse concertá-lo.

Do outro lado, Eli Aros jazia inconsciente sobre um colchão, de cabeça enfaixada, perna engessada e ligado á uma bolsa de soros e anestesia.

A porta do galpão se abriu e por ela apareceu um braço esquelético de metal. O braço começou a acenar e então chacoalhar.

-Sou eu, Alice. – Disse a voz atrás da porta. – Por favor, não atire.

A atendente do Açucareiro entrou no balcão, segurando o braço desencaixado com sua outra mão metálica, ainda vestindo seu avental de trabalho e com suor escorrendo de sua testa.

-Saiu cedo hoje. – Movna disse sem se mexer ou perder a concentração.

-Hoje não tem quase nenhum cliente. Fiquei preocupada quando minha irmã veio socorrer vocês, então achei que ninguém se importaria se fechasse o bar mais cedo. Como vocês estão?

-Eli não acordou. Jonas não apareceu e eu falhei minha missão. Um dia ruim. – Movna falava em um tom neutro e sem emoção, entre fôlegos.

-Eu sinto muito. – Alice andou até o lado de Eli. – Se importa se eu perguntar o que aconteceu com Ele?

-Quando voltei para o Açucareiro ele estava jogado em frente á porta, chamei ajuda de sua irmã e o deixei aqui onde é seguro.

-Não tem nenhuma idéia de quem fez isso com ele?

-Não.

-O que Cecília disse sobre… Sobre a condição dele? – Alice perguntou, se sentando sobre uma caixa de madeira de frente para Movna.

-Estável, mas pode ter uma contusão no cérebro… – Movna teve de parar de falar por alguns segundos para conseguir manter seu foco, tendo de sussurrar mantras Agnae. – Ele pode ficar bem ou pode nem acordar. Não temos veneno de Serpente-Etérea, então sua irmã vai voltar daqui algumas horas para aplicar mais anestesia.

-Minha irmã pode ser irritante, mas ela ainda sabe manter pacientes vivos. E Eli é um Hominae Flora então deve ter mais chances de se recuperar. – Alice falou em um tom tranqüilizador, mas sua preocupação era visível. – E você, como está?

-Fui para a base pirata, mas era uma armadilha. Acertaram minha cabeça com uma tábua e cai do segundo andar. Foi humilhante, mas vou ficar bem.

-Eu quis dizer se você vai ficar bem com tudo isso que está acontecendo. Se esta conseguindo lidar com o estresse. Você parece calma agora, mas não sei se é só aparência ou quanto tempo vai durar.

-Manter calma nas piores horas é uma das primeiras lições que nós Agnae aprendemos. – Na voz de Movna havia reverência e formalidade incomuns á ela. – Meditação e foco em meus objetivos vão me manter no controle de meus medos

-Foi com esse controle que quebrou metade do galpão? – Alice Harlas olhou ao redor, notando os restos de caixas, móveis e tábuas jogadas pelo chão, partidos em pedaços pelo chão.

-Às vezes é preciso gastar sua raiva em alguma coisa antes de ter paciência para meditação.

-Algumas pessoas usam hobbies para se acalmar.

-Eu faço artesanato. – Movna comentou. – Mas ontem passei a noite espalhando armadilhas pelo galpão, e abrindo uma saída de emergência no porão. Agora estou sem materiais.

-Mhm… – Alice resmungou antes de encaixar o braço solto em seu ombro e amarrar as cintas que o prendiam ao seu corpo. Foram necessários alguns segundos para que o membro voltasse á vida, lentamente recuperando seus movimentos. – E quando não puder mais meditar? O que você vai fazer?

-Vou me concentrar no que posso fazer. –Movna respondeu, com uma espécie de raiva fria tomando conta de suas palavras. – Encontrar Jonas, descobrir o que aconteceu e encontrar os culpados. E é aí que libero toda a raiva.

Alice mastigou aquelas palavras quietamente, exceto pelos rangidos de seu braço enquanto o esticava e o girava para recuperar seus movimentos. Então falou com toda a honestidade que tinha:

-Você já deve ter seu próprio jeito de lidar com crises, mas se tiver qualquer problema, se precisar de ajuda ou de dividir qualquer coisa, eu estou disponível.

-Obrigada, mas já agüentei crises piores e sem. – Movna parou quando ouviu alguém espreitando pelo lado de fora.

Ela se levantou, fez um sinal de silêncio para Alice, esgueirou até a porta e esperou ao lado dela. Cuidadosamente ela levou a mão ao cabo da faca escondida sob a camisa.

-Sou eu, Jonas. – Disse a voz atrás da porta.

-E o que mais? – Movna disse enquanto firmava seus dedos no cabo da arma. Havia uma série de códigos combinados pelo grupo que poderiam ser dados em resposta, que significavam desde “estou em perigo me ajudem” á “piratas estão me ameaçando neste momento”.

-Por favor, não atire. – Veio a resposta. “Estou sozinho e desarmado”. Movna abriu a porta e viu Jonas parado em frente á saída, como um espantalho no centro de um milharal. – Eu tenho más notícias.

 

Horas depois, meditação já não ajudava Movna mais.

Capitão Jonas continuava a contar sua história enquanto ela andava em círculos pelo galpão, seus punhos tremendo de raiva.

-… E da delegacia vim para o Açucareiro, vi que estava vazio e vim para cá. – Jonas terminava de contar o que aconteceu naquele dia, sentado no chão ao lado de Eli Aros– E… É isso. Agora que achei vocês eu não sei mais o que fazer.

-Mas eu sei. – Ela parou e se virou para Jonas. – Os filhos de uma pistola estão no cassino, não é? Vamos até lá e quebramos os braços e pernas deles. Problema resolvido.

-Eu não sei em que ponto do cassino me levaram; podia ser no térreo ou até o subterrâneo. E estamos sendo vigiados; se tentarmos qualquer coisa contra eles vão matar nossos contatos e incendiar o Açucareiro.

-Não vão conseguir fazer nada disto com braços quebrados.

-Movna… – Jonas esfregou seus olhos, tentando tirar as cinzas e cansaço de seu rosto. – Eles praticamente controlam todo o crime organizado da galáxia. Mesmo se invadirmos o local e espancarmos todo mundo, os Octavius no resto do sistema vão simplesmente mandar mais agentes para cuidar do problema, e se espancarmos estes agentes nada os impede de mandarem ainda mais gente e destruir a lua inteira.

-Eu sei! – Movna gritou e ergueu seus braços para cima. – Não tem como vencer, eu sei disto, mas e daí? Não vamos fazer nada? Vamos ficar parados e virar escravos?

-Eu quero fazer algo, me vingar e ficar livre dos Octavius, mas um confronto direto só vai nos fazer sofrer mais.

-Então faça algo indireto. – Movna falou com fúria vazando de sua palavras e dando lugar á tristeza. – Faça um de seus planos geniais, que nem com Yaakov ou a Barracuda. É por isso que você é o capitão.

-Desta vez meus planos infalíveis não vão funcionar. A Família sabe exatamente quem eu sou e já conhecem meus truques e todos os meus aliados, incluindo vocês duas. Eles me decifraram. – Jonas falou com tremor em sua voz. – O que temos de fazer é fugir de Nova Glória, encontrar um novo porto e começar de novo ali.

-Seus segredos? – A voz de Movna se abaixou, se tornando quase um sussurro, mas mantendo a mesma mistura de fúria e tristeza de antes. – Por isso vai fugir? Não conseguiu manter seus preciosos segredos e agora vai abandonar tudo? Até o Robalo?

-Eu… – Jonas parou e fechou seus olhos por um momento, juntando forças para o que iria dizer. – Eu tenho de abandonar meu navio para salvar a tripulação. Eli está ferido, toda a tripulação da Barracuda quer nossas cabeças e sabem exatamente onde vivemos. Eu prometi que formaríamos uma grande tripulação, mas dá para ver que não vamos conseguir fazer isto em Nova Glória, não com meus amigos tendo de se esconder em um galpão escuro e correndo o risco de serem assassinados. Nós já recomeçamos uma vez, e agora temos de fazer isto em outro lugar, onde a gente tenha mais sorte.

Movna tentou responder, mas não conseguiu pensar nas palavras, enterradas em uma lagoa profunda de raiva e frustração.

-Não tenho certeza se vai ser útil, mas eu tenho uma história. – Disse Alice Harlas. Durante toda a discussão ela permaneceu sentada, de braços e pernas cruzados, observando com um olhar calmo. Ela esperou até que olhassem para ela com curiosidade, um sinal implícito de que podia continuar. – Eu e minha irmã morávamos na rua quando éramos crianças, tínhamos de pedir dinheiro para viver e contávamos moedas para comer. Então nós conseguimos trabalho numa fábrica, onde não ganhávamos muito, mas era muito melhor do que nada, e achávamos que era o começo de nossa nova vida e na nossa cabeça íamos ficar ricas em alguns anos. E então houve o acidente. – Ela levantou suas mãos para todos verem, mexendo todos seus dedos esqueléticos. – Eu estou fazendo sentido ou estou gastando seu tempo?

-Continue. – Movna disse gentilmente. Jonas concordou com um aceno de cabeça.

-Nossa vida voltou a ser tão difícil quanto antes. – Alice continuou. – Quando a Guerra de Todas as bandeiras começou, minha irmã conseguiu emprego como enfermeira e eu recebi um par de braços em troca de trabalho nas minas, o que nós duas consideramos que seria o novo começo de nossas vidas e a solução de nossos problemas, mas a guerra deixou ainda mais feridas… E isto aconteceu tantas vezes, com nós duas achando uma nova forma de começar, as crises nos seguindo de perto, e então recomeçando de novo. Estão me entendendo?

-Acha que temos de ficar aqui? – Jonas perguntou.

-Não, de jeito nenhum. – Alice ergueu as palmas para o alto, como se pudesse parar aquela linha de pensamento. – Eu não quero que vocês arrisquem. Eu só quero que vocês saibam, quando partirem daqui e se mudarem para outro Porto-Lunar, que recomeçar sua vida sempre é difícil e nunca vai ter uma vez em que tudo dá certo.  Quando chegamos num lugar novo há aquela sensação de otimismo e centenas de possibilidades, mas os problemas começam e temos aquela vontade de simplesmente mudar de novo, achando que a próxima vez vai ser a certa quando só estamos desperdiçando tempo em um ciclo sem fim. Em algum momento vocês vão ter de parar e simplesmente insistir num caminho, mesmo que pareça mais fácil mudar para outro.

Movna refletiu sobre aquela história. No canto de sua visão ela viu Jonas fazendo o mesmo. Ele tocava distraidamente na própria canela, encostando algo escondido sob a manga da calça.

-E se eu não tiver tempo o bastante? – Jonas perguntou. – E se eu não puder começar de novo, mas o meu caminho atual arrisca matar meus amigos?

Alice se preparou para responder, quando a porta foi quebrada em pedaços.

Cinco piratas invadiram o galpão, armados com sabres e pistolas, vestidos com casacos portando a bandeira da Barracuda. Antes de Movna reagir eles já estavam apontando suas armas.

-Vocês agora são prisioneiros da Barracuda. – Um dos piratas gritou. Ele era mais alto que todos naquela sala, e em sua cabeça havia um chapéu de três pontas enfeitado com uma pena vermelha. –Aquele que se mover sem nossa permissão terá a garganta degolada e o corpo atirado na lagoa.

Movna, Jonas e Alice ficaram paralisados, tanto por surpresa quanto por saberem o que acontecia com aqueles que faziam movimentos súbitos nestas situações.

O tempo se arrastou enquanto os piratas se espalhavam pelo balcão, formando um semicírculo ao redor dos três, formando um semi-círculo ao redor de Jonas, de onde tivessem uma clara linha de tiro ao redor dele.

Os instintos de Movna gritavam para que ela saltasse sobre os invasores e quebrasse o pescoço de cada um. Ela preferiu dar ouvidos aos seus anos de treinamento, e analisou a situação cuidadosamente em busca de fraquezas em seus inimigos.

A tripulação da Barracuda tinha a vantagem numérica, estavam armados e preparados para atirar. Não havia como ganhar uma luta direta, mesmo que ela fosse a melhor guerreira de todos os Agnae, pelo menos não sem arriscar a vida de Eli e Alice no conflito.

A única opção que via era surpreender os piratas e vencer a luta no breve momento de confusão, tornando o que seria uma luta desigual em uma execução.

Movna permaneceu quieta enquanto procurava alguma forma de provocar aquela surpresa, encontrando uma esfera de vidro pendurada ao teto, uma das armadilhas preparadas por ela para aquelas emergências. Ela resolveu esperar, tanto pelo momento certo quanto por alguma forma de comunicar seu plano com os outros.

O pirata de chapéu empenado deu um passo á frente, vasculhou toda a sala com seu olhar de ódio até encontrar e se focar naquele que procurava. – Capitão Jonas, por acaso se lembra de mim?

Jonas se levantou, de forma lenta e cuidadosa para não assustar alguém e levar um tiro, com uma expressão de leve frustração, como se simplesmente tivesse de levantar mais cedo da cama.

-Talvez, mas não tenho certeza. – Ele falou com palavras preguiçosas. – Você era aquele cara que andava com aquele pirata, seja lá o nome dele.

-O nome é Sergei, servo leal da Barracuda e da dinastia dos Baltazar. E você é o patife que traiu meu senhor.

-Hm, eu não me lembro de nenhum de vocês. – Jonas falou. Em resposta Sergei o atingiu no rosto com o cabo da espada e o derrubou. Ele se virou, encarou o pirata com a expressão apática de antes, cuspiu um pouco de sangue no chão e voltou a falar. – Não, sinto muito, continuo não lembrando.

-Pois irá lembrar. Os Baltazar tem dominado esta parte da galáxia há três gerações, dominaram este sistema solar, fizeram parte da Frota Negra e lutaram ao lado do próprio Lorde Staunen. Mas por sua causa o último herdeiro da família foi capturado em uma cidade no fim do mundo. – Sergei falava um intenso desprezo em cada palavra. Ele moveu sua espada até que a ponta pairasse a alguns centímetros dos olhos de Jonas. – Mas agora nós vamos resolver isto. Todos aqui agora são meus prisioneiros, sua base está cercada por ainda mais membros da Barracuda e não há mais polícia para interromper sua interrogação. Vocês vão me revelar exatamente o que aconteceu com Baltazar Terceiro, não importa quantos dedos eu tenha de cortar.

-Quase tudo que falou é verdade, exceto a parte onde posso te ajudar a encontrar seu capitão. – Jonas tocou na ponta da espada com um dedo e cuidadosamente a empurrou para o lado. – Foi a União que o prendeu.  Agora ele deve estar em uma prisão no outro lado do sistema. Vocês podem arrancar meus intestinos e me enforcar com eles, mas não tem nada que possa fazer por vocês.

-Chega de suas mentiras. – Sergei gritou. – Você já enganou e trapaceou nossa tripulação uma vez, mas não mais. Eu já fui informado de sua aliança com o xerife na noite em que emboscaram meu capitão. Você irá arranjar uma forma de resolver nossos problemas até o fim da noite, e se não tem medo pela própria vida… – Ele se virou para outro pirata e apontou para trás. – Peguem A loira do Açucareiro, cortem os pés dela até que o capitão pense melhor, e façam o mesmo com a Etérita se não funcionar.

Pelo canto de sua visão, Movna viu Alice parada na mesma posição que estava desde que a porta se quebrou, olhando para a cena com olhos arregalados e com suor escorrendo por seu rosto.

Movna fechou seus punhos, preparada para atacar qualquer que ameaçasse sua amiga, não importava o número de piratas.

-Espere, tenho uma idéia. – Jonas gritou antes que qualquer um pudesse se mover.

-É claro que tem. – Sergei grunhiu. – Diga.

-Sim, mas não tem nada a ver com libertar Baltazar, não seja idiota. O que eu percebi é que a Madame Octavius vai te matar mesmo se conseguir seu capitão de volta.

Movna viu o rosto de Sergei tomado pelo choque, seus olhos se arregalando e sua boca tentando formar palavras em vão. Sua surpresa durou pouco, sendo substituído pela raiva.

-Como você sabe sobre a Madame? – Disse Sergei.

-Vai ser difícil de você entender, mas vou dar uma dica. – Jonas colocou as mãos ao redor da boca no formato de uma concha, e falou em voz alta como se estivesse anunciando para uma platéia. – Eu estou trabalhando para ela do mesmo jeito que você, seu imbecil.

-Eu disse chega de mentiras, você não vai nos enganar de novo. – Sergei guardou sua pistola e levantou o corpo magrelo de Jonas pela gola.

-Pois foi ela que me pediu para acabar com você, e até me deram uma pasta com seus segredos, e o mapa do armazém onde sua tripulação fica. Ela disse que você tinha recebido uma cópia de minhas informações, mas se você não sabia que eu trabalhava para ela…

Sergei não respondeu, apenas continuou ruminando de raiva.

-Agora entendi. – Capitão Jonas continuou. – A Madame não dá a mínima para você ou a sua dinastia pirata. Ela nos botou um contra o outro, mas isto não é uma competição; ela quer que a tarefa seja difícil para eu me provar, mas ela quer ver você falhar.

Sergei jogou Jonas no chão. Ele começou a chutá-lo, esmurrá-lo e lhe bater com o sabre, com uma fúria e violência de enxame de piranhas ao redor de um pedaço de carne.

Jonas apenas se encolheu no chão, protegendo as partes frágeis de seu corpo com seus braços e pernas.

Movna percebeu todos os piratas observando a cena atentamente, se aproximando para vê-la melhor. O momento certo para agir.

-Alice, em cinco segundos você vai ficar abaixada, pegar Eli e correr para o porão.

Movna deslizou a mão até a faca sob sua camisa e a atirou para cima.

A faca atingiu a esfera de vidro no teto e a partiu em dúzias de estilhaços, espalhando o pó branco que havia dentro.

A nuvem de fumaça cobriu o interior do galpão e todos aqueles que o ocupavam, tornando a cena em massa área cinzenta e as pessoas em vagas silhuetas. O caos veio logo depois, seguido por gritos e tiros. Runas de espadas e pistolas brilhavam no meio do cinza, revelando a posição exata daqueles que as seguravam.

Movna imediatamente investiu contra os piratas, pois aquela não era mais uma luta justa.

Ela se abaixou para evitar ser atingida pelos tiros de pânico, e rapidamente chegou até uma das silhuetas que sabia ser um inimigo. Ela agarrou seu braço e quebrou o punho que segurava uma pistola, logo antes de jogar o pirata ao chão, levantar uma bota e esmagar suas costelas.

Os gritos do pirata foram o bastante para chamar a atenção dos outros, que mesmo quase cegos se viraram para a silhueta de Movna e começaram a atirar. Ela voltou a correr em um caminho rápido e imprevisível. Atirar nela era como tentar atingir um pássaro no céu noturno.

Uma bala a atingiu de raspão no braço, deixando um rastro vermelho quente de dor, mas não a impediu de chegar a outro pirata. Um golpe na barriga o fez se curvar para frente, dando oportunidade para um golpe em sua nuca que o nocauteou.

Uma terceira tripulante da Barracuda avançou em sua direção. Ela golpeava o ar com o sabre, desesperadamente tentando atingir alguém.

Movna manteve distância, dando passos ligeiros mas cuidadosos para trás, se mantendo logo fora do alcance da lâmina.

Houve um golpe mais lento que os outros, um momento oportuno que ela usou para agarrar o cotovelo de sua inimiga e se aproximar. Movna quebrou o nariz da pirata com a palma e acertou sua garganta com a lateral da mão.

Antes mesmo que a pirata caísse no chão, Movna saltou para a direção de outra silhueta armada, pousando com a bota sobre o joelho dela. Ele quebrou com um estalido violento.

Antes que o dono do joelho pudesse gritar, um soco atingiu sua mandíbula com a força de um martelo.

O último pirata caiu. Movna estava cercada de pessoas caídas, inconscientes ou de alguma forma incapazes de se levantar.

Aquilo não foi uma luta justa. Foi uma ave de rapina caçando roedores despreparados.

-Vocês estão bem? – Gritou a voz de Jonas no meio da escuridão. Movna reconheceu sua silhueta magrela no meio da cinza, com uma pistola em mãos.

-Alice foi para o porão, levando Eli. – Ela gritou de volta. – Eu lidei com meus piratas, eles vão ficar no chão por um tempo. O que aconteceu com o seu?

-Eu derrubei Sergei e peguei sua arma quando a fumaça caiu, mas ele fugiu para fora do galpão antes que pudesse acertá-lo.  Todo o resto da Barracuda está esperando lá fora, eles vão entrar aqui no momento que a fumaça abaixar.

-Para o porão. – Movna respondeu logo antes de correr para o alçapão e entrar por ele, seguida de perto por Jonas.

Quando os dois desceram as escadas para baixo, passos pesados e tiros agudos já soavam pela entrada, à medida que nuvem de pó se dissipava.

Mas os piratas da Barracuda não encontraram ninguém no Balcão quando finalmente entraram; apenas rastros que levavam ao labirinto debaixo da cidade.

 

*****

 

Nos túneis de Sub-Glória, a tripulação do Robalo fugia de seus assassinos.

Jonas seguia a frente, com a pistola em mãos pronta para atirar, mas apontada ao chão para evitar acidentes.

Alice Harlas seguia logo atrás. Ela permaneceu em completo silencio durante a viagem, sem reclamar de seu cansaço ou do perigo em que estava. Seus olhos, por outro lado, mostravam toda a sua exaustão.

No fundo da fila seguia Movna levando o corpo pesado de Eli Aros, com os ouvidos atentos aos inúmeros ruídos que os cercavam.

Fazia meia hora desde que entraram em Sub-Glória, através de uma passagem de emergência no porão do galpão. Eles passaram este tempo acompanhados constantemente pelos ecos dos piratas que os perseguiam.

Os piratas da Barracuda se dividiram em grupos, seguindo por várias direções e tentando cercar a tripulação do Robalo, mas Jonas conseguiu evitá-los com sua experiência com os túneis e sua paranóia constante.

O grupo chegou á uma câmara. Ela tinha apenas uma única passagem que poderiam vigiar facilmente enquanto cuidavam de suas feridas. Ainda mais importante na câmara eram as escadas na parede dos fundos: uma passagem de volta á Superfície.

-Alice, você… – Jonas começou.

-Jonas eu sinto muito. – Ela interrompeu. – Eu queria ajudar lá atrás, mas tudo que consegui foi ficar parada vendo tudo acontecer.

-Você… Está se desculpando? – Ele respondeu confuso e um pouco impressionado. – Foi por minha culpa que quase te cortaram em pedaços, eu é que devia estar me redimindo.

-Capitão. – Movna sussurrou aquela palavra com severidade.

-Manter foco, entendido. Alice, preciso que vá para a superfície e leve Eli até sua irmã.

-E vão ficar aqui como distração? Nenhum de vocês precisa morrer para eu escapar. Podemos subir todos juntos.

-Não vamos morrer. Nós Vamos ficar aqui em baixo e resolver esse problema. – Capitão Jonas falou.  -Se eu subir com você, podemos até escapar. Mas Sergei vai continuar nos procurando, e vamos viver escondidos até Madame Octavius se cansar de esperar e levar ele até mim, ou matar nós dois de uma vez. Ela quer ver seus empregados brigando e vai mexer todas as engrenagens que precisar para isso, então vamos fazer esta briga aqui onde temos a vantagem e ninguém inocente vai se machucar.

-Você não está em estado de lutar com ninguém. – Alice olhou para o rosto e braços dele, infestados de pequenos cortes, marcas roxas e manchas vermelhas. Um de seus olhos mal se mantinha aberto, inchado por baixo e manchado do sangue que escorria de um ferimento em sua testa. – Só vocês dois e sem nenhuma arma…

-Não vamos simplesmente entrar em um tiroteio contra eles, nós vamos trapacear. Eu tenho um amigo nesta parte dos túneis que é um especialista em armadilhas, que vai dar abrigo e ajudar com o plano que vai lidar com nossos inimigos sem nenhum risco. – Ele colocou as mãos sobre os ombros de Alice. – Eu estou te devendo pela ajuda e pelos problemas que eu te causei, e nem os titãs acima vão me impedir de sobreviver, voltar para cima e pagar minhas dívidas.

A expressão de Alice Harlas se tornou severa, ela se preparou para falar, mas apenas concordou com a cabeça e começou a subir as escadas.

Quando chegou ao topo, Movna lhe passou Eli, e fechou a tampa de metal que separava Sub e Nova Glória, deixando os dois membros do Robalo sozinhos com os ruídos dos túneis.

-Você mudou de idéia. – Falou Movna, de braços cruzados e olhar de curiosidade. – Antes queria fugir daqui, agora que está sendo caçado quer ficar.

-Eu percebi algo quando estava no chão sendo esmurrado: Se eu correr, eles vão me alcançar e me derrubar, então vou ficar e trapacear meus inimigos até eu ser o cara dando os socos.

-É isso que queria ouvir, capitão. – Movna sorriu como uma criança recebendo um presente. –Por onde começamos?

-Vamos atrair a Barracuda para longe desta saída até Alice ter tempo de escapar. – Jonas explicou. – Eu reconheço essa parte dos túneis, e meu amigo está perto o bastante para nos esgueirar até a casa dele.

-Esse amigo… Ele é quem estou pensando?

-Sim, e essa reunião vai ser mais desagradável do que você imagina.

 

Quando os dois chegaram á Câmara de Giroscópio, a porta de metal ainda estava quebrada e aberta.

De dentro podiam-se ouvir as canções rúnicas dos mecanismos e do Giroscópio, mas quando Jonas se aproximou ouviu um barulho novo: Batidas repetidas de metal contra metal, diferente do som de qualquer máquina de Sub-Glória.

Movna seguiu a frente com passos silenciosos. Jonas esperou do lado de fora até que ela voltasse e lhe desse o sinal de mão combinado, mostrando que a área estava segura, e entrou cuidadosamente. Foi então que começou a ouvir a voz de Sir Jericó, trovejando pela câmara.

“Dos titãs vem a imagem da perfeição, e de suas pegadas vem a caligrafia do universo”

A voz dele ecoava como o rugido de um tigre e tinha a força de vontade de um imperador.

“De sua geometria sagrada vem poder; de sua forma imaculada vem a verdade; cada Runa, um segredo para oitenta vidas.”

Jonas esperava ver uma figura imponente dando um discurso á um público gigantesco, mas quando chegou perto viu que era apenas a figura recurvada de Sir Jericó, sozinho entre a sujeira e metal.

     “Titã Sulutroil, paquiderme que esmaga cidades com pés de cobre, cuja Runas reinam sobre ferro e aço, espada e martelo. Em suas letras busco sabedoria.”

Ele trabalhava á chama de uma pequena forja, segurando um martelo com o qual batia repetidamente contra uma placa de ferro incandescente, e com a outra mão ele segurava uma grande pinça de metal com a qual mantinha a placa no lugar.

“Seu Ferreiro perdeu seu caminho, faltou em vontade, falhou em virtude, se deixou ser manipulado; Como sua caligrafia traz força ao metal, eu busco força na forja; Como o bater do martelo dá forma e o cinzel escreve suas Runas, eu busco ordem em sua arte. Mais uma vez, me construo um servo digno.”

Ao redor de sua forja havia dúzias de placas de metal jogadas ao chão, suas superfícies completamente tomadas por inscrições de Runas.

Jericó deixou o martelo de lado, parou de falar e mergulhou a placa num barril de água ao lado. A água respondeu com um chiado e uma nuvem de vapor. Em nenhum momento ele pareceu reconhecer a chegada de visitantes.

Jonas sinalizou para que Movna o acompanhasse enquanto se aproximava do Ferreiro. Quando chegou a uns poucos metros de distância, se abaixou e pegou uma das placas no chão. No momento em que a tocou, as dúzias de símbolos em sua superfície começaram a reluzir com um brilho cinzento. Ele assoviou em admiração.

-Você ficou bem ocupado depois que nos traiu. – Jonas falou em voz alta. – Runas de Ferro comuns precisam de concentração para brilhar assim. Estas aqui devem ter levado muito trabalho, ou muita culpa.

Jericó não respondeu, apenas continuou de costas para Jonas e se concentrou em seu trabalho.

-Fazer tudo isto deve precisar de muito trabalho ou muita culpa. – Jonas repetiu mais alto e mais irritado, sem nenhuma resposta. – Titãs acima, presta atenção quando alguém tentar te intimidar.

Jericó olhou para trás de relance, percebeu os dois visitantes em sua câmara e então se virou totalmente.

-Visitantes, não interrompam um Ferreiro no meio de suas preces, eu… – Ele virou sua cabeça de lado, como um pequeno animal ao encontrar algo que o confunde. – É você…

Jericó se virou para onde deixara o martelo e saltou em direção á ele, conseguindo alcançar e agarrar o cabo da arma.

Movna, porém, foi mais rápida. Em um curto momento ela já estava ao lado dele com uma faca erguida, e a fincou para baixo.

A lâmina perfurou a longa manga do casaco de Jericó e se prendeu na mesa de madeira por baixo, prendendo também o braço e o martelo que segurava.

Jericó ergueu a outra mão, mostrando as Runas de Tempestade inscritas em sua luva, e atacou Movna com um toque eletrificado. Ela o agarrou pelo pulso e torceu seu braço contra suas costas.

Logo Sir Jericó d’Damara estava indefeso, com ambas as mãos presas e sem saber o que fazer com suas pernas. Ele deu um longo suspiro de decepção pela sua máscara.

-Eu declaro derrota, capitão. Este Ferreiro sabia que receberia vingança pelas suas ações, por mais que esperasse adiá-la. – Jericó divagou melancolicamente. – A última batalha pela minha vida foi curta, e estou pronto para minha execução, por mais longa que seja.

-Muito bem, vamos acabar logo com isso. – Jonas jogou a placa para o lado, andou calmamente até onde Jericó estava, com os braços atrás de suas costas e um sorriso maldoso nos lábios, e falou. – Este capitão precisa de sua ajuda.

Todos permaneceram quietos por um longo momento.

-O que? –Respondeu Jericó.

-Nós dois temos problemas com a Octavius. Nós devíamos nos juntar e resolver este problema juntos. – Jonas explicou. – Você me ajuda com os meus inimigos infestando os túneis, e nós ajudamos você a se livrar da Octavius.

-Uma forma curiosa de se propor uma aliança. –Jericó olhou para o braço preso pela faca e então para o outro, ainda torcido contra suas costas. –Há pouca diferença entre os métodos seus e a da Família, usando violência para conseguir favores.

-Da última vez que vim aqui, você quebrou a cabeça do meu amigo com um martelo. – Jonas respondeu.  – E agora já ia usar o mesmo martelo de novo.

-Ah. – Jericó respondeu, concordando com a cabeça. – Faz sentido.

-Nosso amigo não acordou até agora por sua causa. – Movna sussurrou entre seus dentes. – Agradeça ao capitão por eu não esmagar seu crânio contra a bigorna.

-O tesoureiro é um Hominae Flora, ele não só sobreviverá como se recuperará completamente. – Jericó d’Damara respondeu. – Ele não seria alvo de meu martelo se eu não soubesse que ele iria sobreviver. Assim como quando eletrocutei seu capitão eu controlei as runas para não matá-lo.

-Pode soltá-lo. – Jonas ordenou, e Movna imediatamente largou Jericó e guardou a faca de volta em sua bota. – E quando me entregou para a Octavius, sabia se eu ia sobreviver?

-Não, eu não sabia. – Jericó abaixou sua cabeça, balançando-a tristemente de um lado para outro. – Tudo que conseguia ver em minha frente era a chance de me livrar da família, e de seu controle sobre mim.

-Sabe, eu entendo. Ainda te odeio pelo o que fez com meu amigo, mas entendo. – Jonas começou. – Eu sei como é ter sua vida tomada por alguém maior que você, e ter de ir contra seus valores. Ainda vai demorar um para te desculpar, mas até lá ainda podemos trabalhar juntos e recuperar nossas vidas da Octavius.

Jericó encarou Jonas. Todas as expressões e sentimentos do Ferreiro estavam escondidos atrás de sua máscara e seus estranhos maneirismos.

Ele se virou bruscamente e correu câmara adentro.

Movna levantou seus braços em posição defensiva e Jonas alcançou sua pistola, mas ambos se acalmaram ao ver Jerico d’Damara voltando com dois objetos à mão: Um sabre negro e um quepe de capitão.

-Você guardou minhas coisas. – Jonas sussurrou admirado. – Mas você não sabia se eu ia voltar.

-Uma memória de minha traição e também um troféu que neguei aos meus inimigos. Agora, senhor do Robalo, estou convencido de seus motivos para lutar, mas posso confiar em sua capacidade para vencer?

Capitão Jonas abriu um sorriso, grande o bastante para chegar aos seus olhos e mostrar o brilho de seus dentes, e colocou o quepe em sua cabeça, demonstrando com orgulho o peixe laranja costurado nele.

-Eu tenho um plano. – Ele disse. – Observe e veja.

Através do Éter – Bem Vindo a Nova Glória

 

“Temos rumores de um acordo de paz entre as nações, o que pode significar novo comércio para nossa pequena cidade. Claro, isto se o governo conseguir livrar de todos estes piratas.”

-A Voz de Nova Glória

 

No cais de Nova Glória, três pessoas assistiam um navio afundar.

Este é o seu navio? – Disse o homem vestido com um casaco marrom. – Se minha memória não me falha, você disse que era capitão de seu próprio navio etéreo, não de uma pilha de entulho.

-Não seja dramático. – Disse o homem vestido de verde. – Um mecânico competente pode fazer o Robalo voar de novo em uma semana. – Ele parou um momento para admirar um buraco de canhão no casco da embarcação. – Bem, Talvez duas.

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O Bordel Improvável

Domingo foi o dia em que recebi meu mais frustrante cliente.

A manhã começou com o telefone estridente. Rastejei de minha cama para atendê-lo, e fui respondido pelos gritos de horror de Charlote, a atendente de nosso estabelecimento. Após me livrar das neblinas do sono, consegui entender seus avisos desesperados para que fugissemos do Bazar, pois Devorador de Estrelas estava chegando.

Claro, um serviço em nosso ramo não pode tomar o privilégio de parar toda vez que encontra um cliente de nome extravagante, então pedi para Charlote respirar profundamente e explicar a situação.

Levaram alguns segundos para recuperar o fôlego e a razão, mas enfim ela descreveu o cliente que esperava ao portão: Uma figura envolta em um manto negro, de olhos vermelhos profundos mais famintos que o sol e que ameaçavam consumir quem os via, de dois metros de altura mas que dava a sensação de ser maior que todo o salão, com uma voz mecânica semelhante á estática de rádio.

O nome era familiar, mas foi a descrição de Charlote que permitiu que minha memória reconhecesse o indivíduo. O pavor me devorou completamente, mas um líder deve manter dignidade, então controladamente instrui minha atendente a tirar o dia de folga e deixasse que eu recebesse o cliente pessoalmente.

Para aquela ocasião especial vesti o melhor casaco a disposição, a cartola mais elegante, a pele mais fresca e a bengala mais cara.

Por segurança levei meu revolver, armado com uma única bala feita com o olho de um deus sumério. Nenhuma outra munição seria necessária, pois ou ela acertaria e eliminaria qualquer alvo, ou erraria e nada mais poderia me salvar.

Preparado tanto em imagem quanto poder de fogo, desci pela escadaria e encontrei o salão onde o Devorador de Estrelas esperava.

Ele era exatamente como Charlote descrevera, mas meus olhos treinados enxergaram as sombras dos seus infinitos braços escondidos por debaixo do manto. Por pessoas como aquela o estabelecimento tinha etiquetas estritas sobre quais formas clientes podiam assumir, evitando que suas imagens verdadeiras danificassem o prédio.

Nós nos introduzimos, “Me chame de Barnabas Bacos, ou apenas senhor Bacos” falei em tom cortês, enquanto ele respondeu com uma voz mercurial que faria orelhas menores sangrarem. Apresentações dadas, o Devorador de Estrelas explicou o motivo de sua visita: O tédio o estava consumindo, e sabendo que o fim do mundo estava chegando e a roda das eras voltaria a girar, decidiu visitar o Bazar dos Ratos e verificar a legitimidade de nossa reputação enquanto tinha chance. .

“Já presenciei todas as sensações que sua espécie pôde proporcionar: todos os prazeres e dores, todas as drogas e todas as técnicas, mas é improvável que sua loja mereça chegar ao fim dos tempos.”

Lembro exatamente de suas palavras, da indignação que senti e da resposta que dei.

“Meu caro senhor, nossa reputação realmente é uma mentira. O Bazar dos Ratos não é o melhor bordel ocultista da humanidade. Este é o tipo de mentira que os filhos da Equidna contam. Nós na verdade somos os melhores dos melhores, capazes de encontrar o melhor entretenimento para qualquer cliente, mortal ou imortal. Nós servimos John Dee com canções enoquianas, fizemos Caligula corar como um virgem, nós agradamos clientes que não tinham mais mente para agradar e satisfazemos devoradores de almas com receitas físicas. Nós não damos um ótimo serviço, apenas o melhor serviço possível.”

“Veremos” a entidade respondeu, gerando um calafrio em minha espinha e as costuras da minha alma.

Apesar da honra ser a questão mais importante para mim naquele momento, satisfazer o Devorador de Estrelas também era uma questão de sobrevivência. A única coisa que o mantinha na terra sem devorá-la era seu medo do que se escondia atrás do sol, mas nada o impedia de destruir uma pequena loja no Cairo. Histórias eram contadas em círculos ocultistas sobre visitas de uma figura de olhos vermelhos, desesperada por entretenimento e com uma atitude vingativa que destruía quem falhasse em lhe agradar.

Com um sinal de bengala pedi que me seguisse, em um tour pelo Bazar dos Ratos. Em nossas cento e sete salas, alguma iria agradá-lo.

O salão de recepção levava á uma sala de relaxamento, onde clientes tinham acesso drogas e orgias básicas para passar o tempo na espera pelos serviços de verdade. De lá abri a porta para nossa primeira atração.

Uma sala completamente branca, de uma centena de metros, ocupada por gigantescas estantes de metal onde milhares de seres humanos jaziam dependurados.

“Observe, corpos humanos da melhor qualidade e saúde, colhidos de todas as partes do globo, distintos de alma ou vontade própria. Mas não lhe oferecemos apenas manequins de carne. Não, cada um destes corpos está conectado mentalmente á nossa biblioteca pessoal, prontos para serem reprogramados a qualquer momento com milênios de artes humanas e com as capacidades físicas para realizar qualquer uma delas. Todos os pecados queimaram Sodoma, as canções que quase foram perdidas em Cartago, talentos de artistas de elite enterrados vivos em tumbas de imperadores, e os talentos horrendos-mas-magníficos que levaram Gengis Khan a destruir Kwarzem. Tudo isto e mais ao dispor de nossos clientes.”

O Devorador de Estrelas não se impressionou, obviamente. Entidades como ele já normalmente já conheciam as artes de nossa biblioteca da época em que ainda eram praticadas por seres vivos.

Isto não abalou minha confiança, afinal estávamos apenas no começo de nosso tour, e o liderei a sala seguinte.

A câmara continha uma piscina de muco transparente contendo uma única criatura: Um fungo formado por quilômetros de apêndices completamente preênseis.

O visitante me interrompeu antes mesmo que pudesse apresentar a sala, em um longo discurso sobre como tentáculos eram uma ferramenta entediante que só apeteceria iniciantes dos entretenimentos ocultos. Pedi desculpas, concordando que aquela atração era realmente um tanto insípida, e continuamos a andar, pulando alguns números por precaução.

A câmara dezoito era um armazém de baterias, motores, produtos químicos e fios de metal. Tudo para sustentar o circuito de invocação no centro da sala. Sobre este circuito existia um caixão de vidro a prova de balas, que por sua vez guardava uma entidade de prazer puro.

“Este é o nosso demônio de Ambrosia, uma entidade criada pelos mesmos arquitetos geniais responsáveis pelo próprio Bazar. Feitos de peças retiradas dos poços mais profundos do subconsciente humano, dos instintos de sobrevivência mais básicos, dos pensamentos mais sórdidos e da satisfação mais perfeita. Um ser humano comum seria despedaçado por suas garras em instantes, mas um cliente como você poderia aproveitar de seu uso por anos.”

A criatura arrastou seu corpo voluptuoso contra o vidro, deixando um rastro de suor por onde sua pálida passava. Duas de suas vozes sussurravam em uníssono, dando sugestões perigosas-mas-ainda-tentadoras no tom mais doce possível, enquanto sua terceira voz gritava em um som agudo semelhante á de um pequeno cachorro sendo triturado.

“Já encontrei várias destas criaturas antes.” O Devorador respondeu com frieza.

“Hm.” Foi um esforço hercúleo para não deixar minha crescente frustração aparecer.

“Povos de ciclos anteriores criaram seus próprios demônios, mas seus subconscientes eram grandiosos e geravam entidades mais impressionantes do que este filhote.” Ele acenou com vários de seus braços e o demônio entrou em combustão, suas vozes continuaram a sussurrar sedutoramente enquanto queimava até a morte.

Aquilo foi incômodo, mas podíamos facilmente invocar outro.

Silenciosamente acenei que me seguisse para outra atração.

A câmara seguinte consistia de cinquenta metros quadrados de espaço, uma gaiola de Faraday no centro da sala e a criatura no centro do container.

“Testemunhe o Carrasco de Lemuria! Ou o que ainda sobra da criatura até hoje. Uma entidade de puro tecido nervoso, um predador feroz que se alimenta da sapiência de suas vítimas, se ligando aos seus nervos para sugar o que puder e não deixando sequer uma alma de sobra para o ceifador. O processo tem um efeito colateral que altera a percepção temporal de suas vítimas enquanto gera êxtase, causando dois meses de prazer nos três segundos em que o cérebro se liquefaz. Claro, isto em um mero mortal, mas meros mortais nunca são levados a esta parte do Bazar.”

Ele se aproximou da gaiola com curiosidade. Mais uma vez precisei me esforçar para esconder minha verdadeira reação, mas desta vez foi para conter o entusiasmo e orgulho de ter satisfeito mais um patrono.

O Devorador abriu o container da entidade e esticou um de seus braços, incentivando a criatura a tentar se alimentar. O Carrasco de Lemuria estava visualmente agitado, voando em círculos pela gaiola enquanto seus fios-apêndices se agitavam como se houvesse um furacão no cômodo. Por fim chegou ao Devorador e observou o braço erguido por um segundo, antes de perder o interesse e voltar aos seus afazeres.

“Aparentemente é preciso ter neurônios para isto funcionar.” Ele disse, então levantou o que eu imaginava ser seu pé, e esmagou a gaiola, deixando uma pequena cratera onde antes estava. “Apenas o melhor serviço possível, eu posso ver.”

Eu devia ter pensado nisto.

Aquele item seria um pouco mais difícil de recuperar, especialmente por que o único outro pedaço do Carrasco estava guardado em um laboratório na Europa, mas mantive a calma e considerei aquele incidente culpa minha.

Para compensar por aquele momento embaraçoso e perda de outros recursos, resolvi pular mais algumas salas e ir diretamente ao que acreditava ser a atração perfeita para ele.

Nós chegamos á câmara noventa e sete, fechada por duas portas de prata de dois metros de altura, com uma luz branca intensa escapando por suas frestas.

“Veja a Sala do Amanhecer, onde permitimos que nossos patronos mais importantes possam ter intimidade com as próprias estrelas do universo.” Abri uma das portas com um puxão e me escondi atrás dela, pois nem mesmo o senhor do bazar é capaz de aguentar ficar perto daquela câmara. A sala foi inundada por luz, calor e radiação cósmica. “Nós não apenas simulamos a visão de uma estrela, mas permitimos que entre em contato direto com o astro. Abrace, beije, cheira, sinta, respire, consuma e experiencie o próprio universo com todos os seus sentidos.”

Para minha surpresa a porta se fechou com um golpe.

O Devorador de Estrelas me ergueu pelo pescoço e me bateu contra a porta, deformando a prata.

“Isto é uma piada?” o Devorador De Estrelas não gritou, mas eu podia sentir sua voz ecoando e abalando as paredes do Bazar.  “Era após era este grão de poeira me manteve preso e longe de minha refeição. Era após era eu passei tentando encontrar algum prazer que substituísse o sabor de um sol, assumindo formas menores para conseguir um mínimo de satisfação, e agora zombam de mim com uma cópia insípida? Eu vou desmontar esta loja, átomo por átomo, seu povo será exterminado até a última alma, e não sobrará um único indivíduo para continuar o ciclo do apocalipse. Era após era este local se manterá vazio e sem vida, um cemitério causado por você.”

Naquele momento minha coluna estava esmagada, assim como meu crânio, costelas e traqueia. Contato direto com o Devorador não só queimou músculos, mas também consumiu parte de minha alma, que só sobreviveu pela minha natureza e as várias camadas que a formavam.

Mas foi a ameaça á loja que realmente me irritou.

“Nós ainda temos uma atração feita justamente para você, apenas me deixe mostra-la antes que tome qualquer decisão precipitada” Falei, ignorando o dano em minha garganta, e com a claridade mental que só se alcança nos momentos de raiva mais intensa. Com o braço direito, tremendo pela dor intensa, apontei a bengala para uma sala aleatória próxima. “Algo que você e nenhum outro imortal na terra jamais experimentaram. Algo que vai saciar sua fome para sempre.”

O braço me soltou, deixando meu corpo cair ao chão onde passei alguns minutos recompondo tanto a dignidade quanto a capacidade de ficar de pé.

“Última. Chance.” Ele disse. Como resposta, acenei para que fosse em frente, enquanto me esforçava para me levantar e o seguir.

“Diga, todos os nossos experimentos até agora consistiram de estimular os sentidos, mas alguma vez já tentou algo que os bloqueasse?”

“Câmaras de bloqueio sensorial, meditação, venenos e passeios pelo abismo do mar…”

“Eu tinha algo mais absoluto em mente.”

“Por milhões de anos caminhei pelo vazio do universo, em locais de frio absoluto nunca alcançado por luzes de estrelas.”

“Pense em algo ainda mais absoluto! Afinal onde quer que você vá, lá está você. Não pense estar sozinho com seus pensamentos, mas sozinho sem eles: sem nenhuma alucinação, sonho, lembrança ou lembrança de sua própria existência.”

Ele parou em frente á sala e permaneceu imóvel por alguns segundos. Sua expressão, caso realmente existisse, era ilegível, mas eu sabia que estava tentando entender a ideia do vazio absoluto. Poucas entidades sabiam pessoalmente como isto era, e alguém pequeno como o Devorador de Estrelas definitivamente não era uma delas.

“Você atraiu minha curiosidade, mostre onde se encontra este mistério.”

“Muito bem.” Eu disse com um sorriso triunfante, tirei o revolver do casaco e atirei em sua nuca.

Todos os as partes do seu ser se desfizeram em poeira cósmica, e todos os grãos de poeira queimaram em um flash de fogo primordial. Não sobrou nenhum rastro da existência do devorador de estrelas ou da bala que o matou.

Apenas o melhor serviço possível.