Publicação Oficial do Engenheiro Real

2018 começou um ano quieto para mim e a colmeia, sem nenhum novo conto ou atualização de nossos projetos maiores durante todo o primeiro semestre, mas o silêncio acabou e agora posso mostrar o que têm consumido meu foco este tempo todo:

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Lua Negra Sobre Trilhos Vermelhos é uma história de aventura e mistério na nação de Siril, um mundo fantástico semelhante à nossa revolução industrial, onde máquinas são movidas por vapor e engrenagem, onde uma aristocracia sobrenatural governa a humanidade e criaturas sombrias assombram a noite. 

Nós acompanhamos um caso de Samuel Ludovic o Engenheiro Real, um agente incumbido de investigar os mistérios da ciência e enfrentar ameaças de natureza tecnológica contra Siril. Acompanhado de sua fiel parceira Anabel, veterana das tropas aladas, ele terá de investigar o roubo de uma fórmula secreta a bordo do Expresso 32. Uma fórmula capaz de tornar até os puros de coração em monstros sanguinolentos.

Samuel terá de usar todo o seu intelecto, inventividade e a ajuda de seus poucos aliados para desvendar o mistério, encontrar a fórmula e derrotar um inimigo ardiloso, tudo enquanto qualquer passageiro pode estar infectado com a fórmula. 

A história será publicada em Setembro de 2018 pela Editora Portal. Mais notícias e detalhes serão postados aqui na colmeia.

Veja também Um Concerto de Canhões, uma aventura do Engenheiro Real Grant Ludovic em uma batalha pela defesa de sua nação.

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O Engenheiro Real – Um Concerto de Canhões

“Podemos dizer que minha alma é uma peça de quebra-cabeça. Eu sou incapaz de encontrar satisfação enquanto não tiver uma imagem maior para completar.”     

-Niels Vic, Primeiro Engenheiro Real

 

A máquina cantava uma música de destruição.

O som das engrenagens, explosões, carvão queimando e o bater de pistões era ensurdecedor. Mas para Grant Ludovic, engenheiro real que entendia a função de cada peça daquele engenho, aquilo era a mais sublime das músicas.

Para os soldados no campo de batalha abaixo, aquele era o som da morte caindo sobre o inimigo.

A máquina era semelhante á uma tartaruga. Composta de um grande corpo de metal dourado sustentado por quatro pernas metálicas, com que podia se mover lentamente quando necessário. Um grande canhão surgia de sua dianteira, atirando projéteis com a força da caldeira que queimava na traseira. Uma chaminé exalava fumaça constantemente de seu topo.

No corpo dela estava um nome escrito em letras prateadas: Salamandra.

Grant se sentava em um banco de madeira ao lado da Salamandra, onde olhava periodicamente para seu relógio de bolso ao mesmo tempo em que ouvia atentamente aos seus mecanismos, tentando organizar mentalmente os movimentos de cada peça e seu ritmo, como se tudo fosse uma valsa mecânica. Ele se permitiu uma pausa para observar o campo de batalha.

Na distância, além do alcance de qualquer rifle, soldados guerreavam pelo caminho estreito no fundo do desfiladeiro. De um lado da passagem estavam homens de uniforme rubro, o exército real de Siril, esperando em posição até que algum inimigo chegasse ao alcance de suas armas. Do outro estavam as forças ainda mais numerosas do império Borandês, que corriam desesperadamente esperando sobreviver o caminho até o outro lado.

Poucos conseguiam. Os corredores eram mortos em quase todas as tentativas, vítimas dos disparos das máquinas de guerra acima. Corpos, destroços e poeira eram arremessados violentamente pelo impacto de bolas de ferro. Poucos sobreviventes restavam, estes feridos demais para lutar.

Grupos ocasionais conseguiam passar pelos tiros, apenas para serem mortos imediatamente pelas forças reais. Alguns soldados Borandêses tentavam recuar antes de sequer chegarem ao alcance da artilharia, apenas para serem mortos imediatamente por seu próprio exército. O império não perdoava falhas na disciplina.

-“Vão para a Garganta de Jorumiel, é um bom lugar para testar as novas armas”. – Grunhiu um homem próximo de Grant, um indivíduo alto de membros grossos que jogava carvão na fornalha com uma grande pá, coberto das botas á careca por fuligem. Uma barba negra e grossa como um arbusto cobria metade de seu rosto – Só algumas escaramuças acontecem lá, nada de importante”. Pois bem, agora metade do maldito império quer nos matar para passar aqui.

-Calma, Silas, era improvável que o imperador invadisse pelo norte, é um caminho longo e estreito demais para uma invasão prática. – Disse um homem na lateral da Salamandra, em um assento de metal conectado á uma série de alavancas e medidores, sem tirar o olho da luneta com a qual assistia a batalha e fazia as medidas necessárias.  Era uma pessoa alta e magrela, de membros finos e um bigode cuidadosamente penteado sob seu nariz. –É injusto esperar que nosso general previsse esta ação.

-É exatamente disso que estou reclamando, Sinclair. Do que adianta uma centena de espiões e videntes se não podemos prever uma maldita invasão? – Respondeu Silas.

Grant, por sua vez, decidiu não participar da discussão. O que sua majestade e seus conselheiros conseguiam prever não tinha importância, apenas o bom funcionamento de sua máquina.

Ele continuou a observar o campo de batalha, onde os Borandêses enviavam pequenos grupos de cavalaria: Homens de amarelo montados em grandes e ferozes répteis, forças mais velozes que pudessem talvez atravessar a área de morte sem grandes perdas. Os cavaleiros se moviam em ziguezague, tornando seus movimentos mais imprevisíveis para os atiradores, e mantinham maior distância entre si para evitar o impacto dos canhões.

-Eles mudaram o padrão de movimento. Use a terceira munição. – Disse Sinclair.

Silas largou a pá e correu em direção á uma pilha de sacos cor de areia, todos contendo bolas de ferro do tamanho de sua cabeça. Ele arrastou um saco marcado com o número três até a Salamandra e começou a lhe inserir munição.

Sinclair esperou seu colega terminar e puxou uma alavanca pintada de vermelho. A Salamandra voltou a atirar.

Alguns soldados Borandêses já chegavam ás forças reais, de onde começaram a atacar com suas espadas enquanto suas montarias rasgavam com dentes e garras. O resto da cavalaria se aproximava logo atrás.

O primeiro tiro atingiu o chão e se partiu em centenas de estilhaços, uma chuva de metal afiado que se espalhou e atingiu alguns cavaleiros, perfurando seus corpos repetidamente como se fossem esfaqueados por uma multidão.

Os répteis foram protegidos dos estilhaços por suas grossas couraças. Sem ninguém para lhes controlar, as bestas fugiram ou continuaram avançando contra o exército real, até que alguma baioneta encontrasse a parte macia de suas escamas.

Com avanço impedido, houve mais uma pausa na batalha. Os comandantes do império decidiam o que fazer enquanto o exército real esperava.

-Tudo sob controle. – Disse Grant antes de voltar sua atenção ao relógio. Os três engenheiros se encontravam em um acampamento, no alto de uma parede do desfiladeiro. Vestidos com uniforme marrom simplista dos engenheiros reais, equipados com ferramentas e pistolas de dois canos para emergências.

Do outro lado da passagem surgia a fumaça negra de duas outras máquinas, que embora mais distantes do campo de batalha também eram parte essencial do confronto.

Grant esperava que os outros engenheiros mantivessem as armas em bom funcionamento, mas não sabia o quanto desta preocupação era por patriotismo e o quanto era afeição por suas criações mecânicas.

-Sim, atrasamos nossas mortes por uma hora. Pelo menos uma pausa para bebida. – Silas falou logo antes de tirar um cantil de trás da cintura.

-Não seja pessimista. – Respondeu Sinclair. – Esse é um bom ponto defensivo, uma passagem que nega a vantagem numérica deles. Basta continuarmos como estamos e logo receberemos reforços. As forças aladas não devem estar muito longe.

-Ou os bruxos deles vão invocar um dragão ou alguma bobagem do tipo, matar todos nós e depois queimar toda Siril. Eles sempre arranjam um truque sujo desses na última hora. – Silas falou logo antes de beber do cantil. – Sorte que não tenho família para ver isso.

-Eu tenho três filhas me esperando lá em casa. Desculpe se não posso usufruir do mesmo cinismo que você.

Silas deu um longo gole, fechou o cantil e limpou o suor de sua testa antes de se virar para Grant. – E você engenheiro, tem alguém te esperando?

-Esposa e filho. – Grant disse sem perder o foco.

-Que surpresa. – Silas grunhiu. – Me pergunto se também são feitos de metal.

-Muito bem senhores, espero que tenham aproveitado a pausa por que o dever nos chama. – Sinclair ajustava a lente de sua luneta. – Estou vendo o império reunindo mais cavaleiros para outro ataque.

Silas guardou o cantil e voltou á pilha de munição enquanto Sinclair ajustava alavancas. Grant continuou a contar o tempo.

Os braços do relógio se moviam enquanto a arma era recarregada: Engrenagens giravam, pistões batiam e a carvão queimava. No meio de tudo, da melodia de ferro, Grant Ludovic ouviu algo diferente.

Havia uma falha na valsa.

Ele esperou mais um pouco, a menor seta do relógio de um quarto de volta e falha voltou: Um barulho quase imperceptível entre tanto sons, mas arrastado e fino, como o arranhar de um quadro negro.

Grant esperou ainda mais, se recusando a tomar decisões sem ter certeza dos fatos. Desta vez um quarto de voltar sequer havia passado quando o ruído voltou. Ele olhou atentamente para a Salamandra e seus companheiros, que não pareciam ter notado a anomalia.

Grant se levantou de seu banco e correu em aos colegas. – Parem, há um ruído no mecanismo! Pare ela agora! – Ele gritou. Os dois olharam confusos para ele.

-Desculpe Grant, mas a cavalaria está avançando. Não podemos parar agora. – Sinclair gritou de volta, continuando a ajustar a mira do canhão. – Deixe o perfeccionismo para quando estiverem mortos.

Grant Ludovic ouviu novamente o som alienígena dentro de sua criação. Ele sabia que o intervalo entre os sons estava diminuindo gradualmente, e que discutir com Sinclair gastaria tempo precioso.

Grant saltou para a esquerda do canhão, onde estavam várias alavancas que conhecia perfeitamente, e puxou a alavanca de emergência com toda sua força.

Engrenagens rangeram e vapor encheu os canos enquanto a máquina lutava para se manter ativa.

Silas se jogou ao chão para escapar de um jato de vapor vindo da caldeira, enquanto Sinclair tentava descer de seu assento e impedir Grant, com dificuldade para abrir os cintos que o prendiam.

E então a Salamandra parou. O estalar da caldeira era o único som restante.

Imediatamente Grant retirou uma chave de seu cinto e abriu uma placa da máquina. Segundos depois ele já operava as peças internas com as mãos e ferramentas de seu cinto.

Sinclair, vendo que o seu colega já mexia em mecanismos essenciais, desistiu de impedi-lo, com medo de danificar aquela arma tão importante. Tudo que podia fazer era observar a batalha de seu assento, incapaz de interferir de qualquer maneira.

O exército Borandês estava parado, esperando por algum sinal, mas um de seus esquadrões de cavalaria já atacava o exército real.

As bestas escamosas agarravam homens de vermelho com seus dentes serrilhados, antes de jogar seus corpos destroçados para longe, enquanto seus cavaleiros atacavam com pistolas e espadas.

Dentre as forças reais surgiram soldados de casacos amarelos e armados com grandes varas de metal, em direção á cavalaria Borandêsa. Eles ajustaram pequenas válvulas de suas armas. Linhas brancas e brilhantes surgiram através das varas.

Sinclair reconheceu a energia do Vril, o poder que apenas a aristocracia de Siril conseguia controlar. Ele estava surpreso de haverem soldados da realeza naquele ponto isolado do reino, mesmo que apenas cavaleiros menores.

Os soldados de amarelo fizeram gestos bruscos com suas armas. O ar á frente deles vibrou e brilhou por um instante. Os grandes répteis, criaturas do tamanho de rinocerontes, foram derrubados para trás como folhas assopradas pelo vento.

Alguns cavaleiros Borandêses foram esmagados pelo peso de suas montarias. Os sobreviventes foram rapidamente eliminados pelos por tiros de rifles.

Quando os disparos acabaram, fumaça de inúmeros disparos se dissipava no ar e sangue escorria pela terra. O desfiladeiro ficaria quieto por alguns minutos.

Sinclair sentiu alívio, assegurado de que apesar da desvantagem os soldados de Siril podiam cuidar de si mesmos. Os comandantes Borandêses pareciam ter desistido de atravessar o desfiladeiro.

Ele olhou para a fumaça distante das duas outras máquinas de guerra, que por algum motivo se recusaram a agir contra o último avanço inimigo. Sinclair imaginou se esperavam a Salamandra atirar primeiro para seguir o exemplo, talvez interpretando a falta de ação dela como um sinal para fazerem o mesmo.

Daqueles dois pontos vieram duas explosões.

Um estrondo ecoou por todo o local. Nuvens de poeira surgiram do outro lado da passagem, altas o bastante para todos no desfiladeiro verem. Estilhaços de metal começaram a cair ao redor da Salamandra.

Recebendo o seu sinal desejado, todos os soldados do império correram pela passagem, levantando espadas e armas de fogo. O campo árido que separava os dois exércitos se encheu de soldados e bestas.

Uma onda de pânico quase tomou as forças reais, mas seus soldados se recuperaram e mantiveram posição á tempo do ataque inimigo.

Sinclair viu as duas forças se chocando, soldados caindo ao chão e homens sendo dilacerados por grandes répteis, alguns largando armas quebradas para utilizar seus próprios punhos enquanto outros improvisavam com os pedaços que sobravam. Flashes de luz e tiros ocorriam de todas as direções. Fumaça de pólvora e poeira começava a cobrir a luta.

Homens de amarelo usavam o poder do Vril contra os Borandêses. Soldados foram arremessados ao longe contra paredes e outras pessoas, flashes de energia fulminavam corpos com a força de relâmpagos, e um homem mais velho podia ser visto explodindo balas de inimigos dentro de suas próprias armas.

Mas os números Borandêses eram grandes e sua ferocidade sem fim. Eles avançavam como um rio, pisoteando sobre os corpos de aliados caídos.

Pouco a pouco as forças reais recuaram, enquanto as perdas inimigas eram substituídas por numerosos reforços.

O caos não parecia afetar Grant Ludovic, ocupado demais inspecionando o mecanismo complexo da Salamandra. Ele tentava ver o funcionamento de todas as peças em sua mente para encontrar o problema: O vapor percorria os canos, movendo pistões e engrenagens, que então moviam engrenagens adjacentes conectadas por dentes bem oleado, e logo todas as peças se moveriam ao mesmo tempo como duplas dançando em um grande salão. A valsa moveria as correntes que puxariam a bala de canhão e…

Grant encontrou o passo em falso que arruinava a dança. Ele colocou seu braço dentro da Salamandra e, com um pouco de tempo e força, conseguiu retirar uma pequena engrenagem.

Ele podia ver a ferrugem no o centro dela. A mancha vermelha se alastrava pelo metal como óleo derramado, consumindo e enfraquecendo a peça.  Um pouco mais de esforço e ela se quebraria em pedaços, causando um mau funcionamento que resultaria numa explosão mortal.

Ele abriu uma caixa de madeira por perto, repleta de centenas de peças sobressalentes. Após encontrar a engrenagem certa, ele retirou algumas ferramentas de seu cinto e voltou á Salamandra.

Sinclair continuava a observar a guerra, sua mente sendo tomada por desespero. Apesar de apenas minutos terem se passado, ele já podia ver a derrota das forças reais. Não seria uma perda imediata, os soldados de rubro iriam defender a passagem enquanto pudessem, mostrariam bravura e eficácia, mas logo a horda Borandêsa venceria a batalha. E então a guerra.

Os pensamentos foram interrompidos quando algo atingiu suas costas. Ele olhou para trás, vendo a Salamandra montada novamente e Grant fazendo um sinal para voltarem ao trabalho. Grant fez o mesmo sinal para Silas, que pegou sua pá e voltou a jogar carvão na caldeira, antes de empurrar a alavanca de emergência e se afastar.

Em poucos instantes a Salamandra voltava a funcionar. Os componentes participantes voltaram á suas posições e aos seus passos, e ao som da caldeira a dança continuou.

Sinclair teve de se acalmar um pouco antes de voltar a trabalhar. Ele não sabia se valeria a pena.

Silas colocou a bola de ferro dentro do mecanismo. Puxando e girando as peças, Sinclair mudou a posição do canhão para acertar o ponto calculado.

A bola foi lançada para cima com um estrondo antes de cortar o ar com um assovio. Ela subiu em um grande arco e desceu com violência, cada vez mais rápida, para então atingir o campo de batalha.

Tanto terra quanto soldados foram arremessados para longe. Uma nuvem de poeira cobriu os soldados imperiais, confusão e pânico se espalharam entre os combatentes e seus comandantes, que não esperavam a presença da Salamandra.

Eles tiveram pouco tempo para reagir antes que mais projeteis os atingissem, esmagando crânios e armaduras.

A arma foi mirada na cavalaria que, cercada de todos os lados em um espaço tão pequeno, não tinha caminho para fugir. O primeiro réptil foi atingido, suas escamas não foram o bastante para protegê-lo de uma bola de ferro sólida. Os outros simplesmente correram para trás, atropelando e ferindo todos os aliados em seu caminho.

O pânico foi total, e os soldados Borandêses tentaram recuar desesperadamente. Alguns comandantes atiraram em seus próprios soldados para intimidar o resto á continuar lutando, mas eles simplesmente foram esmagados pela massa desenfreada.

Indiferente á carnificina, Grant investigava a peça de metal enferrujado em suas mãos, que começava a se desfazer em poeira vermelha.

Para seu desgosto, ele conclui que aquilo era de origem sobrenatural. Grant nunca gastou tempo ou atenção estudando forças metafísicas, seja á força do Vril, os mistérios ocultistas de Borândel ou a qualquer outra arte indisponível á espécie humana. Mas ele sabia que aquilo era sabotagem de um feiticeiro inimigo.

Infelizmente, Grant não tinha idéia do que fazer quanto aquilo. Ele apenas jogou a peça sabotada para longe e continuou a observar o trabalho de seus colegas, esperando encontrar algo a mais fora do comum antes de outros desastre.

-As forças imperiais recuaram mais uma vez. Nós impedimos o avanço. – Gritou Sinclair. – Foi por pouco, meus companheiros, mas conseguimos impedir outro avanço.

-Agora só temos de fazer o triplo do trabalho. – Silas respondeu.

Silas tentou falar mais algo, quando a lateral de sua cabeça explodiu em pedaços.

Seu corpo caiu ao chão com força o bastante para levantar poeira. Seu sangue se derramava por terra e fuligem.

O assassino surgiu logo em seguida, um homem de uniforme negro e vermelho armado com um rifle exalando fumaça. Seu rosto era coberto por uma máscara vermelha de um rosto demoníaco, com dentes afiados como agulhas. Um bruxo Borandês.

Dois outros bruxos apareceram atrás do primeiro, surgindo do nada como miragens no deserto.

Sinclair retirou a pistola de dois canos de seu cinto e a apontou para os atacantes. Uma bala atingiu seu ombro no momento em que apertava o gatilho. Seu tiro acertou apenas terra.

Ele caiu para trás, sua bota ficou presa ao assento e logo se encontrou pendurado á Salamandra.

Os três bruxos se aproximavam. Dois recarregavam seus rifles, o terceiro mirava em Sinclair. As penas de seus braços se eriçavam de entusiasmo.

Sinclair girou repentinamente de onde estava, se virando de frente para seus inimigos, mesmo que de cabeça para baixo. Ele respirou fundo, mirou sua pistola e deu seu segundo tiro.

Um bruxo foi atingido, sangue e penas voaram pelo ar enquanto ele caia. Sinclair se surpreendeu de ter acertado um disparo tão improvável, logo antes de perceber o terceiro bruxo apertando o gatilho.

O rifle disparou. Pólvora explodiu. A sorte de Sinclair terminou.

Grant, de habilidades limitadas em todas as formas de combate conhecidas, correu para a Salamandra, esperando que o grande objeto de metal servisse de cobertura. O corpo de Sinclair pendia ao seu lado, ainda preso ao assento. Ele ignorou a imagem macabro e se focou em sua própria sobrevivência.

Os bruxos Borandêses riam enquanto se aproximavam, um som como o cacarejo de um galo. Grant imaginava o sorriso debaixo de suas máscaras enquanto se aproximavam de sua ultima e indefesa vítima.

Ele não sabia quais truques eles tinham, mas conclui que independente de sua feitiçaria, ainda precisavam de rifles para lutar. Havia uma pistola de dois canos em seu cinto, uma arma que nunca havia usado e com que dificilmente mataria um atacante, muito menos dois.

Grant Ludovic se lembrou da arma que sabia usar perfeitamente.

Rapidamente ele escalou o assento da Salamandra em direção aos seus controles. Os bruxos o viram se movendo e miraram suas armas.

Grant apontou a pistola para a direção deles e apertou os dois gatilhos. Os Borandêses se abaixaram momentaneamente sob o estrondo dos tiros e a explosão de fumaça.

Os tiros acertaram locais completamente irrelevantes enquanto ele chegava aos controles, imediatamente movendo alavancas e manivelas.

A Salamandra se virou e abaixou seu canhão. Sua forma pairou sobre os bruxos como um predador sobre um coelho, seus mecanismos formando um rugido infernal de fogo e metal.

Os Borandêses apontaram suas armas em pânico e atiraram. As balas acertaram grossas placas de ferro sem qualquer efeito.

Grant Ludovic puxou a alavanca vermelha e causou destruição.

O disparo acertou o solo logo a frente. Grandes pedaços de terra foram arrancados para o alto. O impacto consumiu bruxos, pilhas de carvão e munição. O estrondo foi ouvido por todas as forças ao redor.

Grant foi cego pela nuvem de poeira que seguiu. Ele tentava proteger seu rosto com o braço quando um detrito acertou sua cabeça e o derrubou. A Salamandra em si resistiu imóvel á tudo, sobre suas quatro patas de metal.

Quando a poeira se abaixou Grant se encontrou deitado na terra, sem saber quanto tempo passara, saindo e voltando á consciência. Os pensamentos vinham lentamente para sua mente antes tão ágil, e não tinha certeza do que era verdade ou alucinação. Ele se lembrava vagamente de um bruxo de pernas quebradas se arrastar para perto e tentar lhe estrangular, antes de ter a cabeça quebrada com um golpe de chave-inglesa.

Quando a clareza retornou ao seu cérebro ele continuou deitado, indiferente ao sol que batia em seu rosto.

Trombetas imperiais soaram ao longe. Os comandantes Borandêses reuniam suas forças para outro ataque, acreditando que o exército real perdera sua última peça de artilharia.

Grant sabia que podia manusear a Salamandra por conta própria e continuar lutando. Seria uma tarefa exaustiva, lenta e pouco efetiva sem a ajuda de uma equipe treinada, mas possível.

Ele se perguntou se valeria a pena.

Apenas uma máquina sem grupo de artilharia podia não ser o suficiente para defender a passagem, ou o império poderia simplesmente enviar mais assassinos contra a Salamandra. Talvez a perda do desfiladeiro fosse inevitável, com império estava destinado á conquistar toda Siril antes que as tropas reais pudessem reagir á invasão do norte. Grant pensou em fugir para casa, de onde levaria sua família para longe do alcance Borandês.

Um barulho chamou sua atenção: A Salamandra continuava seus ruídos. Os pistões, as engrenagens, o fogo e a fumaça, todos continuavam sua dança tecnológica, esperando para dar seu próximo passo catastrófico.

-Tem razão. – Ele disse.

Grant se levantou, limpou seu uniforme, se aproximou da Salamandra, pegou a pá no chão e jogou mais carvão na caldeira.

O fogo queimou intensamente. Os soldados abaixo voltavam a batalhar. O desfiladeiro foi contestado mais uma vez. Ele voltou ao assento das alavancas e se juntou á dança.

-Tudo sob controle. – Disse Grant Ludovic.

 

 

 

 

 

Através do Éter – O Uivar do Vento

“Acabamos de confirmar: Madame Octavius está oferecendo seu Cassino como abrigo para todos que precisarem. Com a tempestade cada vez pior, urgimos que procure por um lo… a. priado como refúgio. Busque más… de gás, pro… ja su… nelas e…”

-A Voz De Nova Glória

 

As tropas da Lampreia esperavam em fila, prontas para adentrar a tormenta.

Homens e mulheres, vestidos com uniformes negros sobre armaduras de Argila, protegidos contra frio e bala. Cada um levava um rifle em mãos, uma faca num lado da cintura e uma pistola no outro. Nos bolsos de seus cintos levavam suprimentos vitais para a missão á frente, de tubos de munição á agulhas e bandagens. Máscaras de gás cobriam seus rostos.

Trinta soldados a postos no convés mais baixo da Lampreia. Seis equipes treinadas e armadas. Um pequeno exército para encontrar um único indivíduo em uma cidade desprotegida.

Elijah Tanoya andava entre as fileiras, protegido por manto e armado com o marfim de seu cajado.

-Vocês foram instruídos e suas ordens são claras. – Ele gritava para as forças sem face. Sua voz era a única no navio. – Mas vocês andarão sobre a sombra de um Titã, onde qualquer aparelho pode se tornar uma armadilha mortal e um furacão pode nascer da menor brisa. Quando Teriapolis chegar, vocês saberão, pois mesmo no caos mais profundo sua presença é sentida. Quando então deverão manter distância; Os titãs não têm malícia contra nós mortais, mas se achar que estão em seu caminho não haverá nada neste universo que possa lhes salvar.

-Vocês sabem o protocolo para esta situação: Fiquem longe do titã, reportem sua posição por rádio e esperem até ele ir pastar em outro local. – Disse um homem que descia pelas escadas até o convés. Ele se vestia como todos os soldados, exceto pelo quepe sobre seus cabelos brancos e o sabre negro e dourado em sua cintura. – Titãs acima, Tanoya, agora não é hora de botar medo em meus homens. Este trabalho é meu.

-Capitão Tibério, você sabe que nestas situações a confiança é uma assassina insídia. – Elijah Tanoya respondeu, se aproximando do capitão da Lampreia. –Estarei fazendo um favor a todos aqui se ficarem enchê-los com um pouco de paranóia e medo.

-Na minha experiência, paranóia sem foco ou controle serve apenas para distrair. Mas temos de marcar nosso debate de filosofia para depois: Os radares detectaram anomalias na Corrente 32. Você deve saber o que isto significa.

-Ele está chegando. – Tanoya sussurrou, com um olhar assombrado e apertando o cajado entre suas mãos.

-Hora de levantar e ir pro trabalho. – Capitão Tibério se virou para as tropas e gritou. – Batedores, a postos.

Um esquadrão de se destacou do grupo e se posicionou em frente á Tibério.  Cinco soldados semelhantes ao resto, mas portando fuzis de precisão equipados de lunetas, e vestindo mantos de camuflagem coloridos em uma mistura caótica de manchas pretas, brancas e todos os tons de cinza no ínterim.

-Cinco minutos para chegarmos á superfície. – Tibério continuou a gritar, garantindo que sua voz fosse ouvida entre o som de trovões e maquinários. – Vocês têm suas instruções: Fazer reconhecimento da área, passar detalhes para o cartógrafo por rádio, estabelecer perímetro e não serem pisados por um Titã. Alguma dúvida? – Ele esperou alguns segundos, encarando cada batedor, procurando por sinais de dúvida e desespero. – Ótimo. Fiquem prontos.

Capitão Tibério observou enquanto o esquadrão de batedores se dirigia para a parede, se posicionando e se organizando em completo silêncio.

-Posso ter uma palavra com você? – Ele comentou em voz baixa para Tanoya, sem deixar de vigiar o andamento de seus soldados.

-Sei que está preocupado, capitão. – Tanoya respondeu. – Mas esta não é minha primeira vez no campo de batalha. Lembre-se que participei da Guerra de Todas as Bandeiras, eu lutei e matei em nome da lula caolha. Mesmo me vestindo como um mago de uma peça de teatro, eu também sou um soldado veterano e sei como me manter vivo.

Um abalo fez o navio tremer por alguns momentos, sinal de que deixava a segurança do Éter e entrava na atmosfera do Porto-Lunar. O local se encheu com o som de trovão e ventania. A madeira rangia enquanto a embarcação se arrastava pelo ar, onde navios etéreos não eram tão ágeis quanto no grande vazio.

-Você não estava dizendo agora a pouco que confiança matava? – Disse Tibério.

-Eu não sinto confiança, mas também não sinto pânico. Apenas quero que saiba que não serei um peso morto lá em baixo.

-Bom saber,mas não é você que me preocupa. É algo que você disse para o mensageiro, sobre… – Tibério parou. Mesmo sob sua máscara, o seu desconforto era notável. – …Sobre as suas visões do futuro.

-Não é possível prever o futuro, capitão. – Tanoya falou com a confiança e autoridade de um profeta. – Ele não é uma ilha distante a ser espiada por luneta. Ele é uma maré que ainda se forma. Tudo o que faço é sentir a água se movendo entre meus pés e tentar adivinhar de onde vem a próxima onda.

-Certo. – A máscara de Tibério chiou enquanto suspirava irritado. – Uma hora atrás você molhou o dedão e disse o que sentiu para o mensageiro. Sobre palácios rachados e homens de muitos ângulos.

-Sim. A vastidão do Éter sendo interpretada pela mente mortal em metáforas.  O que te perturbou?

-Uma dessas metáforas foi o Jardineiro Sangrento.

-É certamente um nome agourento. Acha que sabe o que poderia significar?

-Bem, na época que você lutava sob a bandeira negra eu ainda usava o colete de ferro. – Tibério começou a explicar. – Nos Filhos de Ares eles usavam qualquer soldado que sobrevivesse mais de uma batalha em uma peça de propaganda. Até eu já tive meu rosto impresso em cartazes motivacionais na base. E então havia o Jardineiro Vermelho.

Tanoya escutou quieto, olhando para o ar enquanto apertava o marfim do cajado.

-Ele era uma figura famosa. – Tibério continuou. – Mais do que eu ou qualquer um que não fosse das tropas de elite, mas nenhum de nós sabia quem era ele. Só o pessoal do serviço secreto e os generais sabiam. Nós só recebíamos os relatos oficiais que o pessoal lá de cima achava ser útil para a moral: O único sobrevivente da batalha de Porto Andrômeda; Aquele que assassinou o general inimigo em um planeta tomado por forças inimigas, e conseguiu voltar sozinho para o Porto aliado mais próximo; Alguém que descobriu e então matou uma tropa prestes a desertar, e uma dúzia de outros casos. O agente secreto mais eficaz e mortal que serviu á bandeira vermelha.

-Acha que este Jardineiro Vermelho estará lá embaixo? – Elijah perguntou, olhar ainda perdido no vazio do teto.

-Eu vou ser honesto, até uma hora atrás achava que ele não existia. E talvez continue não existindo, metáforas espirituais contadas por um mago á beira da morte podem ser imprecisas. – Tibério pigarreou antes de continuar. – Mas eu também ouvi histórias sobre você, Tanoya. Eu sei que suas visões têm um pedaço vital de verdade em algum canto. Não acredito que tenha um super-assassino esperando por vocês, mas não ficaria surpreso se os Filhos de Ares tiverem alguma presença nessa lua. Talvez Nova Glória não seja tão indefesa quanto esperávamos.

-Hm. – Tanoya grunhiu pensativo. – Ainda não é o suficiente para mudarmos nossos planos, mas vou manter isso em mente.

O navio parou, ainda tremendo sob a força dos ventos, mas sua descida chegou ao fim. Motores se ligaram e engrenagens se moveram enquanto uma das paredes se abriu, dando passagem para o lado de fora.

A tempestade invadiu o interior, molhando todos perto da abertura e assoprando as poucas coisas que não estavam devidamente presas. Do lado de fora havia uma coluna inscrita com Runas de Sol, iluminando os poucos prédios no limite entre Nova Glória e o resto da lua. Um a um os batedores desceram, se movendo para posições defensivas no momento que suas botas tocavam o chão.

-Esta é minha deixa. Os batedores irão guiar o resto, mas eu terei de guiá-los. – Tanoya falou, voltando a focar seus olhos para o que havia á frente.

-Vou coordenar a operação lá de cima enquanto vocês morrem lá fora. – Tibério respondeu, com um tom forçado de bom humor. – Boa sorte.

-Uma última coisa. Digamos que minhas visões sejam precisas, e que encontremos o Jardineiro Vermelho em pessoa…

-Então você achou algo mais perigoso que o Titã. – Disse capitão Tibério. – Enquanto nosso amigo lá em cima é poderoso, ele não dá a mínima para você. Se o Jardineiro existir, e ele perceber que você também existe, ele já vai saber como te matar e provavelmente terá todos os recursos para isso. Algum outro dia eu poderia tentar ensinar como lidar com ele, mas agora só posso dar um conselho.

Tanoya encarou o capitão, uma sobrancelha levantada em dúvida, esperando saber o resto.

– Não o deixe sequer tentar falar, dê um tiro na sua cabeça. Dois, para ter certeza.

 

*****

 

Jonas pensou no que falar que não faria Staunen atirar em sua cabeça.

Já fazia alguns segundos desde a figura misteriosa, que Jonas estava considerando ser Staunen, parar em frente á ele, dirigindo uma moto antiquada e de rosto oculto por um capacete negro. Nesse pouco espaço de tempo sua curiosidade havia dado lugar á frustração enquanto Staunen o encarava em silêncio.

O visitante então levantou uma mão, mostrando a palma vazia de sua luva de couro, e acenou gentilmente.

Jonas olhou confuso, mas imitou o mesmo gesto, com cuidado para não fazer movimentos bruscos que levassem á violência.

A figura levantou a lente de seu capacete, revelando um par de olhos verdes joviais.

-Ei Jonas, eu estava te procurando. – Ela disse com alegria, descendo da motocicleta e ajeitando o descanso do veículo. – Me desculpe a demora, eu meio que te esperei na tenda errada, e agora que te encontrei fiquei um pouco sem saber o que dizer.

-Antes de qualquer coisa, duas perguntas. – Disse Jonas. – Em primeiro lugar, você é Staunen?

-Ah, sim,claro, esqueci de me apresentar. – Ela falou. Agora de pé e fora da moto, podia-se ver que era uma pessoa pequena, uma cabeça abaixo de Jonas e com braços igualmente finos. – Meu nome é Ilsa Staunen. Fui eu que te mandei aquele bilhete e pedi para me encontrar aqui no mercado.

Jonas se conteve para não mostrar a surpresa e decepção. De todas as teorias que havia pensado para a identidade de Staunen, de um agente secreto misterioso ao próprio Lorde Pirata, não havia considerado a chance de ser simplesmente alguém com o mesmo sobrenome.

-Segunda pergunta: Você pretende me matar? Ou pelo menos me ameaçar de morte?

-O que? – Ilsa respondeu, balançando as mãos no ar em sinal de negação. – Não, não, não. De jeito nenhum. Eu quero sua ajuda para salvar Nova Glória, e não dá para fazer isso arrastando seu corpo por aí.

Jonas não percebeu sinais de mentiras, seja em sua voz ou linguagem corporal. Em tempos atrás ele teria exigido por mais provas, feito alguns testes sutis, mas naquele momento ele estava cansado de paranóia.

-Ótimo. – Jonas cruzou os braços e se apoiou contra o balcão á suas costas, onde a chuva não o alcançava. – Agora, explicações.

-Bom, eu tenho tanta coisa para falar e não sei como começar. Só um segundo… – Ilsa levou as mãos ao capacete e o retirou, revelando a juba de cabelos loiros que chegavam aos ombros e um rosto redondo cheio de sardas, uma face que trazia memórias vagas na memória de Jonas, como um sonho esquecido logo após acordar. – Eu já te falei meu nome, então a próxima parte seria…

-Que tal: Como me conhece, e como descobriu meu disfarce.

-Ah isso é simples. Eu ouvi sobre você no Açucareiro, enquanto investigava por lá. As pessoas estavam contando histórias sobre como você capturou o lorde pirata Baltazar no meio de seu esconderijo no cassino e então enfrentou sozinho toda a tripulação dele, só com uma espada e uma pistola.

-Exageraram um pouco. – Disse Jonas, se arrependendo de ter deixado aquelas histórias se espalharem. Ele não impediu que seus tripulantes ou Alice contassem sobre os eventos, considerando que ninguém acreditaria em casos improváveis contados por um viajante bêbado.

-Tanto que quase não acreditei nelas, mas de certa forma pareciam encaixar bem nas coisas que têm acontecido, o que me levou á procurar um pouco mais fundo. Andei falando um com o pessoal do cassino e até visitei Sub-Glória para ver se teve mesmo uma batalha ali, onde achei um monte de marcas de bala nas paredes e pessoal da Octavius limpando rastros. Foi aí que percebi que tudo era verdade e você era a pessoa certa para me ajudar.

-Entendo… – Jonas falou, se controlando para não mostrar a vergonha que sentia. Saber que deixara um rastro tão simples até ele foi como um tiro em seu ego, um erro que nunca teria sobrevivido em tempos passados. O porquê de a Octavius limpar a cena da batalha também era preocupante, mas ele decidiu que aquele era um problema para outro dia. – E como me encontrou?

-Eu vi você fugindo de alguns guardas e te reconheci.

-Eu estava disfarçado de mendigo, ninguém podia me reconhecer. – Ele respondeu irritado.

-E era um ótimo disfarce, mas desde que cheguei aqui insisti de conhecer os mendigos de Nova Glória, por que eles sempre são os que mais sabem segredos de uma cidade, e você não era um deles, mas eu meio que consegui reconhecer o formato do seu corpo e lembrei que você devia ser algum tipo de mestre golpista, o que explicava o disfarce. Foi aí que decidi te seguir um pouco e deixei aquele bilhete.

Jonas sentia raiva, principalmente de si mesmo, por ter sido pego por alguém no meio de um trabalho importante e por se sentir tão exposto

-E você também sabia qual era minha loja favorita. Provavelmente todo mundo no sistema sabe qual é minha fruta favorita. – Ele falou.

-Na verdade… – Ilsa começou. – Eu achava que era o alfaiate no outro lado do mercado, por isso a demora. Desculpe.

-Ótimo. Pelo menos um dos meus segredos está seguro, não tenho mais com que me preocupar. – Ele ergueu as mãos para o alto, imitando uma prece religiosa, antes de voltar á cruzar os braços. – Então você se deu ao trabalho de me procurar para “salvar Nova Glória”. Que perigo é esse que aparentemente ameaça a cidade inteira?

-O Titã Teriapolis veio até aqui para escolher seu próximo Arauto. – Ela falou apressadamente no momento em que Jonas perguntou.

Jonas a encarou com uma expressão de pura surpresa.

-Desculpe, mas… – Ele começou.

-E têm um navio pirata do Staunen pronto para invadir a cidade e capturar o Arauto. – Ilsa interrompeu.

Jonas continuou encarar, esperando que fosse apenas uma piada, mas o final da dela não veio. Havia um desespero nos olhos de Ilsa, uma suplica para que acreditassem na história impossível de uma completa estranha.

Ele esperou um pouco para se acalmar, se focando no som das gotas caindo ao redor. A última lâmpada do mercado estourou, restando apenas Runas de Sol como fonte de luz e deixando Nova Glória presa em uma noite sem estrelas.

-E como você sabe disso? – Jonas perguntou.

-Eu roubei papeis de um navio pirata, que estão lá na moto se precisar ver. O Staunen estava tentando prever quando e onde um dos titãs vai aparecer, e achou oito pontos onde isso podia acontecer, incluindo aqui. Eu tinha motivos para achar que Nova Glória seria o local certo, e agora tenho certeza.

-Isso é difícil de acreditar. – Disse Cecília Harlas para a surpresa de Jonas, que havia se esquecido da presença dela.  – Quer que acreditemos que simplesmente entrou em um navio pirata do próprio Lorde Staunen, encontrou documentos importantes, os roubou e escapou sem nenhuma conseqüência.

-Bem, eu… – Ilsa mordeu o próprio lábio enquanto juntava forças para falar, uma expressão que Jonas reconheceu subitamente, a memória lhe atingindo com o impacto de um encouraçado.

-Por que ela é filha de lorde Amadeus Staunen. – Jonas falou subitamente, quase gritando. As duas olharam para ele, de olhos e bocas abertos.

Jonas finalmente entendeu de onde a reconhecia, lembrando de uma foto em preto-e-branco recebida em um envelope confidencial; Uma foto que passou horas memorizando antes de rasgá-la em pedaços e jogar os restos na fornalha, mostrando o maior pirata do Círculo Delta sorrindo para a câmera, ao lado de uma mulher em um vestido elegante, e acompanhado de uma criança sardenta mordendo os lábios. Alvos á serem eliminados ou capturados.

-Você já sabia? – Ilsa perguntou.

-Só percebi agora. – Ele explicou, escondendo o sorriso de satisfação pela descoberta. – Como nem tentou esconder seu sobrenome, até chamando atenção para ele, acho que queria ser descoberta.

Ilsa concordou em silêncio, com um olhar de culpa, esperando pela reação dos dois.

-Sem ofensas á nossa visitante. – Cecília começou. – Mas como podemos ter certeza? Ela poderia ter simplesmente usado um nome falso para te convencer. Quantos nessa parte da galáxia já se disseram filhos bastardos dele?

-Eu sei que é ela. Não posso contar como, mas eu sei. –Ele não conseguiu conter a excitação em sua voz. – Acabamos de encontrar a filha do maior vilão da galáxia.

-Esta sou eu. – Disse Ilsa Staunen, de braços abertos como se apresentasse em um palco, tentando esconder sua vergonha com um sorriso.

Cecília abriu a boca para falar, mas desistiu logo antes que a primeira palavra escapasse, e decidiu observar a cena em silêncio.

-Só para rever: O Titã vai escolher um Arauto aqui, e a Frota Negra vai nos invadir para pegá-lo? – Perguntou Jonas.

-Na verdade é só um navio. – Respondeu Ilsa. – Tinham oito locais que Teriapolis podia visitar, mas ninguém tinha certeza de qual seria, então tiveram de dividir navios entre todos para ficar esperando até descobrir qual. Aqui é o lugar menos protegido e a Frota Negra não é tão grande quanto antes.

-Não sabiam onde o Titã ia parar, mas você sabia?

-O feiticeiro do meu pai disse que tinha uma impressão sobre essa lua e que viria pessoalmente aqui. Ele sempre tem essas alucinações sobre o destino e eventos, então pareceu a escolha certa, e como os capitães se recusaram a acreditar nele e mandar mais de um navio, parecia o único lugar que eu podia visitar e fazer diferença.

-Agora temos um feiticeiro no meio? – Ele perguntou.

-Eu sei que soa estranho, mas é tudo verdade. – Ela respondeu. – Os piratas de meu pai querem achar o Arauto assim que for escolhido e forçá-lo a trabalhar para a Frota Negra. Quando conseguirem vão destruir a cidade para ninguém saber o que aconteceu, e depois disso vão voltar a fazer guerra com as outras nações. Por favor, Jonas, você é o único aqui que pode me ajudar a salvar Nova Glória.

Jonas a observou em silêncio, vendo o desespero crescente em suas palavras e a inocência em seus olhos.

Ele se afastou do balcão, andou lentamente até onde a chuva o alcançasse, e olhou para cima. O chuvisco tinha dado lugar á uma tempestade. A água encharcava seu cabelo, seu rosto e suas roupas. Jonas não se importou.

O céu tinha se tornado apenas escuridão cinzenta, relâmpagos e violência. Ele se lembrou da última vez que presenciou a visita de um Titã, através da luneta de um rifle á quilômetros do evento, quando o céu choveu fogo sobre a cidade e o peixe-sol escolheu seu Arauto.

Jonas fechou seus olhos, sentindo a água escorrer por seu corpo. Ele se lembrou de tudo que aconteceu em Nova Glória: A batalha desastrosa contra a Barracuda que quase o levou a desistir; As palavras de Alice que o impediram de acabar com tudo; o encontro com Movna e Eli que o levaram a montar sua nova tripulação; a captura pela Madame Octavius que o fez um servo, e o confronto com Sergei que lhe devolveu a vontade de lutar.

Um novo som chegou aos seus ouvidos, entre a cacofonia de água e trovão, quando percebeu que estava rindo com toda a força de seus pulmões. Ele se lembrou mais uma vez das chuvas na fazenda, quando era um jovem atirando em garrafas com a espingarda de seu pai, sonhando se tornar o maior soldado de todos.

-Ele está bem? – Ilsa perguntou para Cecília.

-Definitivamente não. – Cecília respondeu.

-A princesa pirata se rebela contra seu pai, rouba os planos de um feiticeiro, onde procura a ajuda de um capitão para encontrar o novo escolhido dos Titãs. – Ele gritou para elas entre gargalhadas.

-Isso quer dizer que não vai me ajudar? – Ilsa perguntou.

Ele voltou para a tenda, encharcado e sorridente.

-É claro que vou ajudar. Com um caso tão estranho eu tenho de participar.

O rosto de Ilsa se iluminou com esperança.

-Ótimo, certo, eu… Eu nem sei onde começar. – Ela quase pulava de excitação. – Eu tenho todos os planos lá na moto.

-Tenho de buscar algumas coisas no meu esconderijo, mas vá falando tudo que sabe no caminho. – Capitão Jonas falou. Ele se virou e começou a andar por uma das ruas, e Ilsa o seguiu segundos depois, levando a moto ao seu lado. – Também preciso me secar. Parar de cara pra chuva foi uma péssima idéia.

-Tem certeza do que está fazendo? – Cecília gritou de onde estava, frustrada e irritada. – Toda essa história é improvável demais. E se estiver errado?

-Vou apenas desperdiçar tempo. – Ele gritou de volta, sem olhar para trás. – Mas se estiver certo, vou salvar a cidade e ser um herói.

 

*****

 

As runas se rebelavam contra Jericó, exalando seu poder em vento e relâmpago.

Jericó d’Damara observava atentamente o pote em mãos, dentro do qual uma pedra quicava de um lado ao outro, levada pelos ventos que ela mesma criava. Água se acumulava no fundo do pote, e minúsculos relâmpagos atormentavam as paredes de plástico.

A pedra era inscrita não apenas em Runas de Tempestade, mas no conjunto de símbolos específico de Teriapolis: A estrada, o corcel e o raio. As runas que se mostraram as mais instáveis e violentas sob aquele céu cinzento, a prova que Jericó precisava de que presenciava o mais sagrado dos dias.

Ele sorria incontrolavelmente por debaixo de sua máscara. O Titã vinha para Nova Glória para escolher seu Arauto, aquele que receberia parte de sua essência, uma fagulha minúscula de poder que o faria andar como um deus entre a humanidade.

As nações viriam em busca do Arauto, procurando mais uma grande arma de guerra contra as outras. Ele esperava que os Cavaleiros Hospitalares ganhassem essa competição, pelo bem de seus irmãos Ferreiros, mas de resto política era algo de pouco importância.

O que realmente importava era o significado daquele evento. Se Teriapolis estava disposto a escolher seu Arauto na mesma lua em que Jericó vivia, então talvez seus crimes não fossem tão severos. Talvez redenção ainda fosse uma possibilidade.

“Os olhos do eqüino celestial não vêm os crimes do Ferreiro, apenas por que ele é baixo demais para sequer ser notado.” Jericó pensou, enquanto seu sorriso desaparecia.

-Acha que podemos confiar nele? – Disse Eli Aros de outro canto do armazém. Uma capa de chuva amarela o cobria da cabeça até suas botas de borracha, uma máscara de gás cobria a metade de baixo de seu rosto e óculos de proteção protegiam seus olhos.

-Por que devia? É um Octavius, não tem como confiar. – Movna respondeu. Ela vestia seu habitual poncho negro com um capuz, normalmente preso no interior da vestimenta, cobrindo sua cabeça. Um pedaço de Erva-de-Viajante se prendia á sua canela.

-Não o Mordecai. – Ele abaixou sua voz um pouco. –Estou falando do nosso novo tripulante.

Jericó pensou em gritar para Eli e avisar que podia ouvir suas palavras, mas decidiu que não valia o esforço.

-Ah. – Ela respondeu, afiando com uma pedra a arma que cobria seu punho: Um pequeno escudo de metal, do qual surgia uma lâmina coberta de Runas de Ferro. Um objeto planejado por ela, e feito pelas mãos de Jericó. – Por que não confiar?

-Por que ele já nos traiu, faz uma semana. – Eli quase gritou, erguendo as mãos para o alto. – É justamente por causa dele que estamos nessa missão suicida para uma família criminosa.

-Ele já se redimiu.

“Ainda não”, Jericó pensou. “Meu caminho pela forja ainda é longo”. Ele torceu para não ter falado em voz alta sem perceber.

-E quando foi isso? Foi quando ele me botou em coma?  Quando quebrou meu crânio? – Eli falou em voz baixa, mas sua frustração e vontade de gritar era clara.

-Quando lutou com a gente. – Ela ergueu a lâmina para o alto e a admirou, o metal refletindo o pouco de luz no armazém. – Ele ficou no nosso lado contra a Barracuda. Para mim é o bastante.

-Só isso? Basta ajuda em uma briga e já se torna um aliado confiável?

-Sim.

-Eu nunca vou entender essa lógica Agnae. – Eli falou. -E quanto a Octavius? Ela pode lhe chantagear de novo a qualquer momento, e nós nem sabemos por qual crime.

-É segredo dele, não vou interferir. – Disse Movna, focada em sua arma. Ela deu alguns golpes pelo ar, cortes audíveis com rastros cinzentos.

-Segredo dele? Você já reclamou, repetidamente, que odeia quando Jonas mantêm segredos.

-Jonas é nosso líder, as decisões dele arriscam todo mundo.

-E Jericó não seria um risco? – Disse Eli.

-Talvez, mas é responsabilidade do capitão. – Ela ergueu a arma para cima e, com um pouco de foco e vontade, fez a lâmina se retrair para dentro do escudo de metal. – Para mim só importa que ele seja da tripulação.

-Certo. E se ele tentar nos trair ou me atacar de novo?

-Então vai virar um inimigo e vou quebrar os braços dele.

-Certo, não era o apoio que queria, mas vai servir por hoje. – Eli ficou quieto por alguns momentos enquanto ajustava seus óculos de proteção. – E quanto a tudo que ele nos disse sobre Teriapolis?

-Acha que é mentira?

-Não, por mais que queira acreditar no contrário. Ele é um bastardo, mas o que disse condiz com o que têm acontecido: A tempestade repentina, o comportamento instável das runas, a busca da Octavius por um indivíduo secreto. –Ele suspirou em frustração. – E como sempre, minha vida saindo de controle mais uma vez.

Movna o encarou, expressão oculta por óculos e capuz. Quando começou a falar, as portas do armazém se abriram.

-Venham. É hora do trabalho. – Disse Mordecai, parado do lado de fora sob a chuva, com o mesmo terno e penteado de antes, ignorando a água que caia sobre ele.

Ele deu um assovio estridente e Aristaeos respondeu ao chamado: Um cão surgiu de um canto escuro, uma criatura amarelada de olhos brancos e presas grossas, alto o bastante para que seus ombros chegassem á barriga de um homem normal. Suas orelhas eram altas e dobradas, seu rabo era longo e fino, seu corpo esguio e suas garras eram como foices.

Ele caminhou casualmente até o exterior, seguido pelo olhar assombrado de Eli.

Jericó não conhecia a raça daquele animal, mas reconhecia as criações dos Drakov. Ele sabia que Aristaeos não era apenas grande e intimidador, mas também mais inteligente que um cão normal e tão letal quanto sua aparência sugeria.

-Cuidado. – Movna disse para Eli, com uma mão sobre seu ombro. – Quando precisar, chame e eu venho.

Ela ajustou seu poncho negro mais uma vez, checou as faca em seu cinto e caminhou para a saída, sumindo entre as sombras do exterior.

Eli respirou profundamente, tomou uma pistola de cima da mesa e guardou num bolso interno de sua capa de chuva. Ele se virou para Jericó e disse antes de partir:

-Não arruíne tudo de novo.

Jericó queria ter uma mensagem final para dizer, e alguém para quem dizer. Ele olhou para o pote mais uma vez, onde a pedra de runas continuava sua luta contra as paredes.

-Se comporte. – Ele falou antes de cuidadosamente encostar o objeto no chão. – Em breve vou te testemunhar em pessoa.

Jericó se levantou, pegou seu martelo e partiu para o mais sagrado dos dias.

 

 

 

Através do Éter – O Cheiro de Eletricidade

“… Repito, as Runas de Tempestade estão instáveis e nosso maquinário está quebrando. Os mecânicos da prefeitura avisam que as Colunas mantendo nossa atmosfera também podem sofrer mau funcionamento. Pedimos que desliguem seus aparelhos elétricos e se preparem para vazamentos de Éter. Busquem máscaras de gás ou o abrigo mais próximo.”

-A Voz de Nova Glória

 

A Lampreia flutuava pelo Éter. Observando. Esperando.

O navio era coberto pelo preto mais escuro, tornando-o apenas uma mancha negra contra o céu estrelado, exceto pelo símbolo branco em seu casco: A lula caolha sobre um par de sabres cruzados, a bandeira de todos que serviam diretamente a Lorde Staunen.

A Lampreia estava quieta, seus motores em silêncio, suas asas fechadas e todas as luzes apagadas. Por precaução, as Runas de Tempestade foram prontamente desfeitas, incluindo aquelas que mantinham o ar da embarcação. A maior parte da tripulação esperava dentro de câmaras fechadas, onde portas pressurizadas mantinham o Éter venenoso de fora, enquanto o resto usava máscaras de gás ao andar pelos corredores desprotegidos.

Tudo para um evento que provavelmente não viria. Oito navios negros espalhados pela galáxia esperavam pela mesma coisa, torcendo para serem os primeiros a ouvir o som de cascos.

-Eu sinto no Éter. Só pode ser aqui. – Disse Elijah Tanoya quando ouviu a porta abrir.

Ele se sentava no convés da Lampreia, de pernas cruzadas em posição de meditação, segurando um cajado de marfim entre as mãos. Ele era um homem magrelo, de cabelos negros e longos enrolados em uma única trança, seu nariz era torto como resultado de tantas lutas e seu rosto enrugado como marca de tantos anos. Um manto azul-elétrico cobria seu corpo, enquanto um colar de presas e vértebras de bestas enfeitava seu pescoço. Havia um jarro de terra ao seu lado.

Não havia máscara de gás ou aparelho que o protegesse do Éter. Seus olhos marrons se tornavam azuis à medida que o ar contaminado envenenava seu corpo. Tanoya não parecia se importar.

-Eu trouxe notícias, senhor. – Disse o pirata que havia entrado no convés, vestido com o uniforme negro da Lampreia e uma máscara de gás. – O que você sentiu? Consegue ver se ele está chegando?

-Ele não se decidiu ainda. Oito tempestades e não sabe qual a mais fértil. Mas eu… – Ele parou para tossir, uma tosse longa que fez sua garganta arder enquanto seu corpo tentava expelir o Éter em seus pulmões, então continuou. – Mas… Mas eu sei. Você consegue ver?

O pirata examinou a vista. Á frente da Lampreia pairava um gigantesco planeta gasoso, uma silhueta laranja que bloqueava a luz do sol. Oito luas giravam ao redor deste planeta, e na maior delas estava o Porto-Lunar de Nova Glória.

A cidade em si não estava á vista, apenas uma massa cinzenta que se espalhava pelo resto da lua.

-Eu vejo que o local está próximo da Corrente 32. – Disse o pirata. – Talvez isto seja um atrativo. Este também pode ser um bom centro comercial agora que as nações estão abrindo comércio, mas não sei se isto é relevante para ele…

-É mais do que isto. – Disse Tanoya, lutando contra sua voz rouca e a falta de ar. – Não são só rotas de navios e dinheiro, este local se tornou o centro de uma teia ainda maior, um redemoinho no grande mar onde peixes e dejetos são puxados até atrair atenção dos tubarões.

-Então o destino…

-Não há destino. – Tanoya gritou antes de começar a tossir mais uma vez. O pirata esperou pacientemente até ele se recuperar. – Estou falando nas marés e ventos do universo, não na predestinação arbitrária de uma força teatral.

-Desculpe, mas ainda não entendo a diferença.

-É claro que não. Staunen é o único que entende. – Tanoya apoiou o cajado contra o chão e se levantou com o pouco de força tinha. – Eu também não entendo, mas eu sinto. Eu sinto no Éter que está me matando. Eu sinto as pegadas no acaso, e as gotas que se juntam nestas pegadas para formar o novo rio: A rainha da colméia negra, a princesa perdida de um palácio rachado, o eremita de muitos ângulos, o jardineiro de sangue, o predador derrotado e o peixe de asas quebradas que arrancou sua garganta…

-O que isto significa?

-Eu não sei, mas ele vai entender. – Ele parou para tossir de novo, deixando manchas de sangue no chão. – Parece que cheguei ao meu limite. Se não se incomoda…

Elijah Tanoya se abaixou e esticou um braço em direção ao vaso, deixando sua mão pairar acima das pequenas folhas que saíam da terra. As folhas se moveram e se enrolaram em seus dedos.

-Nós temos máscaras de gás sobrando, senhor.

-Já tenho Éter demais no meu sangue. Economize seu oxigênio, só esta planta pode me salvar agora. – Tanoya explicou enquanto as pontas das folhas perfuravam sua carne e se prendiam a ela. A planta puxou suas raízes para fora da terra e se enrolou no braço de Tanoya como uma cobra faminta.

Ele fechou os olhos enquanto a criatura se cravava em seu corpo. Quando os abriu, todo o azul havia desaparecido deles. Lentamente sua respiração voltava ao normal.

-Cuidado senhor, se ficar mais de três horas com esta—

-Eu conheço a Erva-de-Viajante, somos inimigos íntimos. – Tanoya interrompeu. – Você disse que trazia notícias. Quais?

-Nós tentamos falar com nossos contatos na região, mas o herdeiro da Barracuda e sua tripulação foram presos alguns dias atrás. Se descermos para o Porto-Lunar nós estaremos praticamente cegos. O capitão pediu por sua opinião sobre o que fazer.

-O redemoinho está se movendo rápido. Mas não importa, ele virá e nós iremos invadir a cidade, com ou sem a dinastia de Baltazar. – Tanoya se apoiou no cajado e pensou por alguns momentos, revirando os ossos de seu colar com dedos sangrentos. – Diga que irei descer junto com nossos homens para guiá-los. Podemos estar cegos, mas meu faro é potente.

-Sim senhor. – O pirata fez uma saudação e voltou para dentro do navio.

Tanoya continuou a observar Nova Glória. A planta em seu braço lhe deixava respirar o Éter como um peixe respirava água, mas todos os sinais desapareciam. Ele não podia mais sentir a direção dos acontecimentos e o movimento das marés. O que era o redemoinho no centro do acaso agora voltara a ser apenas mais um Porto-Lunar.

Não importava. Ele já sabia o que iria acontecer: Staunen iria vencer e a cidade iria queimar.

 

*****

 

O mercado parecia ao mesmo tempo tumultuado e completamente vazio.

Jonas andou por entre tendas recém abandonadas e aquelas cercadas por enxames de clientes apressados, fazendo suas últimas compras antes de se esconder das intempéries. Restos de comida e ferramentas estavam jogados ao chão, levados de um lado para outro pela ventania constante. Gotas de chuva ocasionalmente batiam em seu rosto, freqüentes o bastante para distrair, mas não o bastante para acostumar.

Jonas vestia roupas comuns, deixando seu uniforme e a carteira que roubou em um esconderijo especial. Havia a tentação de trazer uma arma, de ter o peso reconfortante de uma pistola em seu bolso, mas sua experiência discordava, dizendo que era uma daquelas situações onde se preparar para violência tinha mais chances de provocá-la que preveni-la.

-Aqui estou eu. – Jonas sussurrou enquanto olhava de um lado á outro do mercado. – De braços abertos e nada nas mangas. Também devia ter trazido um alvo pendurado no meu pescoço…

Um cheiro familiar atingiu suas narinas, uma mistura de ferrugem e sangue que fazia sua perna coçar furiosamente.

O odor vinha de uma das tendas ainda ocupadas, onde uma Etérita vendia vasos de terra para um grupo de clientes apressados.

Mesmo de longe, Jonas sabia que os vasos continham Erva-de-Viajante, uma alternativa barata para aqueles que não podiam comprar máscaras de gás.

-Não usem por mais de cinco horas de uma vez. – Gritava a Etérita, uma mulher de idade com cinco estrelas douradas tatuadas em sua testa. – Ou vão começar os efeitos colaterais.

Jonas sabia quais eram aqueles efeitos, e fez o possível para não pensar neles. Ele se focou em seu objetivo atual e continuou a andar.

O leve frio de Nova Glória havia dado lugar á um vento gélido. As luzes elétricas aumentavam e diminuíam de intensidade, enquanto as Runas de Sol pareciam indiferentes ao que acontecia. Uma lâmpada na distância se estourou, espalhando faíscas e vidro pela rua.

Um novo perfume atingiu Jonas. O cheiro de frutas frescas, algo agradável que trazia memórias de tempos simples e milharais sem fim. Jonas chegou á uma tenda vazia, onde cestas de frutas e vegetais enchiam os sentidos com cores e aromas. Ele se curvou, pegou uma laranja jogada no chão, se encostou contra a tenda e esperou.

Pessoas iam e vinham, comprando e vendendo o que podiam antes de fugir do clima cada vez mais hostil. O cheiro de ozônio era forte, assim como o cheiro da laranja que ele descascava com as mãos. Imagens de uma fazenda flutuavam para a superfície de sua mente, memórias de um local sempre cheio e das chuvas que chegavam.

Ele se lembrou das janelas que batiam com força, do milharal assoprado pelo vento, do espantalho que lhe trazia tantos pesadelos balançando na distância, das gotas batendo contra o telhado de uma forma estranhamente relaxante, de sua família correndo ás presas tentando guardar tudo que era frágil e importante. Por fim ele se lembrou de si mesmo, olhando para o horizonte através da janela, se imaginando sendo assoprado para longe e se perguntando se alguém sentiria sua falta.

-Jonas, finalmente. – Disse uma figura no mercado, uma voz conhecida que lhe pescou de volta á realidade. – Há horas que estou procurando por você.

Cecília Harlas, violinista do Açucareiro e ocasional enfermeira dos tripulantes do Robalo, se aproximava apressada por entre as tendas. Em suas mãos haviam sacolas cheias de máscaras de gás, potes de Erva-de-Viajante e caixas de materiais medicinais. Ela era uma mulher alta e esguia, vestida em um terno velho bem mantido, sem um casaco, mas trajando um colete negro por cima de sua camisa branca.

-Cecília? Você é Staunen? – Jonas perguntou surpreso, ainda tentando entender aquela revelação.

-Staunen? Jonas, por que eu seria o lorde pirata? – Ela respondeu com ainda mais surpresa e dúvida, antes que uma expressão de pânico surgisse em seus olhos dourados. – Você está sofrendo de uma concussão? Há quanto tempo está sofrendo de alucinações?

Jonas suspirou em frustração. Em retrospecto era óbvio que Cecília não era o Staunen que lhe contatou. Anos atrás, quando sua mente era constantemente afiada em treino árduo, ele nunca teria cometido aquele erro.

-Engano meu. Estava pensando em outra… – Ele parou quando Cecília segurou seu rosto, largando as sacolas no chão, e começou a analisá-lo como um inquisidor procurando por pistas de um crime.

-Os ferimentos superficiais estão cicatrizando adequadamente, assim como o corte na garganta. – Ela retirou uma pequena lanterna de plástico do bolso e a balançou em frente aos olhos de Jonas, observando enquanto suas pupilas seguiam o objeto, e então ligou a luz contra seu rosto, em um teste de fundo de olho. – Dilatação das pupilas está normal, e não há danos óbvios nos nervos. Nenhum sintoma de sangramento interno, sem suor ou palidez, mas ainda há riscos de danos colaterais.

-Já checamos minhas feridas, várias vezes. Eu estou bem.  – Ele disse, esperando que a presença de Cecília não atrapalhasse sua reunião secreta com Staunen. – Sem sangramentos e nada fora do lugar. Não tem por que se preocupar.

-Uma série de cortes pelo corpo todo, contusões, eletrocussão, múltiplos ferimentos de bala no torso e uma garganta cortada. – Ela largou o rosto de Jonas e cruzou os braços, lhe encarando com um olhar duro. – Em um curto período de tempo você sofreu ferimentos o bastante para matar três homens. Eu tenho bons motivos para me preocupar.

-Eu já vi sobreviverem á muita coisa pior, e ao contrário deles eu tive medicina moderna do meu lado. Com tantas sanguessugas que botaram em mim não tem como ainda correr riscos.

-Também já testemunhei indivíduos sobreviverem á danos ainda mais graves, assim como vi outros terem sua saúde debilitada por machucados mínimos. Existem dois tipos de ferimentos, Jonas, os debilitantes que irão durar a vida toda, e aqueles que só esperam para se tornarem o primeiro tipo. – Ela explicou, um pouco de tristeza se infiltrando em seu tom severo. – Não adianta quantos procedimentos de sanguessugas use, se você vai se desgastar logo em seguida correndo pela cidade e sendo defenestrado do Cassino.

-Eu adoraria poder descansar, mas tenho tanto trabalho a fazer… – Jonas resistiu à vontade de continuar aquela linha de pensamento, de explicar que não conseguia dormir até ter algum avanço em seus planos, de que não dormia desde a cirurgia alguns dias atrás, quando Cecília lhe encheu de anestesia e o esvaziou das balas em seu torso. – Espera, como sabia que me atiraram pela janela do cassino?

-Jericó me contou os detalhes enquanto tratava a perna dele. Ou foi o que consegui decifrar do que ele falava.

-Ele soa estranho, mas depois de uns dias dá para entender a língua dele. – Jonas se lembrava de dividir o incidente no cassino com Movna quando Jericó estava por perto para ouvir, mas não se perguntou por que dividiu aquele detalhe específico com Cecília. Os motivos trás das ações do mecânico era um mistério para outro dia. – Eu não posso parar e descansar, não agora, não enquanto a Octavius ameaçar minha tripulação e meu navio não voltar a voar. Eu tenho de continuar a trabalhar, a correr por aí e ser jogado para fora de locais até concertar tudo.

-Mesmo sob o risco de danos permanentes? Sob o risco de morte? De sabotar seu próprio corpo e se tornar incapaz de continuar seu trabalho?

Jonas apenas acenou com a cabeça. Havia uma certeza no cinza de seus olhos que refletia o do céu acima.

-Muito bem, não irei mais insistir no assunto. – Ela respondeu, com uma expressão de exaustão. – Mas seja cuidadoso, não se envolva em tantos riscos desnecessários. Eu prometi para minha irmã que manteria vocês do Robalo vivos. Por favor, não me faça uma mentirosa, Jonas.

-Eu queria dizer que vou ficar longe de tiroteios, piratas e janelas altas, mas estou quase conseguindo avanços no meu plano e não posso parar agora. – Ele disse. – Mas eu prometo, pelos titãs acima, que quando meu navio estiver pronto e esse problema com a Octavius acabar, vou tirar um mês de descanso, sem nenhum esforço físico ou plano mirabolante. Você pode fazer qualquer exame que precisar, até me abrir na mesa de cirurgia para ver quantas balas acumulei aqui dentro.

-É um avanço. Acho que posso me contentar com a promessa de seus intestinos. – Cecília Harlas disse com um pequeno sorriso. Ela tirou suas sacolas do chão, as pôs sobre um balcão da tenda e se encostou ao lado de Jonas. O vento assoprava seus cabelos negros contra seu rosto. – Mas então, por que você me chamou de Staunen momentos atrás?

-É um dos planos em que estou envolvido: Tenho um encontro secreto com um estranho misterioso usando o codinome Staunen.

-Sério?

Jonas acenou com a cabeça e continuou a descascar sua laranja.

-Isto explicaria algumas de minhas dúvidas, e abre todo um leque de perguntas novas. – Ela disse. Irritada com o vento, Cecília tirou um elástico do bolso do colete e começou a amarrar seu cabelo em um rabo de cavalo. -O que este “Staunen” quer com você?

-Alguma coisa sobre a cidade estar em perigo. – Jonas falou. –E você, por que estava atrás de mim?

-Eli fugiu do Açucareiro sem qualquer aviso. Imagino que você saiba o paradeiro dele.

Jonas deu de ombros e comeu um gomo de laranja. Enquanto conversava com Cecília, seu olhar saltava entre todas as pessoas ainda no mercado, avaliando cada indivíduo que conseguia enxergar, procurando por pistas de quem poderia ser Staunen.

-Aquilo que você falou sobre o corpo dele se concertar errado… – Ele continuou a falar enquanto mastigava.

-É uma possibilidade. O simbionte de um Hominae Flora substitui partes da anatomia do hospedeiro quando há danos significantes ao corpo. Os efeitos costumam ser benéficos, mas há sempre o risco do simbionte causar danos colaterais permanentes, substituindo tecidos e órgão errados ou distorcendo os já existentes. O risco é ainda maior em indivíduos idosos ou que já sofreram intensa regeneração.

-Eli não é nenhum desses. Então…

-A chance de efeitos colaterais é pequena, mas considerando que ele recebeu um golpe na cabeça forte o bastante para deixá-lo em coma… Prefiro evitar riscos e deixá-lo em observação.

-Certo. – Jonas respondeu logo antes de cuspir os restos do gomo em uma lixeira próxima. – Assim que achá-lo vou mandá-lo de volta pra casa.

Os últimos clientes já haviam abandonado o mercado, restando alguns poucos mercadores para arrumar seus pertences. Todas as casas ao redor tinham suas portas e janelas fechadas. Havia alguns lagartos pequenos correndo pela rua, mas Jonas duvidava que fossem quem procurava.

-Sabe, esta resposta me deixa curiosa. – Cecília disse, terminando de amarrar seu cabelo. – Minutos atrás nós brigamos por sua falta de cuidado com a própria vida, mas quando tratamos de um colega você imediatamente aceita minhas sugestões.

-É como aquele ditado: Quando o navio afunda, o capitão fica por último. – Disse Jonas, mas antes que pudesse se explicar um grande e grave estouro roubou a atenção de todos na área.

Inicialmente ele achou que fosse mais um trovão ou lâmpada quebrando, mas o barulho durou mais que um instante e chegava cada vez mais perto. A cada segundo que o som durava, Jonas conseguia reconhecê-lo um pouco mais, trazendo á mente imagens de sua infância na fazenda, especialmente a imagem de um trator vermelho e sua fumaça fedorenta.

A origem do som apareceu de uma esquina, uma motocicleta negra montada por alguém vestindo as mesmas cores. O veículo tinha um motor estranho, com canos que exalavam fumaça e barulho, sem uma única runa á vista. Jonas reconheceu o cheiro da gasolina que movia a máquina, algo que não esperava ver fora de seu planeta.

O estranho fez uma curva fechada e se dirigiu para o centro do mercado, desviando de todas as tendas e objetos largados ao chão sem perder velocidade, com uma elegância que contraía o jeito brusco de seu veículo.

O visitante desconhecido chegou á tenda de frutas e parou subitamente na frente dos dois, os encarando por trás da lente opaca do capacete.

-Talvez seja uma contusão. – Disse Jonas para Cecília. – Mas acho que encontramos Staunen.

 

*****

 

A porta estava aberta. O armazém em silêncio. Eli estava aterrorizado.

A porta devia estar trancada, Movna fazia questão de mantê-la assim. Ninguém podia entrar sem dizer o código secreto ou se arriscar a encontrar uma das armadilhas.

O armazém devia estar ocupado por uma cacofonia insuportável. Jericó trabalhava incessantemente para concertar o Robalo, e segundo os relatos de Jonas e Movna não havia um momento sem o som de uma serra elétrica, um prego sendo batido, ferro sendo soldado ou qualquer outro som ensurdecedor das ferramentas sem fim do mecânico.

Eli não sabia o que fazer. Parado em frente ao armazém onde seus colegas decidiram permanecer depois do último ataque pirata, com o chuviscar de água atingindo seu rosto, ele se decidia entre ficar ou fugir. Não havia ninguém á vista para pedir ajuda, apenas a cidade vazia e o céu sem estrelas.

Houve um estouro. Ele se abaixou e protegeu a cabeça, antes de perceber que era apenas uma lâmpada que estourou.

-Isto é ridículo. Tenha um pouco de dignidade. – Eli sussurrou para si enquanto se levantava.

Ele fechou os olhos e respirou, inspirando ar pelo nariz e expirando pela boca, contando os segundos de cada fôlego. Quando chegou á um estado vagamente semelhante á calma, percebeu que precisava ter uma idéia melhor da situação antes de qualquer decisão, e se dirigiu para uma das janelas laterais, subindo em um par de caixotes para ter uma vista clara do interior.

Não havia uma única luz acesa. O interior estava ocupado apenas por sombras e silhuetas. Entre todas as formas que conseguia ver, o Robalo era a única que reconhecia.

O navio estava suspenso no ar por uma série de colunas e correntes, em frente á uma janela por onde as luzes restantes da cidade e o ocasional relâmpago delineavam sua estrutura. Ele parecia mais completo do que da última vez que Eli o viu. O que era antes uma pilha de madeira quebrada que mal podia ser reconhecida como uma embarcação etérea, agora parecia uma nova nau em construção. Mesmo que ainda faltasse metade de sua estrutura, não havia sinais óbvios de que já foi destruído em algum momento.

Eli notou seu momento de distração com o Robalo e voltou a procurar, esticando seu pescoço para tentar ver mais do armazém.

Uma luz fraca surgiu no canto de sua visão, mas não conseguia enxergar a fonte ser daquele ângulo. Dentro daquele campo de iluminação havia a ponta de uma mesa e uma cadeira vazia, mas nada que pudesse distinguir. Um braço surgiu em sua linha de visão, apoiado contra a mesa e coberto pela manga de um terno, grande demais para ser de Jericó ou Movna.

Eli se apoiou na ponta de seus dedos e se apoiou contra a base da janela, tentando ver o tanto quanto pudesse daquele invasor. Houve um rangido, vindo do caixote sob seus pés. Ele torceu para que o ruído se perdesse entre o som da chuva e dos trovões. Antes que pudesse se abaixar, um par de olhos brilhantes apareceu no armazém, olhando diretamente para ele.

Os olhos reluziam como o luar, brancos e redondos, do tamanho de olivas. Um pouco abaixo, grandes presas brancas refletiam a luz deles, tão grossas e longas quanto os dedos de uma mão. Um rosnar surgiu de trás daqueles dentes, soando com a intensidade do motor de um navio.

Logo em seguida veio o brilho das runas de uma pistola, segurada pelo grande braço sobre a mesa, apontada diretamente para Eli.

-Seja quem for, desça daí e entre pela frente. – Disse a voz Grave e profunda daquele que segurava a arma. – Tente fugir e soltarei o cachorro. Ele já tem seu rastro, e irá te perseguir por toda a lua e trará o que sobrar de você como troféu. Compreende?

Eli sentiu o frio de pânico em seu peito. Sem dizer qualquer palavra ou fazer qualquer sinal, ele desceu de onde estava e deu a volta até a entrada principal. Com cuidado para não nada que pudesse ser confundido com uma tentativa de fuga.

Quando abriu a porta a primeira coisa que viu foi a mesa, seus colegas sentados ao seu redor, juntos do maior ser humano que já viu.

O homem que segurava a pistola estava sentado á cabeceira da mesa, e mesmo naquela posição sua cabeça chegava á altura da de Eli. Ele era tão largo quanto se esperava de seu tamanho, com membros grossos que lembravam troncos de uma árvore.

Sua pele era cinzenta, pálida como um cadáver, e seus olhos eram completamente amarelos, dois globos dourados que refletiam o pouco de luz da sala. Os traços comuns de um Hominae Voivode.

A figura se vestia com um terno justo. As mangas e dobras se encaixavam perfeitamente em sua grande fisionomia. Todos os botões do terno estavam fechados, a gravata vermelha amarrada em um nó perfeito, e seus cabelos negros penteados para trás com uma precisão profissional. Em cada uma de suas mangas havia uma abotoadura no formato de um hexágono preto.

-Ah, Eli Aros. Eu presumi que era um ladrão. Entre e feche a porta. – Ele disse, guardando a pistola no bolso do casaco enquanto Eli seguia as ordens. – Você sabe quem sou eu?

-Um capanga da Octavius. – Disse Movna, sentada de braços cruzados, pés sobre a mesa e pura frustração em seu olhar. – Um que devia ser menos arrogante.

-Morvana. – O estranho disse, com todo desprezo que conseguia colocar naquele nome sem perder a composição. – Vocês trabalham para nós agora. Eu não peço por obediência cega, mas vocês irão mostrar o mínimo de respeito.

-Esse é meu mínimo. – Ela respondeu. – Espere até me ver sem respeito nenhum.

O grande estranho a encarou. Sua expressão não mudou, mas o amarelo de seus olhos se tornou mais intenso, mais reluzente, como brasas que ganhavam mais força ao serem assopradas. Movna o encarou de volta, sem piscar ou mover um músculo.

O tempo de fora se tornava pior. O chuvisco deu lugar á uma chuva de verdade, com gotas pesadas e ventos cortantes.

-O contador de moedas chegou. – Disse Jericó d’Damara, sentado oposto á Movna e de cabeça deitada sob os braços, lembrando Eli de uma criança cochilando no meio das aulas. – Isto significa que posso voltar aos trabalhos importantes?

-Isto é um trabalho importante. – Disse o estranho. – Estamos aqui para discutir seu capitão e seu próximo trabalho para a Octavius.

-É por isso que interrompemos a forja? Suas prioridades são confusas e nem um pouco práticas. – Jericó resmungou.

O grande homem de terno fechou os olhos e respirou profundamente. Quando os abriu, eles tinham retornado ao normal. Ele se levantou, fazendo toda a sala parecer menor.

-Voltemos ao assunto. Sente-se conosco Eli. – Ele acenou para uma cadeira ao lado de Movna. – Você sabe quem eu sou?

-Mordecai O Traidor. – Eli falou enquanto se sentava, em um tom formal que usava durante negócios, tentando esconder seu medo. – Eu já o vi de longe, perto do Cassino. O capitão nos falou um pouco sobre você: supervisor da Octavius; trabalha diretamente para a Madame e atirou Jonas por uma janela recentemente.

Jonas também havia lhe contado o codinome de Mordecai, “O Topeira”, mas parecia melhor não dividir aquele detalhe naquele momento.

-Finalmente, alguém civilizado que sabe conversar direito. – Mordecai exclamou para cima, como se agradecesse aos próprios Titãs. Ele cruzou os braços por trás das costas e andou ao redor da mesa. – Sim, eu recebo ordens da Madame, e também sou o agente responsável por vocês e seu capitão.  Sou eu quem deve mantê-los na linha, garantir que façam o que lhes for exigido, e irei ordenar sua eliminação caso saiam do controle. Sabe por que estou aqui?

-Você disse que temos um trabalho para a Família, então presumo que seja por isso. – Eli respondeu.

De onde sentava podia ver a fonte de luz: Um tubo de pedra marcado com Runas de Sol, que também gerava um calor reconfortante para aqueles sentados. Montes de panos coloridos também se encontravam sobre a mesa, junto de agulhas, tesouras, desenhos de bandeiras e alguns uniformes semi-acabados. Tudo feito pelas mãos de Movna.

Houve um movimento na escuridão, de algo andando silenciosamente de um canto par outro, mas não era possível dizer se era o cachorro ou para onde ia.

-Este é o motivo principal, mas também vim tratar sobre Jonas. Nesses últimos dias ele tem desaparecido de nossos olhos por longos períodos de tempo. Acreditamos que esteja tramando contra nós. – Mordecai parou atrás de Eli, onde não podia ser visto, mas sua presença podia ser sentida. – Diga onde ele está.

-Ele não sabe. Eu não sei. Ninguém sabe. – Movna gritou, ainda imóvel. – Já discutimos isso três vezes. Quer perguntar isso pra cidade inteira? Todo mundo vai responder a mesma coisa.

Mordecai não respondeu. Apenas continuou parado e esperou pela resposta.

-Mas é verdade, eu sei tanto de onde ele está ou que está fazendo quanto qualquer um nesta sala. – Eli explicou.- Ele e Movna me visitaram no Açucareiro no começo da tarde, quando eu estava de repouso, mas não comentamos sobre nenhum plano sobre desaparecer da lua.

-Hm. – Foi a única resposta de Mordecai por um longo momento. – Minha carteira foi roubada por um mendigo esta tarde. Meus guardas o capturaram, mas ele escapou de maneira “ardilosa”. Sabe alguma coisa sobre isto?

Eli simplesmente discordou com um aceno de cabeça.

-Eu avisei. – Movna sussurrou.

-Então prove que não está mentindo. – Mordecai ordenou, com tanta calma em sua voz quanto ameaça.

Eli apoiou seu rosto contra uma mão, tamborilando os dedos da outra contra a mesa, ao mesmo ritmo das gotas batendo contra o telhado. Pensar no que dizer era pelo menos uma distração de sua situação. Então ele respondeu.

-Não.

-Desculpe, o que? – Mordecai perguntou, com um pouco de confusão escapando de sua voz.

-No momento eu não sei como dar qualquer prova de minha falta de conhecimento sobre o paradeiro de nosso capitão, e imagino que arranjar uma iria requerer tanto tempo quanto a presença dele para confirmar nossas histórias, duas coisas que suponho não serem possíveis no momento, já que aparentemente temos uma tarefa importante para fazer agora. – Eli Aros explicou. – Além do mais, o que seria mais provável: que todos nós três sejamos bons mentirosos que conseguem coordenar a mesma história, incluindo Jericó; ou que Jonas simplesmente não tenha nos dado detalhes de suas atividades justamente para não podermos contar nada?

Ele continuou seu tamborilar de dedos enquanto esperava a resposta, tentando manter uma postura casual que escondesse seu medo, e também tentando ignorar a respiração que sentia em sua nuca.

-Isso basta. Por enquanto. – Respondeu Mordecai, antes de se continuar a andar ao redor da mesa. Seu andar era lento, mas pesado, fazendo o chão de madeira tremer a cada passo. – Era melhor ter Jonas conosco, mas agora vocês terão de servir. Vamos ao que é realmente importante.

-Finalmente. – Jericó gritou. Ele se levantou da mesa e andou apressado para sua mesa de ferramentas num canto escuro do armazém.

-Não, eu quis dizer que… – Mordecai tentou gritar para Jerico, mas desistiu e se voltou aos dois que restavam á mesa. – Repassem minhas ordens para ele depois.

-Não. – Disse Movna.

Mordecai a ignorou e continuou.

-Há um indivíduo específico perdido em Nova Glória, e a Madame quer encontrá-lo. Vocês irão buscá-lo e encontrá-lo antes do fim desta tempestade.

-Por que nós, especificamente? – Eli perguntou. – Por que a Octavius não usa de seu próprio pessoal?

-E quem disse que não é exatamente o que fizemos? Nossos homens já estão por toda a cidade, mas a Madame insistiu que a opinião de alguém de fora facilitaria nossa busca. Acredito que ela tinha Jonas em mente para isto, mas agora somos forçados á improvisar. – Mordecai parou em frente á uma janela, de costas para todos enquanto falava e admirava o cenário tempestuoso. – Darei todos os detalhes em breve, mas por agora vocês irão se preparar. Vistam o que tiverem para se protegerem da tempestade, do frio e de vazamentos de Éter. Preparem também suas armas, é possível que encontremos resistência em nossa busca. Espero que tenham compreendido.

-Que tal não perder tempo nessa tarefa imbe – Movna começou.

-Não é uma opção. – Mordecai a interrompeu, sua voz soando como um dos trovões de fora. – Irei coordenar detalhes com os outros agentes. Aristaeos irá manter guarda até minha volta. Qualquer tentativa de fuga terá resultados… Sangrentos.

Ele se virou á porta e saiu do armazém, ignorando a escuridão ou a chuva que lhe encharcava. Um rosnado veio das sombras, lembrando a todos da besta oculta entre elas. Não era possível enxergar o animal, exceto por pequenos vislumbres de olhos brancos e dentes afiados.

-Eli você está bem? – Movna deixou a posição que mantinha há tanto tempo e se virou para Eli.

– Ainda estou um pouco… Surpreso, com o que aconteceu. – Ele respondeu. Havia uma fraqueza em seus membros e um frio em seu peito, dando a sensação de que seu corpo estava prestes a falhar. – Mas consigo lidar com isso. O que aconteceu aqui?

-Eu e Jericó buscamos suprimentos. Quando voltamos, o filho de uma pistola já estava aqui dentro. – Ela explicou. – Ficamos esperando Jonas aparecer até você chegar. Por que está aqui? Aconteceu algo com o bar?

-Não. Eu… Eu apenas perdi minha paciência com o Açucareiro, então vim aqui para ajudar em algum trabalho.

-Então teve sorte, contador. – Jericó gritou, surgindo da escuridão atrás dele com o martelo em mãos. – Você agora tem o peso de uma missão sagrada sobre seus ombros.

Eli gritou, saltou de sua cadeira, agarrou uma tesoura da mesa e a brandiu como uma arma.

-Jericó. – Movna falou com toda calma que conseguia naquele momento. – O que te falei?

-Ah, sim, sobre não ameaçar o tesoureiro com um martelo novamente. Mil perdões. – Jericó d’Damara respondeu. – Mas o tempo escorrega rápido e preciso dividir minhas palavras antes que o traidor volte. Eu conheço a verdadeira face desta chuva.

-Face da chuva? Sério? O que há de errado com você? – Eli Aros gritou, ainda segurando a tesoura com firmeza. O frio em seu peito deu lugar ao calor da fúria. -Viramos escravos da Octavius por sua causa, então não perca nosso tempo com seus devaneios.

Ele se preparou para falar mais, de jogar toda sua frustração e raiva, mas sentiu a mão firme de Movna sobre seu braço, empurrando a tesoura para baixo.

-Continue. – Movna falou. – O que descobriu?

-Um evento milagroso, o novo girar do ciclo mais importante das galáxias. – Jericó exclamou, com um entusiasmo que podia ser notado mesmo através de sua voz abafada e de seu rosto oculto. – A família quer encontrar um indivíduo sem revelar o que procura, mas eu sei sua natureza. Ele está vindo para Nova Glória, para escolher aquele que trará sua marca, e a colméia negra quer este poder para si.

-Primeiro diz que não temos muito tempo, e então nos dá um enigma de 10 páginas para traduzirmos. – Disse Eli enquanto guardava a tesoura de volta na mesa. – Pode pelo menos dizer quem ele é?

-Teriapolis, aquele dos cascos de trovão. – Sir Jericó recitou o nome grande reverência, parecendo prestes á se ajoelhar.

-Espera… Quando você diz Teriapolis… – Eli começou.

-Sim, contador. O titã está chegando á Nova Glória.

 

 

Através do Éter – Dias de Chuva

“Querida Nova Glória, nosso telefone passou a última hora tocando com seus avisos sobre a tempestade acima da nossa cidade. Pelo o que sabemos é apenas uma anomalia das runas que mantêm nossa atmosfera, um evento raro que não acontece há décadas, mas inofensivo e que deve passar em algumas horas…”

-A Voz de Nova Glória

 

Jonas disparou pelas ruas sob o céu cinzento. Guardas armados corriam atrás.

Ele tropeçou em seus próprios trapos e caiu contra a estrada de tijolos, ao lado de um lagarto de carga e a carroça que puxava. As pessoas se afastaram, espantadas e curiosas, abrindo um buraco na multidão.

Para todos os que o viam, Jonas era um mendigo vestido em trapos, com uma enorme juba embaraçada e uma barba que cobria metade do rosto. Seus olhos eram de um amarelo assombroso, deixando-o irreconhecível á praticamente todos que o vissem.

-Ladrão! Peguem o mendigo! – Gritou um dos guardas que se aproximava, segurando o cabo de sua espada e pronto para sacá-la. Quatro outros o seguiam na distância.

Se recuperando da queda, Jonas começou a se levantar, levando uma mão para checar seus bolsos enquanto procurava a rota de fuga, escolhida horas atrás para emergências como aquela.

Ele se viu de frente para o lagarto e seus olhos amarelos. O animal não se movia, mas se levantava com as patas e abaixava sua cabeça, mostrando-se irritado e preparado para se defender.

Jonas se levantou com cuidado e movimentos lentos, se afastando cuidadosamente.

O guarda se jogou contra ele e o mandou de volta contra o chão. O lagarto começou a rosnar, prestes a atacar. Uma mulher tentava acalmá-lo, balançando o sino em sua mão e sussurrando palavras reconfortantes.

Logo Jonas se encontrou debaixo do guarda, um joelho apertando seu peito e um braço contra sua garganta.

-Peguei! – O guarda gritou para os colegas que chegavam á área. Em seu peito, sobre a armadura de argila, não havia o punho fechado da União Hominae, mas o hexágono negro da Octavius. – Traz a corda que eu seguro ele.

-Eu não… – Jonas tentou falar com o pouco de ar que conseguia respirar.

-Todos te viram roubando a carteira. – O guarda respondeu.  – O chefe vai chegar e você vai balançar da for–

Ocupado com suas ameaças, o guarda não percebeu Jonas esticando o braço e tentando alcançar algo.

Havia pedras no chão, tijolos soltos, cacos de vidro e gravetos. Ao invés de usar qualquer um destes como arma, ele alcançou uma pata traseira do lagarto e lhe deu um soco.

Em resposta, o animal chicoteou o rabo na direção do golpe, atingiu o guarda no peito e o jogou no meio da multidão.

Assustado e furioso, o lagarto ergueu patas pesadas e começou a atacar, cortando o ar com suas garras e balançando seu rabo violentamente.

Pessoas começaram a gritar e a correr. Um dos guardas tentou ajudar seu colega ferido, os outros três mantiveram distância do animal e sacaram suas espadas, mas se recusaram a chegar perto do círculo de garras e golpes que a criatura formou ao seu redor.

Mesmo estando no centro daquele círculo, Jonas foi poupado da atenção do lagarto. Ele permaneceu completamente imóvel enquanto se fingia de morto, se tornando a menor ameaça daquela rua.

De onde estava ele procurou e identificou sua rota de fuga. Ele cerrou os dentes, fechou os olhos, cruzou os braços contra o peito e rolou por debaixo da besta furiosa.

Ele pôde sentir o chão vibrar sob passos reptilianos, patas escamosas atingindo seus arredores e ameaçando esmagar seu crânio. Ele não pensou no perigo, apenas no número de vezes que rolava.

Quando o número calculado chegou e não estava mais sob o lagarto, Jonas se jogou de pé, desviou de um golpe de causa que quase acertou sua cabeça e voltou a correr.

Os guardas o viram fugindo, mas seu caminho estava bloqueado por uma tonelada de fúria reptiliana. Eles só puderam observar enquanto Jonas desaparecia entre tumulto e multidão.

 

Jonas chegou ao esconderijo, ofegante e exausto, mas seguro.

Ele sentou no chão de um beco escuro e isolado, no centro de um labirinto de passagens iguais, onde as luzes da cidade tinham dificuldade em chegar. Aquele ponto foi escolhido como refúgio dias atrás, como precaução para quando seu plano inevitavelmente saísse de controle, um local acessível e ao mesmo tempo escondido.

-Lembre de treinar seus roubos de carteira depois, aquilo foi erro de principiante. – Ele sussurrou para si entre fôlegos. – E voltar a fazer corridas de manhã, seu físico está horrível.

Antes que seu coração pudesse desacelerar, Jonas retirou uma carteira de couro dentre seus trapos, o objetivo de todo aquele dia, e revirou os conteúdos: Dobrões de prata, cédulas marcadas com o símbolo da União Hominae, um cupom de desconto para um restaurante local, cartões de negócio do cassino Octavius, uma agenda de capa de couro recheada de lembretes com notas de papel coladas entre as páginas, fichas telefônicas e o mais importante: uma carteira de identidade.

-Observem: as primeiras peças para a destruição da Octavius. –Jonas falou enquanto esticava seu braço como um maestro de circo apresentando as próximas atrações, mas com cuidado para não levantar sua voz. – Ou uma perda de tempo. Pelo menos vou comer bem hoje a noite.

Jonas não tinha um plano certo para se livrar da Octavius, mas aqueles documentos podiam ser úteis enquanto planejava seu próximo passo.

Após um breve descanso ele se levantou e adentrou uma passagem escura, desaparecendo entre as sombras para se livrar daquela aparência. Levaram dias para preparar aquele disfarce, da reunião dos materiais ás horas se arrumando em frente ao espelho.
Com ferramentas escondidas no escuro ele começou a desfazer todos aqueles esforços. Com um líquido especial desfez a cola que prendia sua barba e cabeleira, com uma esponja áspera retirou a sujeira e maquiagem, e um conjunto de roupas esperavam por ele enquanto se despia dos trapos. Por último ele tirou as lentes de contato, substituindo o amarelo de seus olhos pelo cinza natural.
Quando saiu do escuro, Jonas havia voltado á sua aparência natural, ou o mais próximo que podia chegar dela sem seu uniforme azul. Todas as peças do disfarce estavam guardadas em um saco de lixo que foi prontamente jogado entre outras pilhas de entulho do beco. Foi enquanto Jonas limpava a poeira de sua camisa que percebeu o envelope no chão, no mesmo local em que estava sentado, minutos atrás.
Ele olhou para os lados, procurando pelo possível entregador do envelope, por algum espião da Octavius ou um atirador; apenas esperando que Jonas lesse a mensagem dramática no envelope para abrir um buraco em seu crânio. Não seria a primeira vez.
Não havia ninguém a vista, o que não era o bastante para acalmá-lo.

Com passos curtos ele se abaixou próximo do envelope, o pegou com a ponta dos dedos e o balançou delicadamente. Havia apenas o peso de papel. Finalmente ele criou coragem de abri-lo, achando apenas uma folha com uma mensagem escrita à mão.
As letras cor de rosa foram uma surpresa.
“Ei Jonas.” Dizia a carta em letras pequenas e amigáveis. Haviam marcas de rabiscado​s sobre o nome do capitão. “Eu te reconheci fugindo daqueles mafiosos agora a pouco. Eu queria falar com você, mas não queria estragar sua missão secreta, então deixei está carta aqui. “
-Eu… Agradeço pela educação? – Disse Jonas, surpreso com a direção que aquele dia havia levado.
“Eu ouvi suas histórias, a de quando pegou o capitão Baltazar, e a de como enfrentou todo o resto da Barracuda. É por isso que quero falar com você. Eu preciso de ajuda, têm pessoas perigosas chegando aqui e a cidade toda pode acabar destruída. Eu quero impedir essas pessoas, mas acho que vou precisar de sua ajuda”
“Eu não posso contar mais por que essa é uma mensagem secreta. Se acreditar em mim, por favor, venha para sua loja favorita na feira para conversamos essa tarde. Se não acreditar, por favor, venha falar comigo de todo o jeito para eu poder te convencer. Eu prometo te comprar uma laranja.”
     A expressão de confusão de Jonas desapareceu quando viu o nome da assinatura.
Staunen.

Staunen, um dos nomes mais temidos de todo o Círculo Delta. Staunen, o nome do maior lorde pirata da galáxia, fundador da Frota Negra e seu único líder a sobreviver. Staunen, o dilacerador de homens, aquele que tombou encouraçados com as próprias espadas, o terror do Éter.

Jonas achava improvável que o próprio senhor das lâminas escreveu aquela carta, mas quem quer que fosse o escritor, ele conseguiu reconhecer seu disfarce, encontrar seu esconderijo e deixar uma mensagem sem ser percebido.
Uma gota de água atingiu o papel em suas mãos. O céu acima começava a gotejar.
Mais uma vez ele olhou para os lados em busca de algum observador, não encontrando nenhum, para então rasgar a carta em pedaços e espalhá-los pelo beco.
Jonas guardou a carteira no bolso mais seguro de suas calças, limpou a poeira de suas roupas e saiu dos becos escuros​s para sumir mais uma vez entre a multidão.
*****

 

No grande vazio, um navio negro vigiava Nova Glória, cheio fome e paciência.

 

 

 

 

 

 

Através do Éter – Algumas Palavras

“Bom dia, Nova Glória. Nas notícias de hoje: Nosso prefeito finalmente enviou mecânicos para fazer manutenção dos armazéns e o Giroscópio; Faz cinco dias desde o incêndio da delegacia, e o culpado ainda não foi encontrado; o xerife Alexandre declara sua aposentadoria, mas insiste que a União Hominae já enviou substitutos adequados; E Helena Octavius recusa a comentar sobre o homem arremessado de seu cassino.”

-A Voz de Nova Glória

 

-Talvez eu nem devesse ter acordado. – Disse Eli Aros para o quarto vazio.

De braços cruzados em seu quarto no Açucareiro ele observava os cidadãos de Nova Glória, a multidão das ruas em mais um dia de trabalho. Ocupados demais para se preocuparem com eventos recentes.

Do outro lado da rua ele via uma carroça levando uma massa de areia e pedras, provavelmente vinda das minas próximas á cidade, puxada por um grande lagarto que por sua vez era guiado por uma mulher e seu sino.

A carroça passou por uma tenda, onde um homem de cabelos grisalhos fatiava e embalava peixes, provavelmente criados na lagoa do porto, e os entregava para a mulher do sino.

Ao lado da tenda um par de trabalhadoras carregava tábuas de madeira, vindas de árvores plantadas em uma estufa próxima, e as carregava para dentro de um caminhão.

Debaixo do caminhão havia uma criança abaixada, chamando a atenção de um pequeno lagarto que dormia debaixo do veículo, até que o roncar do motor sendo ligado fez com que os dois fugissem para longe do caminhão.

O lagarto, correndo sobre suas patas traseiras, passou por entre um grupo de mineiros, um dos quais derrubou o pote de sopa que levava para o trabalho.

-Verdade seja dita, eu sinto inveja de todos eles. – Eli disse. Seus dedos tamborilavam contra relógio de bolso em sua mão, fazendo uma batida tão rítmica quanto as engrenagens de bronze. – Não que eu goste de carregar madeira, mas eles têm algo com que se ocupar. Eu estou preso em meu próprio quarto, sem nada a fazer além de remoer preocupações. E sem um livro para ajudar.

Houve um ruído do canto. Ele olhou para trás, em direção ao gramofone que gravava todas as suas palavras. O antigo aparelho foi resgatado do porão e lhe entregue como distração pelos próximos dias, ou pelo menos até que a máquina empoeirada finalmente falhasse.

-Certo, eu não sei quanto tempo de gravação ainda tenho, então vou pular as divagações. – Eli pigarreou, e após decidir o tom de voz certo, voltou a falar. – Diário de Eli Aros, rolo número dois, dia vinte e quatro, quinto mês, ano duzentos e cinqüenta, calendário do Círculo Delta pós-invasão, décimo quarto dia em Nova Glória. Na gravação anterior descrevi minha chegada á cidade, de meu conflito com a gangue de Yaakov, passando por meu recrutamento ao Robalo, e terminando com nossa captura de um capitão pirata. Por favor, procure pelo rolo número um se precisar dos detalhes. Agora, vamos ao que aconteceu depois.

Ele parou, ordenando eventos em sua cabeça, misturando memórias e relatos, resumindo os últimos dias em uma história de cinco minutos.

-Bem, após as comemorações vieram as tarefas. Para construir uma nova tripulação nós precisávamos lidar com a burocracia local, ter documentos em ordem, orçamentos preparados, arranjar… – Ele parou ao perceber que estava contando os itens nos dedos, cruzou os braços de novo e voltou a falar. – Uma série de questões de organização. Como tesoureiro em uma tripulação de três eu tomei a responsabilidade de resolver tudo, especialmente a questão de nosso navio em ruínas. Os rumores me apontaram para um eremita debaixo da cidade, Jericó D’Damara um gênio da engenharia rúnica que oferecia seus serviços á cidade como caridade, capaz de manter uma câmara-de-giroscópio por conta própria. Eu e o capitão fomos atrás desta figura, e foi nesta parte em que tudo saiu de rumo.

Eli se virou e andou até estar de frente para o espelho, onde passou tantas horas se examinando nos últimos dias. Seu olhar pairou sobre a testa, para o pequeno galho que crescia de um lado, e então para o ramo que nascia do outro. Eli se imaginou com um par de chifres de madeira, como uma espécie de carneiro vegetal.

-Infelizmente não só a família Octavius estava atrás do capitão, como chantageou o ferreiro a trabalhar para ela. Durante nossa negociação ele nos atacou. Eu tive o azar de quebrar o joelho e parte do crânio, enquanto Jonas teve a grande sorte de ser eletrocutado e entregue para a maior família criminosa da galáxia. Jericó me largou em frente ao Açucareiro, onde fui entregue para o armazém de nossa tripulação, e então levado de volta para cá durante um ataque pirata.

Eli passou um dedo pelo novo ramo, considerando quanto tempo levaria até se acostumar com aquele novo pedaço de seu corpo.

-Passei três dias em um coma curativo enquanto me recuperava, e acordei neste quarto, onde Alice e Cecília me mantêm até terem certeza de minha saúde. Avisei á Cecília que já estava bem, e expliquei que a Madeira fechou todos os meus ferimentos e não havia mais perigo, mas ainda sim ela insistiu que eu passasse alguns dias sob observação. De alguma forma ela convenceu o capitão a ordenar que eu a obedecesse, como se eu fosse uma criança que precisasse da presença dos pais para se comportar.

Havia um sutil tom de verde em sua visão, como se uma camada de musgo crescesse sobre as lentes de seus óculos. Era preciso de atenção para perceber a mudança, mas era o bastante para lhe distrair, fazer com piscasse constantemente na esperança de limpar a vista.

-De todo o jeito concordei em permanecer aqui até perceberem que estou perfeitamente saudável. A vantagem de estar em uma taverna é o fácil acesso á comida, água e companhia. Mas os dias são terrivelmente entediantes, meus conhecidos estão ocupadas trabalhando e não há tarefa em que me focar. Foi uma benção dos ancestrais ter encontrado o gramofone.

Ele parou para examinar o reflexo de seus olhos, como havia feito tantas vezes desde que acordou. Seus olhos pareciam mais verdes que o normal, de um tom mais forte. Ele se lembrava de quando eram marrons.

-O capitão e minha colega Morvana me visitaram esta tarde, até trouxeram uma cesta de laranjas. Ele me perguntou constantemente se estava bem, ela atirou uma laranja na minha cabeça para testar meus reflexos. – Ele sorriu por um momento, um sorriso que desapareceu com o andar de suas memórias. – Durante o almoço me contaram o que aconteceu durante minha inconsciência. Os detalhes da captura do capitão até a “batalha” em Sub-Glória estão na minha gravação anterior, restam agora as conseqüências.

Ele puxou a manga do casaco e examinou o ferimento do seu braço. Onde antes era o buraco de uma bala, restava uma placa de madeira no lugar de carne e osso.

-Segundo o capitão, logo após eles capturarem o novo líder da Barracuda, eles amarraram todos os piratas túneis e os prenderam na câmara de Giroscópio, antes de voltarem para o nosso armazém na superfície. – Eli arrumou a manga de volta e retornou a cruzar os braços atrás das costas, revirando o relógio entre seus dedos. – Devo lembrar que acompanhando meus colegas estava Jericó D’Damara, o mesmo mecânico que procurei no começo deste desastre, e por acaso o mesmo que me atingiu com um martelo.

O ferimento em seu joelho não podia ser examinado no espelho, mas ele podia sentir as raízes e vinhas a cada passo que dava, substituindo músculos partidos e tendões perdidos. Mais uma rolha vegetal para os buracos em sua carne.

-O capitão voltou ao cassino por conta própria e deixou uma mensagem, explicando que conseguiu vencer o “jogo” contra os piratas e onde os deixou. Vamos deixar claro que ele não deixou uma carta ou bilhete, mas invadiu o salão principal e gritou sua mensagem á plenos pulmões para todos os clientes e funcionários. Ao invés de ser executado e jogado na lagoa, Jonas apenas foi defenestrado do edifício. A câmara estava vazia quando voltaram para lá. Uma sacola cheia de dobrões foi deixada na porta do armazém no dia seguinte, o bastante para acelerar o concerto do navio.

Em silêncio ele considerou o último mês de sua vida. Há pouco tempo quase foi morto por uma divida com a gangue de Yaakov. Foi pela intervenção de Jonas que conseguiu sobreviver, e foi por gratidão que se juntou ao Robalo. Poucas semanas haviam se passado e agora todos estavam á mercê do maior grupo criminoso da galáxia.

Memórias de uma frota emergiram. Uma dúzia de galeões transportando fortunas entre estrelas. Em seguida veio a memória da tempestade, de toneladas de destroços e duas décadas de trabalho arremessados pelo Éter.

-Desculpe, me distraí novamente. Alguns dias de ócio e minha concentração já está se estilhaçando. – Eli se virou para longe do espelho e se sentou na cama, dedos tamborilando contra os joelhos. – O plano do capitão é finalizar os concertos do navio e o recrutamento da tripulação, enquanto esperamos por novas ordens da Octavius. Não é certo quando e qual será este trabalho, ou se sequer vão entrar em contato de novo depois do incidente com Sergei, então resta apenas esperar enquanto o capitão planeja. Ele prometeu que arranjaria um jeito de não só livrar nos livrar da Família, mas livrar também toda Nova Glória. Isto é uma idéia insana, e não estou surpreso dela ter vindo de Jonas, mas… Bem, já o vi fazer idéias um pouco menos insanas funcionarem antes. Eu não sei se devo fugir daqui antes que ele destrua a lua inteira, ou se fico para ver o tamanho do fogo.

Ele se levantou de novo, sentindo suas pernas tão inquietas quanto sua mente.

-Crime organizado á parte, temos coisas o bastante para nos ocupar: Movna está reforçando o armazém contra futuras invasões, e também está trabalhando em um projeto para “construir a imagem do Robalo”. Não tenho certeza do que significa, mas envolve muitos panos; Jonas está contratando os tripulantes e serviços que arranjei alguns dias atrás; Eu por minha vez estou ocupado morrendo de tédio até Cecília me poupar; E Jericó D’Damara… – Eli parou e se dirigir á um jarro de água sobre a mesa, encheu um copo até quase transbordar e o bebeu em um único gole. Só voltou a falar quando tinha certeza que não iria encher a gravação com raiva e obscenidades. -… Jericó D’Damara recebeu o posto de mecânico oficial da tripulação. Lembrando mais uma vez que estamos falando do mesmo indivíduo que nos traiu para a Octavius.

Ele parou novamente para tomar outro copo.

-O capitão explicou todos os detalhes durante o almoço, sobre como o senhor Damara também é um inimigo da Família, foi essencial na luta contra os restantes da Barracuda e vai acelerar os reparos do navio sem exigir um grande salário. Eu até entendo, e se o que Jonas me diz dos Ferreiros da Caligrafia Imaculada é correto, então ter um deles cuidando de nosso equipamento é uma grande vantagem, mas… – Eli parou de falar mais uma vez, e foi frustrado ao ver que não sobrava mais água no jarro. –… Vou simplificar e dizer que, do ponto de vista racional, não consigo confiar nele, afinal ainda não sabemos com que crime a Octavius o subornou. Do ponto de vista irracional, quero vê-lo afundar no fundo do lago. Se não fosse nossa situação eu…

Um estrondo ensurdecedor quebrou seu raciocínio em pedaços, um som explosivo que cobriu toda a cidade.

Ele saltou para a janela, esperando ver encouraçados bombardeando a cidade. Bastou olhar para o céu para ver a tempestade se formando sobre o Porto-Lunar. Nuvens negras nasciam dos limites de Nova Glória e cresciam para seu centro, iluminadas pelas lâmpadas e Runas de Sol ao mesmo tempo em que cobriam todas as estrelas de vista. Apenas a linha tênue da Corrente 32 podia ser vista do céu.

Abaixo, os cidadãos de Nova Glória olhavam espantados para a tempestade: A mulher do sino; o vendedor de peixes; As trabalhadoras em seu caminhão cheio de tábuas; a criança e o pequeno lagarto que se escondia entre seus braços.

Todas as histórias de Nova Glória pararam diante á entrada do novo ator.

Eli, também, conseguia apenas encarar as nuvens. Um vento forte batia contra seu rosto, trazendo frio e o cheiro de eletricidade. As memórias o inundaram. Cada frustração e cada desastre se misturavam nas nuvens.

-O falcão não ouve mais o falcoeiro, as coisas caem em pedaços, o centro não consegue agüentar. – Eli recitou em voz alta enquanto encarava o céu agourento, parado á janela como uma gárgula vigilante no alto da muralha. – Já dizia algum autor ou outro da Espiral Sol. Um pouco dramático, mas cada vez mais apropriado. Tudo parece estar sempre se desmoronando, saindo de controle, constantemente se desfazendo em poeira. Você pode passar toda sua vida construindo algo, mas basta um pouco de azar e tudo é assoprado para longe. Você pode tentar reunir todas as peças e tentar reconstruir algo novo, apenas para outro desastre derrubar tudo de novo. – Eli Aros fechou os olhos, sentindo as primeiras gotas de água baterem contra sua testa, mas continuou a falar. -Há sempre uma tempestade esperando por mim, esperando que eu junte esperança o bastante para arruinar tudo. Eu posso me levantar, limpar meu casaco e continuar a trabalhar, tentar de novo, mas até que ponto? Quantas vezes devo passar por este ciclo sem fim até que não suporte mais? Quantos anos até que eu sucumba desespero e não sobre mais carne em meus ossos?

Eli continuou na janela por algum tempo, sem saber quanto, apenas ouvindo os trovões e murmúrios da multidão. Gradualmente as pessoas começaram a voltar aos seus negócios, tentando ignorar as luzes e sons que vinham de cima.

Seus dedos passaram pela superfície do relógio, sentindo o desenho gravado em sua superfície: A imagem de um punho segurando uma corrente. O emblema da família Aros.

Abaixo do punho, uma simples frase: Aros. Dever e disciplina.

Calmamente ele abriu os olhos, se virou de volta para o espelho e começou a se organizar: Vestiu as botas, ajeitou o casaco, colocou objetos de importância nos devidos bolsos, ajustou o pouco de cabelo que tinha, separou alguns dobrões, pôs seus óculos de reserva para então ler os documentos sobre sua mesa e guardar os relevantes. Quando achou que estava pronto, Eli refez o inventário de todos seus pertences por garantia.

A rotina trazia um pouco de paz e as tarefas monótonas lhe davam foco. Eli sentia seus pensamentos mais ágeis e seu corpo mais energético a medida que se preparava para mais um dia de trabalho. As preocupações ainda estavam ali, rugindo e ameaçando como a tempestade fora da janela, mas ele podia pelo menos ignorá-las enquanto tivesse o que fazer.

Por fim se dirigiu ao gramofone. O rolo tinha chegado ao fim, talvez durante seu discurso ou no momento de silêncio que se seguiu. Ele não se importou em verificar, apenas pegou o cilindro entre as mãos e a esmagou em pedaços. Ele preferia regravar tudo depois, quando estivesse menos distraído e propenso a monólogos desesperados.

Eli Aros abriu a porta e saiu para o Açucareiro. Em algum momento teria de explicar sua decisão para Cecília, mas este momento viria depois. Ele sentia que se não voltasse á trabalhar, á tentar concertar o que estava quebrado, acabaria perdendo a razão.

Pela janela, cinza se espalhava pelo céu.

Através do Éter – A Batalha de Sub-Glória

“O incêndio da delegacia foi apagado e até agora ninguém se feriu gravemente, mas pedimos aos nossos ouvintes que mantenham cautela. Não sabemos como o incêndio aconteceu ou se alguém o começou. Muito ainda pode acontecer esta noite.”

-A Voz De Nova Glória

 

 

Levaram quatro horas para Jericó terminar seu trabalho. Mais tempo do que esperava.

Um mecânico comum levaria dois dias para terminar aquele projeto, mas como um Ferreiro da Caligrafia Imaculada ele esperava mais de si mesmo.

Ele se encontrava ajoelhado em um túnel apertado, terminando de soldar uma parede de ferro-velho, formada com placas de metal avulsas e peças sobressalentes unidas em uma trincheira de metal. A barreira tinha um metro de altura, e seu topo alternava entre partes mais altas e espaços vazios, imitando as muralhas de um castelo.

Quando terminou de soldar, ele guardou o maçarico rúnico na sacola sobre seu ombro e retirou as ferramentas de entalhar. Levaram alguns minutos para gravar as Runas nas placas de metal, deixando símbolos mais imprecisos e menos poderosos do que gostaria, mas não havia tempo para seu perfeccionismo usual.

Sir Jericó guardou suas ferramentas na bolsa e examinou seu trabalho. Aquela barreira seria capaz de resistir aos tiros de pistolas e até rifles, mas ele se arrependia um pouco de não poder fazer mais, de aperfeiçoar o seu trabalho e fazer algo capaz de resistir ao tiro de um canhão.

Já tendo feito todas as modificações nos túneis que capitão Jonas lhe pediu, Jericó se deu ao luxo de analisar sua obra, desmontando e remontando-a em sua imaginação em busca da forma mais eficiente de fazer aquele trabalho.

Ele só percebeu o pirata quando sentiu o cano da pistola em sua nuca.

Sem a vantagem da surpresa ou uma arma em sua manga, ele apenas levantou suas mãos lentamente para o ar e deixou os Titãs acima tomarem conta do resto.

Houve o ruído do pirata mexendo em seu bolso, a estática de um rádio e então a uma voz irritada:

-Achei um deles. – Disse o pirata, tão exausto quanto irritado. O rádio chiou em resposta. – Não sei, ele está de máscara. Certo, vou conferir. – Seus passos ecoaram à medida que se afastava alguns metros. – Você, vire lentamente e tire a máscara, o Serg—

O pirata só percebeu que havia algo de errado quando foi estrangulado.

Jericó ouviu grunhidos de uma luta que durou pouco, e virou a cabeça cuidadosamente para trás. Ele viu Movna, um de seus braços apertado ao redor do pescoço do pirata, o outro segurando a mão armada dele para cima. O membro da Barracuda se agitou e esperneou por poucos minutos antes de perder a consciência.

-Fantástico. – Disse Jericó – Sua vinda não foi só pontual como tremendamente efetiva.

Movna se manteve completamente concentrada no pirata até ele perder a consciência, então o deixou cair no chão.

-Obrigada, mas ainda te odeio. – Ela falava enquanto retirava uma corda do cinto e começou a amarrar o homem desmaiado. – Como vai o trabalho?

-Barreiras construídas, sistemas de Runas sabotados e armadilhas fabricadas. Todas as engrenagens foram encaixadas adequadamente.

-Certo. – Ela tomou as armas e munição do pirata para si, guardando-as em um saco em seu cinto. – Minha parte está pronta, agora vamos voltar para o capitão.

Em instantes os dois andavam apressadamente por Sub-Glória, Movna na frente com seus ouvidos atentos a qualquer outra patrulha. Jericó a acompanhava com dificuldade.

-Há uma curiosidade me atormenta… – Ele começou a falar.

-Ótimo. – Movna comentou. – Ela está fazendo bem.

-Reconheço pela lua tatuada em seu rosto que você é uma Etérita. As tribos Etéritas proíbem sujar o corpo com violência, então é curiosa a forma como você…

-Agnae. – Ela interrompeu, sem se virar para trás. – Fique claro: Nasci Etérita, mas sou uma Agnae Mavrata.  O que as tribos Etéritas acreditam não vale mais nada.

-Hm. – Jericó ficou quieto. Sua respiração ofegante foi o único som que fez por alguns minutos. – É cedo de se dizer, mas compreendo sua situação.

-Como?

-Eu também nasci em um ângulo errado do universo. – Ele respondeu. – Me chamo Sir por que comecei como um cavaleiro, destinado a vagar pelo Grande Vazio armado com justiça e metal, mas abandonei minha vocação pela vida no Templo das Formas, como um Ferreiro, para vagar pelo Grande Vazio armado com sabedoria e metal de melhor qualidade.

-Não é mais cavaleiro, mas ainda é “sir”?

-Uma lembrança. Um hábito. Um parasita do qual nunca consegui me livrar. – Jericó D’Damara continuou a divagar. – Você ainda mantém a tatuagem da solitária lua crescente, então talvez tenha motivos semelhantes.

-Certo, e por que abandonou os cavaleiros? – Ela perguntou, sem se virar ou diminuir a velocidade.

-Meus motivos são muitos, cada um mais longo que o anterior. – Ele explicou.

-Conte o mais curto.

-Os cavaleiros me entediaram.

Eles seguiram em silêncio por alguns túneis, passando por canos sabotados e piratas amarrados.

-Jericó, eu ainda te odeio… – Ela começou.

-Compreensível.

-Mas se não morrermos hoje, quero ouvir as outras versões da história.

-Um bom prospecto.

Os dois continuaram a andar, e em pouco tempo chegaram ao ponto de encontro.

Era uma alta câmara redonda, uma encruzilhada de múltiplas passagens, e no centro dela estava capitão Jonas, estudando e planejando, se preparando para a batalha que viria.

Em suas mãos havia um velho mapa de todos os túneis conectados aquele ponto, marcado com setas e anotações, que ele estudava com total atenção, sem reagir á chegada de seus aliados.

Sob sua bota havia um caixote de todos os suprimentos que conseguiram reunir: Ferramentas sobressalentes, kits de primeiros socorros, pistolas, tubos de munição, placas cobertas de Runas de Ferro, fita adesiva, tiras de borracha, cordas e uma injeção de Essência de Enguia que o Ferreiro tinha para emergências médicas. Tudo de alguma forma parte do plano.

Jericó não conseguia evitar comparar Jonas com uma aranha: No centro de sua teia, tramando, apenas esperando uma vítima entrar em seu domínio.

-Trabalho pronto. – Movna gritou assim que viu seu capitão. – Jericó construiu a parte dele, e eu fiquei espreitando e capturando os piratas que chegaram perto daqui.

-Hm. – Jonas começou a pensar, sem parar de olhar para o mapa. – E como a Barracuda reagiu?

-Estão patrulhando em grupos maiores e juntando nessa área. – Ela respondeu enquanto retirava as armas e munições de seu cinto para despejá-los no caixote. – Acho que peguei uns quinze de surpresa.

-Começamos bem. – Jonas disse, abaixando o mapa, mas ainda mantendo o olhar fixo nos túneis á frente, como se pudesse ver através de suas paredes. – Diminuímos os números deles, pegamos alguns de seus recursos, acham que estamos nos escondendo aqui e agora Vão vir em maior número. Perfeito.

-Senhor Capitão, por que está feliz em se tornar alvo de tantos inimigos? – Perguntou Jericó.

-Por que se sobrevivermos e vencer, eu não quero o resto da Barracuda se reorganizando e vindo atrás da gente de novo. – Jonas explicou. – Eles têm de perder gente o bastante para não conseguirem se reformar. E também temos de capturar o líder, então me passe o rádio.

Jericó vasculhou sua bolsa até encontrar um comunicador de rádio e o jogou para Jonas, que mexeu brevemente em seus botões até achar a freqüência certa. O rádio chiou com estática e produziu uma voz.

-Encontraram alguma coisa? – Disse alguém que Jericó não reconhecia.

-Oi Sergei, você não vai acreditar no que encontrei: a freqüência do seu rádio.

-Jonas. – Sergei disse em um tom seco. – Como…

-O número estava no arquivo que a Madame deu. – Jonas tinha um grande sorriso e uma expressão condescendente no rosto, como se estivesse falando de frente com o capitão pirata. – Você devia dar uma olhada nele, é muito útil, mas faz você parecer um tanto previsível.

-Hilário. – Respondeu Sergei. – Você vem zombar de mim no momento em que minhas patrulhas descobriram seu esconderijo. É tanto desespero que eu quase penso em te deixar desistir.

-Você quase me pegou, eu admito. Tem mais peças no seu lado do tabuleiro, me tirou de minha casa e seus homens me cercaram, mas tem duas coisas que acabei de achar que fazem deste dia uma vitória.

-O que são estas coisas milagrosas? Um exército inteiro? O braço perdido de Lorde Staunen?

-Quase. – Capitão Jonas respondeu. – A primeira coisa é uma saída daqui. Você sabia que tem contrabandistas em Sub-Glória? Custou uma fortuna, mas eles concordaram em me levar para fora da lua em meia hora.

-Quer que eu acredite que por acaso tinha uma fortuna nos bolsos para pagar estes contrabandistas?

-O que nos leva a segunda coisa que eu encontrei: a espada de Baltazar Terceiro. O seu chefe. Lembra?

Por um longo minuto não houve resposta, mas ainda podia-se ouvir respiração pelo rádio.

-Você está mentindo. – Veio a acusação pelo rádio.

-Espere um momento. – Jonas tirou a espada do cinto e a admirou. – A espada é um sabre pirata clássico, uma das várias distribuídas entre os lordes piratas da Frota Negra. A bainha e o cabo são pretos, mas tem detalhes de ouro gravados por ele, a maior parte tem o formato de ondas, barracudas e a lula caolha. – Com o dedão, Jonas empurrou parte da lâmina para fora da bainha, deslizando com um ruído metálico que chegou ao rádio. – A espada é feita de metal comum, e as Runas de Ferro estão cheias de jade preta. Tem uma assinatura dourada no pomo que diz “Para Baltazar Tol, o carrasco da Corrente 32”. – Ele guardou a espada de volta. – Os contrabandistas aqui ficaram impressionados, mas não sei se vão usar de decoração ou só desmontá-la e ficar com o ouro.

Houve outro minuto sem resposta.

-Filho de uma pistola. – Veio a resposta de Sergei. – Esqueça a possibilidade de desistir, eu vou te degolar pessoalmente e pendurar seu corpo na proa da Barracuda.

-Se me alcançar. – Disse Jonas antes de desligar o rádio e se virar para Movna. – Agora ele definitivamente vai vir para cá.

-Certeza? – Ela perguntou. – Foi ótimo ver Sergei raivoso, mas ele vai vir mesmo?

-Lembra dos arquivos que a Octavius me deu? Eles tinham um perfil psicológico de Sergei. Ele é obcecado com status, honra, a história da família Baltazar e o melhor de tudo: Ele se ofende facilmente. Com o limite de tempo que demos, ele nem vai pensar antes de correr até aqui.

-Qual é nosso próximo passo nesta missão, senhor capitão? – Perguntou Jericó, impressionado.

-Agora nós lutamos com quarenta piratas.

 

*****

 

Os gritos e trovões ecoaram por Sub-Glória, mais cedo do que esperado.

-Quanto tempo falta? – Jonas perguntou sem olhar para trás, ocupado encarando a longa passagem á frente, seu pé esquerdo apoiado sobre uma barreira de metal e seus braços cruzados atrás das costas.

Da distância vinham os sons de inimigos se aproximando, primeiro tentando andar em silêncio para uma emboscada, mas desistindo no momento em que caíram na primeira armadilha.

-Mantenha calma. Pressa é a nêmese do bom Ferreiro. – Jericó respondeu, sentado ao lado e escondido atrás da trincheira improvisada. Ele entalhava Runas de Tempestade e Ferro em um par de pedaços de cano. – Mas eu sou um ótimo Ferreiro, e velocidade é um luxo que posso me dar.

-Só diga se acabou meu presente. – Disse Movna, sentada do outro lado de Jonas, batendo seu pé no chão para que todos soubessem que estava impaciente.

-Que estas imitações de armas tragam a dor e salvação de uma arma verdadeira. – Jericó anunciou e entregou dois bastões para ela.

As armas eram eletrificadas, com minúsculos relâmpagos surgindo de sua superfície. Movna segurou os canos por cabos de borracha presos por fita adesiva, os girou pelo ar para testar seu peso, e os guardou em coldres improvisados de borracha e cola.

Houve o estrondo de uma explosão, seguido de gritos. Os sons eram mais próximos, mas o túnel a frente continuava vazio.

-Chequem suas armas, munição, placas e óculos. – Jonas ordenou. Havia um medo misturado com determinação em suas palavras, como um homem de frente á uma grande onda da qual se recusava a fugir.

Movna e Jonas checaram suas pistolas, os tubos de munição em suas sacolas e ajeitaram seus óculos de proteção. Jericó não precisava de óculos graças ás lentes de sua máscara, ele apenas ergueu um bastão entalhado com Runas de Sol. Suas mãos tremiam.

-Armas para baixo. – Disse capitão Jonas. – Só apontem quando tiverem certeza que querem destruir algo.

-Só avisando, eu atiro feito um viajante bêbado. – Disse Movna.

-Apenas atire tanto quanto puder. – Jonas explicou. – Atire até acabar a munição. Recarregue. Atire de novo.

Houve outro trovão, ainda mais próximo, seguido pelo som de uma grande massa de água caindo. Não houve gritos.

Jericó sentia seu coração batendo intensamente, suas luvas encharcadas de suor, seus pulmões enfraquecendo e tornando cada fôlego um esforço. Ele odiava momentos como aquele, cheios de expectativa e tensão e nada que ele podia fazer para solucionar o problema, onde a única opção era esperar e sofrer.

Ele tentou imaginar todos os seus arredores no formato de um tabuleiro, transformando o ambiente caótico em mais um quebra-cabeça. Aqueles túneis eram familiares e não era preciso um mapa para Sir Jericó visualizar seus caminhos complexos.

Seu tabuleiro imaginário consistia dos túneis mais próximos, uma grande teia complexa de passagens. Em uma destas estavam peças de metal representando os três, logo atrás de uma barreira de metal. Dos cantos do tabuleiro vinham peças de madeira representando os membros da Barracuda. As peças dos piratas avançaram pelas passagens, procurando chegar á peça de Jonas pelo caminho mais curto e inevitavelmente caindo nas armadilhas.

Sob as instruções de capitão Jonas, Jericó alterou e sabotou os mecanismos de múltiplas salas para transformá-las em grandes ratoeiras: Salas inteiras consumidas por tempestades elétricas, corredores foram ocupados por incêndios intermináveis e passagens bloqueadas por paredes de gelo.

Mais trovões e explosões aconteceram na distância, mas não o distraíram de seu tabuleiro imaginário.

Algumas peças dos piratas foram perdidas quando encontraram os obstáculos e seu grupo começou a se dividir, procurando por caminhos seguros. Elas encontrariam caminhos curtos bloqueados por mais daquelas armadilhas; passagens abertas e seguras; atalhos que levariam por longos caminhos, mas que terminavam no mesmo ponto, e armadilhas propositalmente defeituosas por onde poderiam passar.

Independente da rota que seguiam, todos os grupos de peças eram direcionadas para o mesmo corredor a frente de Jonas.

-É como uma aranha manipulando uma teia de engrenagens. – Jericó falou. – Uma aranha de chapéu.

-O que? – Jonas disse, se virando para trás pela primeira vez em horas. – Jericó, você está confundindo pensamento com fala de…

Ele parou de falar quando ouviu os piratas chegando.

Um grupo de cinco, andando com armas em mãos e verificando seus arredores cuidadosamente, com medo de ativar outra armadilha.

-Fogo! – Jonas gritou e se ajoelhou atrás da trincheira, mirando sua arma. Os piratas o viram e correram de volta para a passagem da qual vieram.

Jonas fez um sinal para Movna não atirar, e esperou.

Um pirata se arriscou a sair de sua cobertura e atirou algumas vezes antes de voltar. As balas bateram e ricochetearam contra a barreira, mas esta sequer vibrou com o impacto.

Outro pirata, armado com um rifle, começou a mirar, procurando algum membro ou cabeça exposta.

-Jericó, luz. – Jonas gritou.

Sir Jericó D’Damara ergueu a vara para o alto, se focou Runas de Sol e elas responderam com fogo e luz.

Chamas se espalharam pelo objeto como se consumissem uma folha seca, começando com um leve brilhar que cresceu, formando uma intensa luz branca que tomou todo o túnel. Os piratas não conseguiram mais mirar, incapazes de encarar em direção á trincheira sem que seus olhos ardessem, apenas continuaram a atirar para qualquer direção esperando acertar alguém.

Jonas, Movna e Jericó continuaram a enxergar perfeitamente através de suas lentes de proteção, mas nenhum deles atirou de volta.

A batalha se tornou um impasse. Piratas cegos atirando a esmo de um lado do túnel, três pessoas escondidas atrás de paredes metálicas do outro lado, e um corredor cheio de luz e tiros entre os grupos.

Entre os assovios das armas, Jericó ouviu mais passos de fora do corredor, mais piratas chegando e se juntando ao primeiro grupo. Eles pararam de atirar e o túnel foi tomado por silêncio e expectativa.

-Vem cá, eu estou te esperando. – Jonas sussurrou.

Três minutos se passaram quietamente. Jericó sentia seu corpo queimando com a tensão.

Um novo grupo surgiu na passagem, sete piratas armados com rifles e protegidos por armaduras de argila.

Um deles tinha uma granada. Ele a ativou e jogou em direção aos três.

-Bomba! – Jonas gritou ao ver o objeto voar em um arco pelo ar para trás da trincheira.

A esfera de metal transparente atingiu o chão, quicou algumas vezes e começou a tremer, a brilhar e se estilhaçar.

Jericó não processou a mensagem a tempo, só entendendo quando Movna se levantou e o puxou para fora dali.

Os três fugiram pelo túnel.

Os sete piratas miraram seus rifles.

A granada se partiu.

Uma grande explosão tomou conta do corredor, formada do frio e vento de uma nevasca, consumindo todo o calor que encontrava, congelando qualquer coisa ao alcance. A barreira metálica que antes havia suportado um tiroteio foi arrancada do chão e partida em pedaços.

Movna e Jonas estavam distantes o bastante da explosão para só sentirem uma forte onda de ar gélido.

Jericó não teve a mesma sorte. Ainda começando a correr enquanto puxado pela gola, a explosão lhe atingiu pelas costas.

Uma camada espessa de gelo se formou em suas costas, mas não chegaram ao seu corpo. Suas roupas de Ferreiro, feitas para agüentar os perigos das Runas e grandes máquinas, salvaram sua vida.

Mas uma bota foi imediatamente congelada ao solo e o impacto o derrubou. Ele se chocou contra o chão, deslocou o pé e perdeu a vara rúnica. A grande luz branca desapareceu.

A explosão acabou. Uma nuvem de poeira e vapor frio era o que restou dela. Os sete piratas logo iriam vê-lo claramente, sem nenhuma luz ofuscante ou barreira de ferro para protegê-lo de seus tiros. A mente de Jericó foi paralisada por todo o caos, dor e certeza de que iria morrer.

Ele ainda estava se movendo, de alguma forma, mesmo sem mexer seus braços ou pernas. O pouco de razão que tinha entendeu que Movna ainda estava lhe puxando pelo casaco, deixando a bota congelada para trás, mas não era rápido o bastante para lhe tirar do alcance dos rifles a tempo.

Jonas se pôs entre Jericó e os piratas. A nuvem deixada pela explosão se dissipou. Rifles e pistolas foram disparados.

Jericó não viu o que aconteceu em seguida, apenas o teto do túnel se movendo enquanto era arrastado para longe. O ar estava cheio com o som agudo de tiros e gritos de dor estridentes.

Ele se sentiu sendo puxado por uma curva, entrando em outro túnel, e se lembrou da segunda trincheira que havia preparado para uma inevitável recuada. O tabuleiro dos túneis voltou á sua mente, um novo farol no meio da tempestade de sua mente.

Ele reorganizou as peças imaginárias, mudando a posição dele e Movna e tirando a peça de capitão Jonas do tabuleiro, voltando a compreender o ambiente ao redor. Ele se levantou e se arrastou para trás da segunda barreira enquanto Movna pulava por cima dela.

Para sua surpresa Jonas se juntou a eles logo em seguida.

-Senhor capitão, como conseguiu… – Jericó começou a perguntar. Jonas apenas olhou para ele, sorriu e bateu contra o peito, fazendo um som metálico debaixo de seu casaco e indicando as placas de metal escondidas: as mesmas que o Ferreiro passou horas fazendo com Runas e culpa.

As placas salvaram Jonas de ser morto, mas ele não saiu ileso: Em seu rosto e testa havia ferimentos de raspão, sangue escorria de seu braço e ainda mais de seu joelho, onde foi atingido por duas balas.

-Passe a injeção de Enguia. – Jonas ordenou, com palavras rápidas e firmes. – Movna, cobertura.

Movna imediatamente se levantou por cima da trincheira e começou a atirar o máximo que podia. Seus tiros tinham a precisão e mira de um tijolo em queda, mas tinham a fúria necessária para manter inimigos afastados daquele túnel.

Jericó vasculhou sua sacola, que por sorte ainda estava em seu ombro, e dela tirou uma injeção de Essência de Enguia. Ele a injetou no braço ferido de Jonas.

A substância não substituiria a devida atenção de um médico real, mas era o bastante para impedir que alguém sangrasse até a morte.

Movna parou de atirar quando não havia mais munição em sua pistola, e se escondeu atrás da proteção da trincheira. Ela e Jonas começaram a recarregar suas pistolas, enquanto Sir Jericó procurava uma segunda vara rúnica em sua sacola.

Os membros da Barracuda aproveitaram o momento e avançaram para dentro do túnel.

Cinco piratas com espadas e pistolas em mãos, seus torsos cobertos por armaduras de argila e seus olhos por óculos de proteção vermelho-sangue.

Aqueles com espadas viram a trincheira e correram para ela com toda a velocidade que podiam, gritando furiosamente com bocas abertas e dentes á mostra. Antes que qualquer arma fosse recarregada eles já chegaram á trincheira, levantando suas armas para o ataque.

Movna estava preparada para eles. Ela largou a pistola e sacou os bastões marcados de Runas. As armas se cobriram de eletricidade ao seu toque.

O inimigo mais próximo avançou com a espada. Em três movimentos Movna quebrou seu punho, o derrubou e o nocauteou. A força e velocidade de cada golpe eram o bastante para vencer aquela luta, mas a eletricidade tornava a tarefa mais rápida.

Ela imediatamente mudou sua atenção para outro atacante, bloqueando um golpe de espada. Um terceiro pirata se juntou ao segundo, ambos a flanquearam e começaram a golpear freneticamente, fincando e cortando.

Ela bloqueou cada golpe e cada espadada com suas próprias armas. O ar se encheu com rastros de eletricidade e fumaça prateada enquanto espadas se chocavam com bastões.

Houve um impasse. Mesmo cercada e em menor número, Movna era rápida o bastante para se defender de seus inimigos, mas não conseguia a oportunidade de contra-atacar.

Os outros dois piratas avançaram contra Jerico, que estava desarmado e mal conseguia se manter de pé. Ele não tinha uma pistola, e não saberia usar uma mesmo se tivesse. E não era um soldado nem um guerreiro, e não poderia se defender como um.

Ele apontou a vara para frente e se defendeu como um Ferreiro.

Através de suas luvas Sir Jericó forçou as Runas de Sol com sua força de vontade. Não com sua sutileza comum, de como se esculpisse uma estátua, mas com a força e impulso de alguém martelando a estátua em pedaços.

Chamas explodiram da vara em um soco de fogo e luz que atingiu os dois piratas, os afastando para trás, queimando suas roupas e seus cabelos. Um rolou pelo chão para apagar as chamas, o outro arrancou seu casaco e o jogou para longe.

A vara parou de funcionar, com sua superfície derretendo e deformando seus símbolos. A luva de Jericó o protegeu do calor, mas agora ele estava sem Runas e sem arma.

Tiros acertaram as pernas de um pirata, então o joelho do outro. Ambos caíram.

Jericó viu Jonas com a pistola em mãos, suas feridas fechadas e de volta a luta.

Movna aproveitou o momento de distração e nocauteou os dois com quem lutava, com pancadas eletrificadas em cabeça e pescoço. Ela jogou seus bastões para longe, danificados demais para serem úteis em outra luta, se ajoelhou ao lado do capitão e os dois apontaram suas armas para o corredor, esperando pelo próximo á tentar entrar por ele.

-Eu vi Sergei. – Jonas falou aproveitando o intervalo na violência. – No meu fuzilamento, eu vi o chapéu dele no meio da multidão. Eu só ele vir até nós e podemos acabar com isso.

-Ele pode não aparecer. – Disse Movna.

-Então vamos atraí-lo. – Jonas respondeu.

Houve um movimento para dentro do corredor. Os tripulantes do Robalo lançaram uma chuva de disparos naquela direção. Mas não havia pessoa para ser atingida, apenas uma mão segurando um casaco agora cheio de buracos.

A mão recuou para fora da esquina, e voltou segurando uma granada. A bomba foi arremessada antes que qualquer um tivesse a oportunidade de mirar nela. Ela caiu atrás da barreira, vibrando violentamente.

Desta vez Jericó soube correr junto de seus dois companheiros, sofrendo a dor de seu pé ferido enquanto fugia. Ele tentou não pensar nos piratas desmaiados perto da trincheira quando a granada explodiu em uma esfera infernal.

Uma onda de calor e luz passou pelos três enquanto fugiam. No momento em que o fogo se abaixou, duas dúzias de membros da Barracuda vieram os perseguindo, atirando e gritando com suas espadas erguidas.

Jericó D’Damara seguiu seus aliados por uma série de curvas bruscas, quebrando a linha de tiro de seus inimigos até eles, seguindo o plano de Jonas.

No final do caminho eles chegaram á uma sala retangular e sem saída, cortada ao meio por duas trincheiras de peças soldadas com uma abertura entre elas. No fundo da câmara haviam enormes tanques. Que armazenavam água para os habitantes da cidade acima.

Os três buscaram cobertura atrás da barreira. Eles podiam ouvir a Barracuda se aproximando.

– Sergei, onde você está? – Capitão Jonas sussurrou enquanto recarregava a arma. – Jericó, ainda tem seu martelo?

-Preso ao meu cinto que está preso a mim. – Ele respondeu.

-Deixe á mão. Daqui a pouco vou dar o sinal e você faz a última parte do plano. – Jonas engatilhou a pistola e assumiu posição de tiro. – Essa é nossa última parada. Temos de manter esta posição até Sergei aparecer, sem mais retiradas ou fugas, ouviram?

-E as granadas? – Perguntou Movna.

-Você atira, eu cuido das bombas. – Respondeu Jonas. Ele ouviu os piratas se reunindo na última curva antes da câmara, se reunindo para outro avanço, então retirou seu sabre com um corte audível no ar e começou a gritar. – Oi, Sergei, eu tenho sua espada bem aqui. Você vai ter de vir buscá-la, por que não vai ser um dos seus capangas que vai pegá-la.

Ele fez um sinal e Movna atirou para frente, bloqueando a única passagem que a Barracuda tinha até eles, até que as balas acabaram e ela parou para recarregar.

Neste intervalo uma terceira granada foi arremessada, um minúsculo cometa de luz branca atravessando a câmara.

Jonas ajustou sua mira e a atingiu no meio do ar.

A esfera se partiu em uma nuvem de neblina branca e gélida. Todos os três sentiram a onda de frio chegando até eles, assoprando seus cabelos, beliscando sua pele e embaçando seus óculos, mas ninguém se feriu. Movna terminou de encaixar o tubo de munição e voltou a atirar.

-É só isso? É por isso que a Octavius desistiu de vocês. – Jonas gritou por cima dos assovios da pistola. – Antes mesmo de eu humilhar seu capitão vocês eram inúteis.  Essa espada é a única coisa da Barracuda que vale alguma coisa.

Outra pausa no tiroteio e mais uma granada veio. Jonas mirou de novo e a atingiu, criando uma explosão de chamas acima de sua cabeça.

-Baltazar Primeiro lutou ao lado de Lorde Staunen? – Capitão Jonas continuou. – Bem, o terceiro se tornou um bêbado em uma lua esquecida que precisa de favores da Octavius. Como é que se estraga sua dinastia desse jeito em três gerações?

Mais uma pausa para recarregar. Mais uma granada branca veio da sala. Jonas atirou nela e causou mais uma explosão de frio por cima de sua cabeça, e Jericó não deixou de perceber o grande sorriso nos lábios do capitão.

-Ou Baltazar Terceiro era muito incompetente, ou a família nunca valeu nada. – Jonas começou a falar antes da neblina se dissipar, e mal pôde reagir quando outro explosivo surgiu de dentro da fumaça.

Ele virou sua arma de um ponto ao outro enquanto tentou atingir a granada. Ele errou cada bala e a esfera metálica caiu aos seus pés.

O objeto vibrou intensamente, uma miniatura de tempestade trovejava e relampejava em seu interior, preparando para explodir e consumir seus arredores em eletricidade e vento. Os três não tinham para onde fugir ou como se protegerem.

Jericó pegou a granada em suas mãos, e a encarou.

Suas luvas o protegeram da eletricidade enquanto espremia a esfera para impedir que ela se partisse. Mas era sua mente que realmente sofreu enquanto suprimia as Runas do explosivo, sendo atingida por inúmeras impressões e sensações alienígenas: O galopar de um cavalo, o cheiro de ozônio, o vento frio, as luzes das estrelas e a escuridão do grande vazio.

Sua visão se tornou turva como no centro de uma neblina e sua cabeça queimou com dor latejante. Toda a sua concentração e vontade eram como uma casa de tijolos sendo atingida por um furacão, partindo sua estrutura em pedaços e os jogando ao vento.

Aquilo era demais até mesmo para um especialista em runas.

Jericó, porém, era um Ferreiro da Caligrafia Imaculada.

As imagens e sensações caóticas foram substituídas por uma voz calma e firme: “Como sua caligrafia traz força ao metal, eu busco força na forja; Como o bater do martelo dá forma e o cinzel escreve suas Runas, eu busco ordem em sua arte. Mais uma vez, me construo um servo digno.

A casa de tijolos foi reforçada com ferro. Placas cobriram cada centímetro de suas paredes, parafusos e rebites prenderam todas as peças, vigas deram estrutura ao edifício, metal transparente substitui o fraco vidro e runas reluzentes deram o poder de titãs para a construção. Nem furacões e nem relâmpagos conseguiam mais afetar a casa.

A granada parou, toda a sua energia explosiva se tornou um minúsculo, mas intenso ponto de luz.

Apenas um segundo havia se passado desde que Jericó pegou a granada. Jonas o encarava espantado, momentaneamente esquecendo a batalha ao redor.

-Como você… – Jonas começou, quando piratas surgiram em uma investida frenética.

Todos os que restavam da Barracuda atravessaram começaram a surgir por aquela pequena passagem como um veneno viscoso derramado de sua garrafa, gritando e erguendo armas com toda fúria e energia que ainda tinham.

Movna continuou a atirar, esvaziando sua pistola com disparos erráticos, mas não conseguiu atrasar o avanço deles.

-Jericó, martelo. – Jonas gritou, largou suas armas, agarrou a granada e a jogou para trás.

A bomba se tornou instável no momento em que deixou as mãos do Ferreiro, brilhando e se deformando enquanto atravessava o ar em direção aos tanques de armazém.

Houve uma explosão de eletricidade e ventos. Canos se partiram em pedaços, tanques se abriram ao meio e uma enchente se derramou sobre a câmara.

A massa violenta de água cortou a sala pela metade, atravessando o buraco no centro da trincheira e atingindo o grupo de piratas que avançava.

Toda a fúria deles desapareceu quando foram golpeados pelo rio recém formado. Muitos caíram e foram arrastados pela força da corrente, alguns conseguiram firmar seus pés contra o chão e se manter de pé, enquanto um deles continuou a avançar em passos lentos.

Jericó escapou da massa de água, mas sua mente arriscava ser afogada no caos mais uma vez. Havia, porém, uma linha de pensamentos que usou como âncora para se controlar: a armadilha contra a Barracuda foi posta em prática, e era seu dever continuar o plano.

Ele mancou mais próximo da corrente e retirou seu martelo, marcado por Runas de Tempestade e coberta por um manto de eletricidade.

O Ferreiro ergueu seu martelo, o mergulhou na água e eletrificou seus inimigos.

Uma brilhante teia de raios surgiu da ferramenta, que cruzou a corrente e instantaneamente atingiu cada um dentro dela.

Dezenas de piratas foram tomados por choque e dor, tanto em mente quanto corpo. Alguns tentaram gritar e começaram a se afogar. Todos perderam controle de seus músculos, e os que haviam se mantido de pé foram levados pela correnteza.

A teia se manteve por mais alguns segundos, suas linhas brilhantes serpenteando á medida que seus alvos mudavam de posição, até que Sir Jericó d’Damara recolheu seu martelo.

A corrente durou mais um pouco até não haver mais água nos tanques. Sobraram apenas poças de água, o pingar de gotas e corpos inconscientes no chão.

Comparada com suprimir a granada, dar força á tempestade e guiar seus raios pela água a mais simples das tarefas.

Teria sido ainda mais simples matar todos. Um pouco de força de vontade bruta seria o bastante para queimar carne e destruir neurônios. Mas capitão Jonas havia insistido que o plano deveria ser não-letal, tentando poupar tantas pessoas quanto possível.

Foi um trabalho maior refinar as energias da runa para apenas nocautear seus inimigos, mas não era pouco se comparado á curiosidade do Ferreiro.

-O que a aranha está planejando? – Jericó falou exausto enquanto guardava o martelo de volta na sacola. – Sua teia tem curvas estranhas que alcançam longe.

-Confundiu as vozes de novo. – Jonas falou do outro lado da trincheira, onde havia saltado para escapar da enchente. Movna o ajudava a se levantar. – Essa devia ficar dentro da sua cabeça.

-Mais uma lição a aprender. – Jericó respondeu. – Agora que vencemos a batalha, para onde seu plano nos leva?

-Vamos ter certeza de que vencemos. – Jonas ajeitou seu casaco, retirou seus óculos de proteção e vasculhou a câmara com o olhar. –Vamos cuidar de nossas feridas, depois checamos quanta gente da Barracuda sobreviveu e quantos conseguiram fugir, então amarramos os inconscientes. E ainda temos de encontrar…

Sergei surgiu de detrás da trincheira e agarrou Jonas.

Metade de seu corpo estava encharcada e seu chapéu pendurava de sua orelha por um fio, mas ele havia escapado ileso da enchente e da armadilha elétrica.

Com uma mão ele segurou a cabeça de Jonas para trás, e com a outra encostava uma faca contra sua garganta.

Movna entrou em posição de luta, mas ficou paralisada ao ver a posição arriscada em que seu capitão estava.

-Larguem tudo que tiverem, ou vou pintar as paredes de vermelho. – Sergei grunhiu através de dentes cerrados. Seus olhos estavam vermelhos com veias inchadas de sangue e raiva. Ele deslizou a faca ligeiramente, deixando uma gota de sangue escorrer pela lâmina. Em resposta Movna deixou sua pistola cair e levantou as mãos para cima. – Não, eu disse tudo. Sem armas escondidas. Sem martelos. Sem runas.

Jericó deixou cair sua sacola de ferramentas enquanto Movna recolhia suas facas.

-Sergei, por favor. – Jonas disse em tom de deboche. Ele parecia completamente calmo, mesmo que um pouco desconfortável com a posição de sua cabeça. –Sua tripulação inteira foi derrotada por só três pessoas. É melhor desistir antes de ver o que meus dois colegas fariam com você.

-Você está pedindo para ser degolado? – Sergei ameaçou.

-Talvez eu esteja.

-Lembre-se de qual é o uso de um refém. Nenhum de vocês irá ousar fazer nada contra mim enquanto tiver minha arma em seu pescoço.

-Você vai me matar de qualquer jeito. – Jonas reclamou. – Podemos acelerar isso e pular para a parte onde você apanha?

-Errado. – Sergei pressionou a faca com mais força. – Eu não vou te matar, não se vocês me obedecerem. Eu vou te entregar vivo para a Madame Octavius.

-Titãs acima, Sergei, a Madame me mandou te matar. Ela não vai te receber de braços abertos.  – Jonas levantou a voz, quase gritando.

-Mas ela vai mudar de idéia quando souber que eu virei o jogo. – Disse Sergei. – Ela saber o que acontece com traidores e aqueles que desafiam a Barracuda.

Jericó observava a cena imóvel. Mesmo sem o caos da batalha anterior ele se sentia paralisado, sem saber o que fazer ou conseguindo sequer pensar em uma resposta para aquele problema. Não havia runas com que interagir, ferramentas com que construir ou um plano para seguir.

Ele olhou para Movna, botando suas esperanças na Agnae. Ela tinha um olhar fulminante e apertava seus punhos até os dedos ficarem brancos, mas também parecia não ter idéia do que fazer.

-Você da máscara. – Sergei falou para Jericó. – Vá até aquele sabre negro e mande até mim.

Jericó mancou até a espada de Jonas, e com a ponta da bota a chutou para perto do pirata. Sergei olhou pensativo para a arma no chão, sem saber como pegar a arma sem soltar seu refém.

-Mudança de plano. – Sergei voltou a falar. – Pegue o sabre e venha comigo, mas não se aproxime demais ou irei…

-Não, já perdi a paciência. – Jonas interrompeu. Ele agarrou a lâmina da faca, puxou para o lado e cortou a própria garganta.

Tudo pareceu deixar de existir para Jericó enquanto observava capitão Jonas cair. Uma mancha rubra se espalhou por roupas azuis e pelo chão cinzento.

Ele levantou seu olhar para ver Sergei, surpreso e também de olhar fixo para baixo, tentando entender o que aconteceu.

Quando o pirata olhou para frente Movna já estava sobre ele como um pássaro feroz.

Jericó aproveitou a distração, agarrou sua sacola e se agachou ao lado de Jonas enquanto Movna descarregava sua fúria sobre Sergei.

O Ferreiro não era um médico e pouco entendia dos engenhos do corpo humano, mas tinha experiência com ferimentos causados por todos os tipos de maquinários, e talvez pudesse manter o capitão vivo por alguns momentos a mais.

Ele vasculhou sua sacola com mãos tremidas. Talvez Runas de Sol pudessem cauterizar o corte, mas havia o risco de queimar a garganta. Runas de Nevasca podiam congelar sangue e tampar o corte, mas poderia bloquear completamente sua traquéia. Jericó retirou um par de ferramentas, planejando usar ambas.

-Você ia enfiar uma chave de fenda em mim? – Jonas disse enquanto sentava.

-Não se mexa. – Jericó falou assustado. – Cada batida de seu coração é um passo que a morte se aproxima.

Jonas sorriu, levou uma manga ao pescoço e limpou o sangue. O corte em seu pescoço havia se fechado, coberto por uma camada de algo vermelho e gelatinoso.

-Estou cheio de Essência de Enguia, lembra? – Capitão Jonas explicou. – Enquanto sobrar algo da injeção, meus buracos se fecham antes de vazarem muito. Infelizmente ainda dói.

-Você… Você planejou ser capturado? – Jericó falou.

-Não, o plano já havia saído de controle. Eu só improvisei e usei o que tinha. – Jonas disse através de seu sorriso. – Obrigado por tentar me salvar, agora vamos ver se sobrou alguma coisa do Sergei.

Por trás de suas lentes negras, Sir Jericó encarava capitão Jonas com olhos arregalados. Ao invés de expressar qualquer um dos inúmeros pensamentos que infestaram sua cabeça, ele apenas deu uma mão e ajudou seu aliado a se levantar. Haveria tempo para reflexão depois.

Ao lado estava Sergei caído no chão, acordado, mas imóvel. Sua perna estava dobrada em uma posição improvável e respirar havia se tornado um esforço doloroso. Movna estava de pé ao lado, massageando o nós dos dedos e respirando ofegante.

-Jonas? – Ela perguntou ao ver o capitão de pé.

-Essência de enguia. – Ele respondeu. – Obrigado por me vingar.

-Há. Eu sabia que não era um idiota com uma adaga que iria te vencer. – Movna gritou, sorrindo e quase saltando, antes de olhar para o corpo quebrado de Sergei e perder parte do entusiasmo. – Acho que exagerei um pouco com nosso amigo aqui. O que fazemos agora?

-Por enquanto cuidamos de nossos ferimentos e imobilizamos os piratas. Lidamos com o resto depois.

Capitão Jonas se abaixou, pegou o sabre negro jogado ao chão, o prendeu ao cinto, ajustou seu quepe e então seu casaco, agora manchado de vermelho.

Quando terminou de se arranjar, ele chegou perto de Sergei e chutou seu rosto, arrancando o pouco que tinha de consciência.

-Ei, Jericó. – Jonas chamou.

-Sim? – O ferreiro respondeu.

Agora nós vencemos.